segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O corpo da mulher na arte: quem define o que é belo e seus padrões?

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Artista e professora de artes. Mestre em performance feminina pela UFAC. Pós-graduada em história da arte e formada em Teatro pela UEA

Considerada o manual de instruções das mulheres, a revista Vogue foi uma das primeiras revistas de moda que li. Lembro-me de ter visto Julia Roberts na capa — linda e cheia de poder no olhar. Parecia me dizer: “Arrume-se, passe um batom, faça o cabelo e sorria.” Então, eu pensava: “Seja bela.” Assim, tornei-me uma consumidora assídua de revistas mensais. Na época, elas eram impressas e chegavam em casa por assinatura. Eu folheava suas páginas para ver, apreciar e mergulhar na vida das celebridades — e, inevitavelmente, para me comparar a elas.

Eu era tão refém da moda e da beleza que um comercial da Xuxa ficou gravado na minha mente. Ela dizia: “Olha o que eu tenho e você não tem.” Nossa, essa frase era magnífica aos meus ouvidos — até que, tempos depois, eu me projetei demais na ilusão chamada perfeição. Isso só aconteceu no mestrado, quando intitulei minha dissertação Complexo de Barbie: percurso criativo de uma atriz em construção. No primeiro capítulo, eu abria com Seja eternamente linda. Achei que o título e os capítulos diziam muito sobre a história da beleza. Seja eternamente linda remete à ideia de algo infinito, como o mito da beleza. Mas me deparei com o fato de que nem sempre a beleza esteve ligada à estética.

Na minha dissertação, compartilhei esse complexo do visual perfeito ao performar Complexo de Barbie. Durante essa experiência, eu me mutilava simbolicamente, repuxando meu rosto com papel Insulfilm, sentindo a necessidade de uma mudança. Houve momentos em que me questionei sobre os aspectos comportamentais que me levavam ao desconforto corporal, principalmente pela pressão dos padrões impostos. Quem definiu o que é belo? Eu sei como começou o prazer pelo padrão, mas não sei como pará-lo. O que acontece com o nosso corpo quando ele vira uma tela de apreciação?

Ficamos viciadas em parecer lindas sempre e para sempre. Outro dia, me deparei com as mudanças no meu corpo depois que completei 30 anos. Lá se foram os 20 — e, com eles, a tão chamada juventude. Para nós, mulheres, as coisas mudam. Como uma massa exposta ao calor, tudo parece desandar. Então, passamos a preencher aqui, puxar ali, esticar um pouco, aplicar cremes para ver se melhora. Mas por quê? Sou consumidora de moda, aprecio as tendências e não tenho o menor pudor em admitir isso. Ainda me vejo distante de levantar bandeiras com frases como “Abaixo a ditadura da beleza”. Essa sou eu: uma vítima da complexidade de um tema que atravessa séculos e ainda levanta debates sobre opressão. Um padrão que muitas mulheres estão dispostas a pagar para alcançar — e eu pagaria bem, se tivesse dinheiro. Mas será errado querer se sentir bem sem culpa?

A história da beleza está diretamente ligada à valorização de padrões estéticos. No passado, o ideal feminino era representado por mulheres obesas, sinal de fertilidade e prosperidade, pois demonstrava fartura alimentar. Já entre os egípcios, a beleza era simbolizada por jovens esbeltos, de quadris estreitos, ombros largos e cintura fina — a simetria era considerada a base da perfeição. A juventude era valorizada por sua homogeneidade e forma. Essa obsessão pela beleza já fazia alusão às pessoas mais jovens, o que reforça o conceito de que o Complexo da Perfeição nada mais é do que a busca por parecermos eternamente jovens — pois a juventude nos dá pele firme e maior produção de colágeno.

O corpo da mulher sempre carregou significados profundos. Ele se tornou uma projeção do impacto da sociedade, refletindo valores sociais, ideológicos e morais. Com a modernidade, surgiram novas formas de expressão na moda e na estética.

A partir dos anos 1830, a mulher passou a ser responsável pela imagem pública de sua família. As esposas, no lugar dos maridos, tornaram-se responsáveis por preservar as aparências sociais, determinando o status da família. Assim, ocorreu a feminização da cultura estética no século XIX, processo que se acelerou com a mídia impressa feminina — as revistas — e intensificou o consumo entre as mulheres.

A cultura do corpo perfeito se consolidou no Brasil a partir da década de 1920, com a chegada do cinema, que globalizou um ideal físico. No fim dessa mesma década, sob a influência das indústrias de cosméticos, da moda, da publicidade e de Hollywood, as mulheres passaram a aderir ao uso de maquiagens e procedimentos estéticos. Valorizavam-se os corpos curvilíneos até os anos 1980; a partir dos anos 1990, o padrão passou a ser o corpo magro. Nos anos 2000, as plásticas se popularizaram, seguidas, mais recentemente, pela harmonização facial e pela remoção de próteses de silicone, já que a tendência atual é rejeitá-las. Tudo isso foi impulsionado pelas revistas femininas da época e, posteriormente, pelas redes sociais.

Contudo, preciso falar sobre isso porque foi nesse tema que me encontrei como pesquisadora. É possível perceber que a valorização da beleza estética reflete, paradoxalmente, a fragilidade das mulheres diante de suas conquistas. De que adianta escalar uma montanha se, sem uma boa maquiagem fixadora? O mito da beleza, hoje, representa uma forma de controle individual, pois a noção do belo nos é imposta e reforçada diariamente — de maneira massacrante.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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