Quando se diz “o planeta está doente” ou a “natureza se vinga”, se está usando de uma metáfora para chamar a atenção de si próprio para algo que está a incomodar. É um recurso de linguagem que o ser humano (“a natureza consciente de si mesma”, segundo Engels) usa para se convencer de que está diante de uma realidade, que antes não o preocupava, principalmente não o amedrontava.
Chama-se a esse processo de antropocentrismo, segundo o Google, “um pensamento que coloca o homem como indivíduo central para o entendimento do mundo”; isto é, o homem (ser humano, ó patrulheiros) transfere para a natureza (que não pensa nem sente) todos os seus sentimentos, na função absurda de um juiz que investiga, processa e sentencia.
Já se observou, por exemplo, que Deus (Alá, Jeová etc.) é a imagem e semelhança do homem, o que pode ser revisto (e o é no pensamento teocêntrico) para “o homem é a imagem e semelhança de Deus” (Alá etc.).
Então, à imagem e semelhança do homem, o planeta está doente e, claro, pode “morrer”. Isso acontece, quando o homem (o ser humano, a humanidade e semelhanças) está doente e pronto para morrer – de maneira mais drástica (e antropocêntrica): pronto para sumir da face da Terra, o que só tem interesse para a humanidade e suas semelhanças.
O planeta (a natureza e equivalências) não vai sentir a menor falta dessa presença; será como se nada estivesse a acontecer ou acontecera. Quer dizer, tudo será como antes de o homem (a humanidade etc.) ter surgido sobre a Terra; antes mesmo que a Terra fosse Terra. O medo é uma das armas mais eficazes da sobrevivência. É quando se está doente que se procura a cura. É o que está a acontecer.
O que adoece o homem e o planeta pode ser detectado na economia, isto é, no sistema de produção de bens e produtos criados para a sua (dele, homem) satisfação de mando e desmando. Daí se pode tirar o diagnóstico e prognóstico. O diagnóstico é: está doente. O prognóstico: pode morrer a qualquer momento.
Esse modo de produção “que ergue e destrói coisa belas, apagando as estrelas” (Caetano Veloso, em Sampa) foi acelerada no período que a história registra como Revolução Industrial (século 18), quando meios mecânicos substituem a tração animal (a máquina substitui o homem). Mas a doença do planeta só foi tornada uma questão de saúde coletiva (e global) a partir da metade do século 20.
E o primeiro canal de distribuição do “S.O.S Planeta” encontra receptividade no jornalismo (impresso, falado, televisado), que antes tinha preferência pelas novidades tecnológicas e científicas que alteravam (e “modernizavam” para melhor, na visão daquele momento) as condições de vida desses viciados em controle remoto, guerras por riqueza e novos mercados.
O progresso tornou-se um mito e passou a ser visto (e consumido, como ideologia) por dois pontos de vista: 1- o determinismo que impele a humanidade sempre para a frente e 2 – a leitura científica de que esse procedimento impede a humanidade de suspeitar (ao menos) que, lá na frente, pode estar vindo um trem em sentido contrário. Geralmente está.
E está nessa economia o problema de saúde do planeta-homem, que está levando-o ao aniquilamento, como o atesta até quem não acredita no fim do mundo. O discurso do jornalismo, quaisquer que sejam as formas com que se apresente, também padece da “influenza” da economia, plataforma do bem e do mal.
Os grandes conglomerados econômicos influem diretamente, e até editam (não esqueçamos que as empresas jornalísticas… são empresas) e orientam essa discussão, a favor ou contra o modelo econômico vigente. A linguagem de qualquer forma de expressão tem o DNA da economia, por mais “independente” que ela (a linguagem) se pretenda. Nossas raízes nos “traem” e nos condenam.
A situação é: o jornalismo pode, sim, influir, na discussão, como se diz, “esclarecendo” seu público sobre o momento crítico, ao se aliar ou engajar às parcelas mais conscientes da ciência e da tecnologia e da política, que administra esse jogo de matar ou morrer.
É preciso parar esse modelo determinista cujo objetivo inconsequente tem por consequência a destruição do planeta. Não se trata mais de uma questão ideológica entre esquerda e direita. Nem de ignorância ou má fé, mas de um impulso suicida de quem vive como se não houvesse amanhã. Nunca se saberá qual será a dose que provocará a overdose. Estamos a viver nesse “a qualquer momento”.
E o jornalismo também vive essa atração fatal – como não – e tem as suas tendências para a ilusão da luz, que pode resultar em escuridão no fim do túnel. De acordo com o novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak, o futuro é ancestral. Nós o carregamos às costas. E o fim sempre esteve bem próximo de todos os elementos, pensantes ou não. A natureza é a vida que segue. Nós é que passamos, de dose em dose.
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