Incrível o que os festivais de teatro proporcionam ao público: uma diversidade de espetáculos, temas, linguagens estéticas. Em Manaus, o Festival Sesi Cultura Infância – Uma Visão de Futuro foi assim. Em seu último dia, coroou essa diversidade com um belo espetáculo local, O Casamento da Filha do Mapinguari, da Cia. Vitória Régia, da própria Manaus. Um espetáculo de rua, com muita energia, muita vibração, celebrando a cultura popular da Região Norte do nosso país. É uma comédia mitológica, se quisermos defini-la e engavetá-la.
Nonato Tavares é o diretor, está no elenco (no papel do Mapinguari!), assina também cenografia e figurinos e divide a criação das máscaras com Roberto Suarez. Merece todo nosso respeito e admiração por tantos anos integrando a Cia. Vitória Régia, fundada em 1982, portanto já há 42 anos. Essa peça, escrita por Roberto Burguel, está no repertório do grupo desde 2022 e já passou por vários versões.
O enredo é fabular, daqueles em que animais falam. A feiosa figura mitológica do Mapinguari, aquele de um olho só no meio da testa, quer casar a filha, que não é ninguém menos do que a Lua Nova. Ela se esconde o tempo todo num véu preto, porque, dizem, é feia como o pai, que quer casá-la a todo custo e convoca os candidatos. Um a um ela vai descartando os pretendentes: o tamanduá porque come demais com aquela língua grande, o bicho folharal porque sabe-se lá o que esconde por debaixo de tantas folhas, o tucano por causa do bico grande, que faz dele um intrometido… E assim por diante.
Cada um desses personagens tem sua canção própria, o que é ótimo. São composições muito boas, deliciosas de ouvir e defendidas com garra pelo elenco. E as caracterizações de cada personagem merecem muitos aplausos. Estética boa, criatividade a mil, cada boneco que entra a gente se deleita com a força plástica do regionalismo. Grande sacada, sobretudo por ser peça de rua, é chamar na plateia também alguns pretendentes ao casamento. Resulta em cenas improvisadas muito divertidas.
A cena final é bem romântica, defendida com garra por um excelente ator-cantor, Ismael Farias, que tem uma voz belíssima e afinada. É ele quem dá o mote para “a moral da história”, que nunca falta na estrutura das fábulas: aos olhos do amor, tudo fica bonito. Inteligente também é fazer o par romântico retirar suas máscaras na última cena, mostrar que são atores e que tudo não passou de teatro. Só faço uma única e pequena ressalva ao espetáculo: o boneco Mapinguari tem pouca mobilidade, fica o tempo todo em cena e, por isso, deveria ser mais ágil. A gente olha para ele em muitos momentos em que está parado no meio do espaço de encenação, feito estátua. Isso é ruim para um boneco, ainda mais quando é o protagonista.
Nessa mesma noite, mas agora no Teatro Icbeu, o festival faz sua última sessão, Bom pra Cachorro – Circo-Teatro do Abelardo, com a Cia. Caixa do Elefante Teatro de Bonecos, do Rio Grande do Sul. Outra experiente companhia, que orgulha a modalidade de teatro de animação no Brasil. Foi um fechamento muito especial e afetivo, já que o personagem principal, o cachorro Abelardo, criado e manipulado pelo ator e diretor Mário de Ballentti, foi o mestre de cerimônias em todas as sessões do festival, durante oito dias, sempre com muita empatia e graça – e, assim, a plateia já o admirava, principalmente as crianças. Virou o mascote do festival, querido por todos.
Em Bom pra Cachorro, com roteiro e direção de Mario de Ballentti e Rafa Cambará, e tendo Mario e Gabriel Felds como atores manipuladores, vivemos 50 minutos de puro tributo aos circos de antigamente, com seus números clássicos e divertidos, todos introduzidos pela simpatia do cachorro Abelardo. Há inclusive a seguinte frase no roteiro: “Maior espetáculo da terra? Sim, o circo já foi. Já foi. Pois agora estamos atolados no barro e com pneu furado.”
Trata-se de um espetáculo muito apoiado na palhaçaria, com uma dupla de palhaços (Bolacha e Gafanhoto) fazendo – muito bem – tudo o que já conhecemos, gags, trapalhadas, erros, trocadilhos, humilhações entre si. É delicioso se sentir assim acolhido por um espetáculo, que nos oferece uma linguagem conhecida, familiar, sem riscos, nos aquecendo na plateia, não só pelo saudosismo, mas por ver as crianças da geração de hoje se encantando tanto por essa figura eterna do palhaço de circo.
Trata-se também de um espetáculo com humor muito ingênuo, puro, sem malícias. E isso tem sido raro no teatro infantil. A graça é retirada de delicadezas, de situações inocentes, quase cândidas. Isso faz com que seja muito bem aceito por crianças da chamada primeira infância. Essa “gente inocente” que ainda ri com espontaneidade. Não é fácil conseguir isso, porque não é uma peça que se apoie em bordões conhecidos, em grosserias apelativas – recursos fáceis e pouco inteligentes. Bom pra Cachorro é um raro exemplar de atração que cativa pela pureza de intenções. Foi lindo terminar assim um festival tão diverso e esperançoso, de olho em um futuro possível para nossas crianças do século 21. Que a inocência nunca saia de cena, qualquer que seja esse futuro. Obrigado, Caixa do Elefante.