As tais “fake news” viraram moda. É difícil comentar algo sobre política sem tocar nesse tema. Aliás, elas já são um dos assuntos mais discutidos, quando se fala em modernidade e mídia, atualmente, nem só na política.
Porém, para além das fake news, nós temos por aqui um primo próximo delas: o boato. Eles alimentam a campanha local, dão o tom dos debates e pautam a atuação da mídia.
Certamente, que isso há em outros locais. Contudo, aqui já virou um tema determinante da campanha, do jornalismo local e dos próprios marqueteiros.
Some-se esse ponto ao fato de que há uma tradição no acompanhamento local da esfera política, que é a obsessão pelos ‘bastidores”. Às vezes, os comentaristas não analisam os fatos nem suas consequências, mas preferem aprofundar nos bastidores, contando histórias pessoais ou curiosidades sobre o fato, sem entrar na sua materialidade.
Começamos a atual campanha já falando que Cidade e o capitão iriam se unir. Até hoje, três meses depois de se lançarem pré-candidatos, não se juntaram nem deram sinais de que isso ocorrerá. Porém, os programas de entrevistas insistem nessa pauta. Onde vão, precisam responder se farão uma chapa única, o chapão da direita.
Isso faz com que se deixe de lado os projetos deles, pois a insistência é na tal união das chapas. Para melhorar o boato, há várias insinuações, todas supostamente abalizadas, dizendo que o governador fará “isso”…ou “mandará fazer aquilo”…no fim, nada acontece e só fica o clima de boataria no ar.
E, para não dizerem que só a direita é alvo de boatos, a esquerda também os seus. Um dos mais recorrentes é dizerem que Marcelo irá apoiar o prefeito David, sendo o seu vice.
Marcelo acaba gastando grande parte do seu tempo driblando tais insinuações. Não fala de projetos, financiamentos ou recursos, pois precisa esclarecer se haverá tal aliança.
Aliás, haver alianças é normal. Lembremos o exemplo de 2016, quando as chapas tinham uma composição, mas, na hora das convenções, mudou tudo. O que incomoda é a persistência de tais boatos. Acabam os jornalistas se preocupando demais com os tais “bastidores”, tentando captar “sinais” de possíveis namoros ou flertes, deixando de falar de política, de gestão e de economia.
Outro boato que possui razoável durabilidade é aquele que coloca Maria do Carmo como vice do capitão. Haveria encontros meio “secretos” dos dois nos quais tal aliança estaria sendo construída.
Os dois passaram vários dias afirmando que houve conversas, mas nada que apontasse para uma chapa única. Porém, os veículos insistiam nisso, deixando de lado as candidaturas e sempre voltando a esse ponto. Ainda hoje, depois de algumas semanas, ainda volta, quando as pautas esfriam, esse tema.
Agora, já vi surgir novo boato. Natália (PSOL) seria vice de Marcelo. Diversas entrevistas dela ontem buscavam negar tal fato. Contudo, a versão era boa e prosperou nas redes sociais. Vamos ver até aonde ela prossegue.
Enfim, esses são alguns dos boatos (ou fakes) que habitam nosso universo. Eles se alimentam dessa sede por um saber de “bastidores”, no qual certos analistas mostrariam ser mais “espertos” do que outros.
Há outros tipos de boatos, com certeza. Muitas especulações circulam, todas afirmadas com segurança, sobre X ser laranja de Y ou W estar a serviço de Z… e assim por diante.
Esse tipo de boato conta com uma certa magia do segredo, do oculto. Quem o espalha possui uma espécie de poder sobre os outros, pois conhece algo que os simples mortais nem desconfiam.
Em suma, toda eleição é disputada em um certo horizonte. O nosso, pelo visto, é o dos boatos e dos segredos de bastidores. O que tento chamar a atenção é o tempo que se consome nisso – buscar os mistérios ocultos das candidaturas – em vez de se pensar em projetos, avaliar sua viabilidade ou se terão recursos, de fato.
É mais excitante debater, pelo visto, se X será aliado de Y ou se W está sendo pago por Z, do que falar do orçamento, das propostas e de sua real possibilidade de implementação. Infelizmente, tais segredos não governam…eles se desmancham assim que a eleição acaba e a dura realidade dos fatos (orçamento, pessoal, recursos, gestão etc) prevalece.