Ao pensar em um corpo com deficiência a tendência encontrada é de percepções institucionalizantes limitadas pelo termo PCD (pessoa com deficiência), assim mesmo, sem pluralidade, sem histórias, sem identidades, quase como um cercadinho DEF. Edu O. nos chama atenção para “Se a sua inclusão quer nos colocar nos cercadinhos específicos que mais excluem, sim, você é bípede. Se entende que o seu corpo sem deficiência é a única possibilidade de humanidade, sem dúvida, você é bípede” (CARMO, 2023), nesses cercados “exclusivos” para pessoas com deficiência que se apoiam em um discurso segregador do mito da inclusão, não cabem transversalidades ou interseccionalidades, muito menos as encruzilhadas.
Edu explica que bípedia “É uma lógica de organização social que parte da perspectiva de quem não possui uma deficiência e reconhece o mundo exclusivamente pautado por suas demandas, desconsiderando todos aqueles que estão fora dessa normatividade de corpo.”. Precisei iniciar o texto com, Edu. O, porque além de uma das maiores referências nas artes é também um grande amigo que fiz, no que venho entendendo como ENCRUZILHADA DEF. A encruzilhada é então um lugar de encontro, coragem e revolução. Dentre muitas coisas que poderia escrever sobre a experiência da Cultura DEF, escolhi pedir a benção das mais novas, a bençao das mais velhas para saravá uma escritacumba e sair da institucionalização enrijecida para gingar um pensamento em homenagem as mulheridades que fogem da misoginia e da corponormatividade que junto com o patriarcado tenta nos colocar em caixas. Aqui usarei alguns neologismos que cruzam terreiro-deficiências-cena.
Dentro das muitas coisas que faço enquanto Aleijadora Cultural, artista professora e palhaça, foi na direção que iniciei minha caminhada nas artes da cena e assentei minhas raízes de criação, por muito tempo sobrevivi de teatro, mas quando encruzilhei meu ofício com minha espiritualidade, parei de sobreviver e passei a supraviver. Como cita Luiz Antonio Simas “É na supravivência que o malandro divino e a dona das tabernas e encruzilhadas atuam. Eles trazem em seus corpos o grande signo da malandragem, a capacidade de se adaptar aos espaços do precário, e acabam subvertendo estes próprios espaços ao praticá-los como terreiros de saberes encantados, sacralizando o mundano e profanando o sagrado.”. Ter sobrevivido e até supravivido até aqui realmente precisou de estratégias que hoje gosto de pensar como malandrear os sistemas hegemônicos.
Por mais que a bipedia e a rotina de capacitismos me dissessem que determinados espaços e formas não eram pro meu corpo encegueirado, eu não só discordava como buscava outras formas e perspectivas de ser e fazer arte, isso agiu diretamente na -des-forma como dirigia atrizes, palhaças e artistas que procuravam meu trabalho. A sensorialidade, a espiritualidade que se fez envolvida nas práticas e nas gingas mostraram que a diversidade de corpos de tantas mulheridades eram potentes nas suas multiplicidades, e isso poderia e deveria se encontrar (cruzar). A compreensão do que citei no começo da nossa conversa sobre termos institucionalizantes como “pcd” e o “mito da inclusão” se mostrava como um projeto político de manter os poderes hegemônicos dos ambientes que eu vivia, comecei a pensar na contramão que é a arte e inclusão baseando-me na escrita de Estela Lapponi com o Manifesto Anti-inclusão:
“A Inclusão propõe hierarquia de capacidades.
A Inclusão é incapaz de ver e enxergar.
A Inclusão é incapaz de ouvir e escutar.
A Inclusão é simplesmente incapaz.
A Inclusão pressupõe passividade.
A Inclusão não interage.
A inclusão causa pena.
A inclusão é unilateral.
A inclusão exclui.
A inclusão isola.”
Entender que a inclusão é um MITO enquanto diretora foi libertador. Primeiro que sempre me perguntava “ME INCLUIR ONDE? Na normatividade de corpo? No pensamento bípede?” Se diziam que queriam me incluir logo afirmavam que eu estava fora, mas eu já existia, existia com meu corpo e com minha criação DEF. Eu precisei olhar para essa forma de dirigir e de criar como algo potente e não algo que dependia da permissão de alguém, na sua maioria das vezes “homens das artes”.
A força da gira tá na roda e estar em roda com várias formas de mulheridades era, e é, o que move. Honrar as que vieram antes e pensar nas que virão depois me motiva a continuar. Quando proponho encruzilhar é parar de permitir que estejamos em caixas sem texturas. É permitir o encontro das diversidades transpassadas por muitas formas de existir enquanto CORPOS. No plural.
Sou um copo DEF que me autorizo nos espaços, que não sou unilateral. Não preciso ser chamada só quando o assunto é deficiência ou em dias específicos, posso falar sobre processos, sobre direção teatral, sobre comicidade e sobre tantas outras coisas.
Artes da cena não deve padronizar corpos, não deve ser uma busca incessante em caber na forma dita pelo patriarcado das artes. Quando penso na obra-vida, penso na necessidade de atravessar aqueles que assistem, penso na urgência de diversidade de corpos nas universidades, nos palcos, nas políticas culturais, malandreando o sistema dos ditos “espertos”. Se encontrando na encruzilhada da vida e dos sonhos, mudando lógicas, sendo nós supraviventes. Enquanto palhaça, diretora def digo:
Seremos com e como os nossos ancestrais, daremos gargalhadas, gargalhadas que ecoam para corponormatividade entender que são tempos outros, tempos de ginga, de corpos que não pedem mais permissão para estar e ocupar. Estamos. Vivemos. Somos. Meu corpo enceiguerado tem axé e bênção. O futuro é DEF.
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