domingo, 25 de outubro de 2026

Mulheres negras transformam a cena teatral em Manaus

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Atriz, palhaça, arte-educadora e pesquisadora manauara. Mestre em Sociedade e Cultura pela UFAM (2022), especialista em Gestão e Produção Cultural pela UEA (2022) e bacharela em Teatro pela UEA (2019). Está cursando Licenciatura em Teatro também pela UEA. Atua na cena teatral profissional desde 2017.

A cena teatral local movimenta a economia criativa da cidade de Manaus. Quando falamos sobre isso, é inegável a contribuição feminina negra para a cidade. Desde a gestão e produção cultural até a atuação em trabalhos artísticos. Em meu trabalho de conclusão da Especialização em Gestão e produção Cultural pela UEA em 2022 pude, a partir de informações disponibilizadas pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa sobre os editais voltados para artistas negros nos anos de 2019 a 2022.

 Houve 13 editais culturais com o número de 1.600 projetos contemplados, sendo 200 de pessoas autodeclaradas negras ou pardas. Ou seja, apenas 12,5% de artistas negros foram contemplados nos últimos 4 anos, em contraponto a 87,5 de artistas não negros contemplados. Entretanto, nos anos de 2024 e início de 2025 os últimos editais possibilitaram cotas para pessoas pretas e pardas e pontuação diferenciada para mulheres negras, o que tem possibilitado a democratização e o acesso por direito de artistas negras à esses recursos e a oxigenação e diversidade para a própria cena teatral manauara.

Na pirâmide predatória do capitalismo, mulheres negras são a base porque historicamente foram forçadas a trabalhar fora de casa, seja nas indústrias, seja em casas de família para trabalhos domésticos, precisando buscar seu subsídio a partir da força da mão de obra de seu trabalho. 

Em nossa arte, acabamos assumindo multitarefas, caráter específico de artistas de teatro a cidade de Manaus, que muitas vezes assumem múltiplas funções na cena e fora dela para sua subsistência, visto que a cena cultural ainda caminha com traços dos períodos históricos de desmonte de políticas culturais e a precariedade do nosso ofício, que ainda tenta se estabelecer, apesar dos pesares.

 Historicamente, o trabalho do cuidado sempre foi destinado a nós, mulheres negras. Além de nossos ofícios, a nós é encarregado o trabalho de cuidar. Nossos corpos são precários à medida em que necessitamos nos desdobrar em várias funções, com ou sem apoio, investimento.

Quando falamos sobre políticas afirmativas, estamos pensando em medidas temporárias com o intuito de corrigir desigualdades sociais. Elas reconhecem a necessidade de criar meios para equiparar determinadas realidades prejudicadas historicamente e a existência das desigualdades raciais.

Segundo Carla Akotirene, intelectual negra brasileira, o conceito de interseccionalidade diz respeito a um conjunto de opressões que não se estabelecem de maneira isolada, mas que se cruzam e se intersectam criando recortes de opressão complexos. Racismo, sexismo preconceitos a partir de classe social, todas essas questões se entrecruzam possibilitando, além de violências simbólicas, o nosso não acesso à direitos.

Mapeamento de mulheres negras na cena profissional

Das mulheres que conheço e pude ter tempo hábil para registrar até a entrega deste texto estão: Kelly Vanessa (artista, arte educadora e produtora cultural); Rafa Guimarães (Gestora e Produtora do Caia Criativo); Vanja Poty (artista, pesquisadora, professora e gestora do Nupramta); Samantha Leite (artista e arte educadora); Francine Marie (artista, gestora e produtora  no Barravento Cultural); Andreza Afroamazonica (artista no grupo Garagem); Correnteza Brava (artista, pesquisadora na Café Preto Produções); Verlene Mesquita (artista, pesquisadora, produtora cultural e bonequeira no Luzeiros Arte); Jaqueline Ferreira (Artista e Gestora do Luzeiros Arte); Adriana Cris (artista e gestora da Casa Taua Teatro Caá); Brisa Ramos (palhaça); e Aline Cassiano (artista e palhaça).

Além das artistas que mencionei, a Universidade do Estado do Amazonas, conta com o Curso de Licenciatura e Bacharelado em Teatro onde diversas estudantes negras, graças às políticas de cotas raciais aliadas a diversas ações de expansão do ensino público superior. Segundo o Senso de 2022 de educação a parcela de pretos e pardos acessando o ensino superior quintuplicou em 22 anos, mas a parcela de brancos com o ensino superior segue sendo mais que o dobro de pretos e pardos.

Essas artistas se experimentam e pesquisam teatro na universidade, produzindo arte que tece essas linhas que se entrecruzam nas diversas linguagens do teatro e claro, mulheres negras que atuam na cena profissional e não necessariamente tem uma trajetória acadêmica, mas tem a prática irradiada na sua vivência. Nos mostrando que o compromisso poético da arte de mulheres pretas de Manaus se faz pela subjetividade de cada mulher artista e não a partir do que o outro (não negro) espera de nós.

Estética e poética de mulheres negras artistas

Cristiane Jesus, pesquisadora negra de teatro aborda um desfalque de atrizes negras em espaços de protagonismo no teatro e justifica que esse fenômeno ocorre pelo imaginário racista acerca do corpo preto. Esse imaginário carrega consigo frutos amargos do período escravagista. É comum ver uma atriz negra interpretando papéis estereotipados e associados a pessoas pretas, como empregadas, pessoas escravizadas, bandidos e, na comédia é muito comum personagens negras com seus corpos ridicularizados. Esses estereótipos são diversos: a doméstica, a escrava, a raivosa, a barraqueira, a ama do leite, a mulata…

O racismo recreativo faz manutenção de lugares de poder existentes na sociedade, sendo assim um projeto racial. Adilson Moreira, pesquisador e jurista brasileiro, aborda que o conceito de racismo pode ser entendido a partir de uma diversidade de significados, sendo estes muitos importantes para que possamos entender como ele atua em várias dimensões, dentre elas seus aspectos interpessoais, culturais e institucionais.

Se anteriormente, sinalizamos a dificuldade da artista negra de acessar espaços possibilitadores da sua arte (a partir de investimentos públicos voltados para o subsidio de mulheres artistas, porque o  racismo também dificulta o acesso a direitos básicos, por se tratar de um problema estrutural de nossa sociedade) podemos sugerir que essa artista terá dificuldades de acesso e também o de captar recursos para o seu próprio trabalho em contraponto a um indivíduo não negro, que em toda sua construção não se viu privado de acesso a direitos básicos e em sua existência se viu cercado de privilégios.

É interessante pensar também que a artista ou gestora cultural negra, produzindo arte de sua perspectiva e não na do outro (o outro nesse sentido é o não negro) cria possibilidades de narrativas que se sobressaem dos estereótipos, o afro futurismo e estética preta, por exemplo, podem nesse sentido, proporcionar lugares de protagonismo preto e narrativas diversas, ricas e que simbolicamente propõe o resgate dessas culturas negadas ou qualquer outra obra que não necessariamente tenha viés político racial.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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