Não é de hoje que ser mulher é sinônimo de luta constante pela ocupação de espaços de representatividade, de fala e de vida. Sim, lutamos todos os dias para continuarmos a existir. O Brasil ainda possui uma das maiores taxas de feminicídio no mundo, oscilando sempre entre o terceiro e quinto lugar. E esse não é um dado promissor. O assassinato de mulheres provocado pela percepção de posse que um homem tem sobre seu corpo, é um fato alarmante para o século 21, cuja a ideia de modernidade e respeito pelo lugar do outro/a ainda não se concretiza efetivamente. Enquanto isso, lutamos em diferentes classes sociais e raça. As mulheres brancas ainda ocupam um lugar de sobrevida muito maior que as mulheres pretas e indígenas no Brasil, revelando que a intersecção entre gênero e raça é indiscutível. Quanto mais clara é sua pele, mais privilégios se tem. Quanta mais estrutura material e pele clara, mais estabilidade na trajetória essa mulher tem. Porém, não a salva de assédios, machismo e a inferiorização de seu corpo como um espaço público, de posse do homem, e sexualizado.
Ou seja, ser mulher é luta. E ser mulher indígena, o que representa?
O Brasil foi construído sob corpos, sangue e muita dor de mulheres indígenas, que aqui já habitavam antes da colonização pelos povos europeus se instaurar de forma cruel. Havia convivência harmoniosa, o respeito à Floresta, ao tempo das águas, o brincar da criança, algum sentido sobre a liberdade. Entretanto, homens brancos vindos do continente europeu dizimaram povos indígenas, não somente pela dor da arma de fogo, mas pelo estupro de mulheres e crianças, pela escravização desses corpos ao trabalho doméstico e serviçal na Casa Grande. Quem conseguia fugir, arranjava maneiras para continuar sobrevivendo. Famílias inteiras foram separadas. Nem havia tempo para sentir a dor do luto. Apenas continuar a caminhada.
Tem uma história de uma mulher indígena que conheci, que percorreu a pé, com pés descalços, longas estradas de barro, e trilhas pela Floresta peruana, chegando ao Estado do Amazonas em cansaço extremo, subnutrida, com fome, sede e dor. Eram oito irmãs mulheres, que fugiram de uma região habitada por indígenas da etnia Ticuna[1], invadida por garimpeiros peruanos e colombianos, que as estupravam. Somente duas sobreviveram, somente duas sabemos de alguma história, de alguma origem, de alguma raiz. Uma delas não falavam nunca sobre essa dor. É como se apertássemos uma ferida dolorida e cheia de pus, inflamada e infecionada sob a pele. Sua língua foi apagada, suas tradições diminuídas, ela foi proibida de existir enquanto indígena. Apesar disso, ela exalava em seu corpo a grandeza da filosofia do bem-viver, da serenidade da grande Floresta e eu sentia um perfume de flor.
Essa mulher é minha avó paterna registrada aos 13 anos em cartório brasileiro com o nome de Maria Marta, indígena Ticuna. Aos 15 anos foi “pega no laço” [2] pelo meu avô português e viveram um casamento de 50 anos. Onde ele era o patriarca, e assumia um papel que para o meu olhar era como se fosse um senhor feudal. Ele era bravo e rígido. E ela, um serviçal. Nunca se sentava à mesa. Estava sempre servindo os 11 filhos e suas noras, netos/as, bisnetos/as. Ela era incansável, falava pouco, tinha um olhar profundo, um sorriso discreto com lábios finos, era cheirosa, gostava de sentar-se numa cadeira de balanço e relaxava seus braços e suas mãos magras no suporte da cadeira, ela respirava o cansaço do dia, e parecia que aquela cadeira a carregava.
Eu, criança de 6 anos, lembro-me de ficar observando suas mãos pequenas e finas, pegar o copo de alumínio com água bem gelada, ela amava. Eu sentada ao chão em frente à sua cadeira de balanço, observava cada espasmo daquele corpo-bicho, corpo-selva, que agora era colonizado, um corpo dócil, de voz mansa e serena. Então, ela me oferecia a água: “queres filha?”. Eu, imediatamente, levantava-me, como se já estivesse aguardando ansiosa o convite, e mordia o copo de alumínio, sentindo a água gelada do copo da minha avó Marta. Respirava….nossos olhos se encontravam enquanto eu bebia aquela água. Ela queria que eu terminasse logo de beber o copo, para que ela pudesse aproveitar a cadeira de balanço, seu único descanso do dia. Ela limpava, cozinhava, cuidava, arrumava, passava roupa no quartinho, recolhia muitas frutas no quintal e costurava, por muitas horas. Ouço o barulho da máquina de costura, em que eu ficava embaixo brincando de volante de carro.
O quintal de sua casa era um recorte da Floresta Amazônica, com muitas árvores frondosas e banhado pelas águas do rio negro, no bairro Aparecida em Manaus. A casa ainda existe, o rio também. Embora a casa tenha sido vendida, o quintal acimentado, as árvores cortadas, e o rio poluído pelo esgoto próximo, as roseiras ainda estão lá. Minha avó Ticuna continua viva e cuidando de suas roseiras, acendendo a fogueira no quintal, falando sua língua “estranha e espanhola”, sendo chamada de bruxa por algumas mulheres da família. “Dona Marta é bruxa”, diziam temerosas, revelando o machismo e o condicionamento nas próprias mulheres, que deveriam se unir e lutar uma pelas outras. Percebe-se a força do patriarcado, este sistema fechado que privilegia homens, inferiorizando mulheres, subalternizando-as e subjugando-as.
Ainda estamos aqui. Ora sobrevivendo, ora vivendo algumas alegrias. Ora desenhando o óbvio sobre a colonização cruel e genocida aos povos indígenas, ora nos isolando para sobreviver. O racismo estrutural está enraizado em todas as partes, nas famílias, instituições, consciência e inconsciência coletiva. Fomos treinadas/os e condicionadas/os pelos colonizadores para acreditar que somos inferiores, pensamos menos, não sabemos nos organizar, falar, escrever fazer ciência, arte, criar e fazer o mundo girar. A tarefas do cuidado do lar e dos/as filhos/as foram impostos de forma muitas vezes violenta, como se fosse algo instintivo e sagrado, conforme as religiões também impuseram.
O homem branco e cisgênero ainda mantém o seu lugar de poder sobre nossos corpos, porém, já conseguimos gritar e ser ouvidas. Eu sou neta daquela que sofreu muito para sobreviver, e estou aqui também para quebrar ciclos de sofrimento e de dor. Para estudar, fazer ciência, arte, sem perseguições. Mas a sobrecarga do legado do patriarcado ainda persiste. Daí a importância da retomada, de contar nossas histórias, mesmos as mais doloridas. O mundo precisa saber que as mulheres indígenas sobreviventes, agora são Escreviventes. Escrevem e se curam, como diz Conceição Evaristo,[3] e “mesmo que tenham combinado de nos matar, nós combinamos de não morrer”. Pois a luta é coletiva, com aliados/as e representatividade, hoje habitamos todos os lugares, na cidade e na aldeia, na Universidade e na Arte, na Ciência e na persistência. Ainda resgatamos o tempo das águas, ainda somos bruxas falando com os espíritos, conclamando a filosofia do bem-viver, isto é, da não separação entre corpo, mente e espírito, não deixando o Céu cair, como diz a parente indígena Márcia Kambemba, fazendo alusão a obra do parente David Kopenawa “A queda do Céu”, que pressupõe que o Céu entraria em colapso se a Floresta desaparecer. Escolhemos não desaparecer. Retomamos.
[1] A etnia Ticuna, ou Tikuna, ou Magüta, habitante da Amazônia brasileira, peruana e colombiana, é a etnia mais populosa nos dias atuais, isso significa, que houve mais sobreviventes. E há muitos/as espalhados/as tentando retomar a base de suas tradições. Eu, Annie Martins, mulher, mãe de um curumim, professora do Curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas, sou uma delas.
[2] Pega no Laço: expressão utilizada no Brasil para explicar que mulheres indígenas foram forçadas ao casamento ou a qualquer tipo de pressão ou opressão por colonos portugueses e espanhóis.
[3] Maria da Conceição Evaristo de Brito (Belo Horizonte, 29 de novembro de 1946), é escritora preta brasileira, atuante na prosa, poesia, arte e ciência, e foi professora da rede pública no Rio de Janeiro, atuante na luta feminista e inaugurou a metodologia da Escrevivência, que pressupões que mulheres negras vindas de um passado marcado pela escravidão possam finalmente contar suas histórias, resgatar suas origens, raízes, tradições, ao mesmo tempo que se curam ou tentam amenizar o trauma das opressões.
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