quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Maui não é aqui, mas poderá ser

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Engenheiro agrônomo, professor titular da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Maui não é aqui, mas poderá ser. Os recentes incêndios florestais e urbanos que atingiram a ilha havaiana Maui chamaram atenção da mídia internacional. Foram avassaladores. Uma cidade inteira (Lahaiana) do porte de Itapiranga, AM foi tragada pelas chamas. Mas o que isso tem a ver com a realidade amazônica em termos climáticos?

O El Niño tão logo iniciou, agravado pelas mudanças climáticas de origem antrópica, já evidencia seus efeitos implacáveis por todo o planeta.

Embora não tenhamos notícia de nenhum amazônida ter morrido por excesso de calor, os efeitos dos extremos climáticos já fazem parte do seu cotidiano. Estamos, climaticamente,  melhor adaptados? Como explicar qual o limite dessa resiliência? Ondas de calor mataram mais de 61 mil europeus no ano de 2022.

Nem a relativa abundância de recursos hídricos associado a ainda robusta biomassa florestal no entorno das cidades amazônicas, contribuem para amortecer esses extremos. Paradoxalmente, essas cidades são as menos arborizadas, em relação às suas congêneres brasileiras. A maioria enfrenta problema crônica de escassez de árvores, que estariam prestando expressivos serviços ambientais.

Manaus (AM) não foge à regra. Ostenta um dos piores índices de arborização urbana do Brasil. Está à frente apenas de Rio Branco (AC) e Belém (PA) em termos de ausência de cobertura florestal e outros tipos de cobertura vegetal. Apenas 22% da área urbana da cidade é arborizada.

A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana recomenda como índice de áreas verdes quinze metros quadrados para cada habitante. Estamos longe disso. Precisamos nos reconciliar com a floresta que, aliás, compõe a paisagem do entorno urbano da cidade. Até que ponto isso remete à falsa percepção de que temos vegetação em abundância na urbe?

Esse compromisso deveria ser da responsabilidade não apenas do gestor público, mas dos segmentos organizados da sociedade que reivindicam uma cidade inclusiva e ambientalmente sustentável.

Confinar os espaços verdes ao parques, praças, jardins e outras modalidades de áreas legalmente protegidas, não tem sido suficiente. É preciso esverdear a cidade. Investir em construções verdes. Valorizar a microdrenagem nos projetos arquitetônicos. Adotar formas inovadoras de construção de novas edificações. No caso dos condomínios, não é inteligente promover a remoção integral da vegetação original, e em seu lugar plantar palmeiras exóticas de duvidosa estética do ponto de vista botânico.

Nas cidades, de todos os continentes, localizadas em baixas latitudes e altitudes (próximas à linha do equador) deveria ser adotada uma agenda comum de sustentabilidade urbana, com inclusão de equipamentos urbanos adequados e adaptados à realidade dos trópicos. Refrigerar artificialmente os ambientes sociais, não parece ser a melhor solução, considerando o elevado consumo de energia, mesmo que seja de origem renovável.

Integrar diferentes tecnologias de baixo impacto, contribuiria para redução das emissões de gases de efeito estufa. As emergências climáticas impõem adoção de soluções imediatas, para uma maior adaptabilidade de seus moradores e dos ecossistemas urbanos. Não queremos nos transformar em refugiados climáticos urbanos. Estaríamos projetando uma nova categoria?  

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