quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Manaus e o segredo da mudança

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

O IBGE divulgou neste mês de dezembro que Manaus é a quinta cidade mais “rica” do Brasil. Só é superada por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. O PIB manauara é de R$ 104 bilhões, aproximadamente, superando Curitiba e Porto Alegre, que na anterior avaliação estavam à nossa frente.

Podemos somar a esse quadro o fato do Polo Industrial de Manaus, nossa maior e quase única fonte de renda, ter faturado mais de R$ 130 bilhões entre janeiro e setembro de 2023.

 O governo estadual projeta um orçamento de cerca de R$ 30 bilhões para 2024, sendo que educação, saúde e segurança levarão mais de 33% desse total. É um valor impressionante, pois se dividirmos o orçamento pela população, no Amazonas, teremos um valor de R$ 7.130 per capita. Para vermos como esse valor é alto, proporcionalmente, é só notarmos que no Ceará, fazendo a mesma divisão obtemos o número de R$ 4.206 per capita. E em Santa Catarina, chegamos ao valor de R$ 5.782.

 Manaus, também possui valores interessantes. Seu orçamento para 2024 é de cerca de R$ 9 bilhões. Fazendo a mesma conta (orçamento x população) vemos que Manaus, com R$ 4.361, apesar de perder para algumas capitais do nordeste e do sul, ainda está à frente de São Luiz (R$ 4.284) e de Belém (R$ 4.066).

 Por que ressaltar tais números? Para mostrar que, apesar da propalada queda de arrecadação em 2023, ainda estamos bem, em termos financeiros, relativamente a muitos estados e capitais do país. Isso, sem falar do empréstimo que a prefeitura conseguiu de quase R$ 600 milhões. O estado, para não ficar para trás, obteve mais de R$ 1.200 bi em empréstimos nos últimos meses.

Como falei em outros comentários, choca ver que temos mais de 57% da população amazonense na pobreza (mais de 2 milhões e 300 mil habitantes). A taxa de desemprego em Manaus é de 12,8% e a do Amazonas é de 10,5%. Isso é muito, se compararmos com a taxa nacional, que é de 7,7% (embora ela esteja muito impulsionada por São Paulo, estado que obteve os melhores índices).

 O que há conosco – Manaus e Amazonas – que tantos recursos não conseguem se transformar em progresso? Nossos índices, como a taxa de desemprego, por exemplo, persistem em não melhorar. A riqueza estadual permanece concentrada em Manaus (cerca de 80%), com um interior pobre, sempre em luta contra as doenças, o desemprego e a falta de recursos.

 Nesse cenário, é que as oligarquias municipais do interior se fortalecem e acabam constituindo verdadeiras dinastias em seus redutos. No interminável jogo da troca de apoios, governadores e prefeitos do interior acabam se sustentando e mantendo o mesmo sistema de dominação política e econômica.

 Como romper tal ciclo interminável? O PIM deverá faturar mais de R$ 170 bilhões este ano. A Suframa aprovou este ano 178 projetos novos. A previsão é de cerca de R$ 4 bilhões em investimentos e quase 5.200 empregos gerados. O faturamento estimado de tais projetos é da casa de R$ 26 bilhões. O que fazer com tanto dinheiro?

 O nó da discussão sobre o desenvolvimento estadual e municipal está justamente nessa pergunta: como transformar tais recursos em renda, em empregos e em melhores condições de vida para a população? Onde está o segredo? Por que é tão difícil fazer esse dinheiro (e nem falamos do mercado de carbono – R$ 1 bi – e das promessas europeias de recursos para a Amazônia) criar empregos por todo o estado? Por que tanta dificuldade em fazer esses recursos melhorarem o sistema de transporte coletivo ou fazerem de nossas ruas e calçadas mais civilizadas e utilizáveis?

 Se compararmos a dívida do Amazonas com a de outros estados, como São Paulo ou Minas, vemos que ela é pagável e pode ser rolada sem problemas. Não é ela que obstrui nosso desenvolvimento.

 Enfim, o que fazer para que tanta riqueza vire desenvolvimento social e melhor condição de vida? O que, na vida política local, precisamos alterar para que as mudanças realmente ocorram? Naturalizamos ouvir candidatos dizerem que irão “zerar a fila da saúde” ou que “irão valorizar o servidor”. No fundo, são apenas palavras vazias, slogans criados por marqueteiros contratados a peso de ouro. E assim fica a questão: Por que não conseguimos mudar?

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