Assim como no final de ano é irresistível fazer listas e rankings, no início é tentador falar do que esperar para os novos dias que chegam.
Não vou fugir desta tendência. Vou falar um pouco sobre o que deveríamos esperar desse ano que está despertando.
Antes de tudo, é um ano eleitoral. Um ano de eleições municipais. Dessa forma, penso que algo que poderíamos esperar é o debate sobre a cidade, seus problemas, seus impasses e potencialidades. O momento é excelente, pois, afinal, é o instante no qual caminhos possíveis podem ser tomados e recursos direcionados.
Começaria desejando que se debatesse mais o transporte público. Só temos um modal de massa (ônibus). Em outras eleições, se falou em usarmos os igarapés (Nova Veneza), em monotrilho e até em BRT, fora o fantasma sempre presente do metrô. Contudo, nada saiu do papel.
Todo ano só se fala em renovar a frota, trazer mais ônibus e reformar os terminais. Não avançamos em alternativas. Por que o monotrilho não é viável? Nunca foi exposto publicamente a razão disso. Por que o BRT não é viável? Também nunca vi uma autoridade explicar a razão desse projeto não ter ido adiante. E isso sem falar em debater o tipo de combustível dos ônibus.
Por que não pensamos o gás da Cigás para o transporte coletivo? Que impacto resultaria nos custos? Seria bom os técnicos explicarem isso. Seria uma opção sustentável.
Outro tema seria o da educação. Os municípios são encarregados, por lei, das creches, da educação infantil e da fundamental (entre 7 e 14 anos). O Amazonas foi avaliado como o estado com a pior média do Enem 2022 (485,29). Ficamos abaixo de estados como Maranhão, Amapá, Acre e Roraima, mais pobres e de renda per capita muito abaixo da nossa.
Poderia dizer que a culpa é do estado, pois o ensino médio é estadual, contudo, a educação é um processo. Uma nota ridícula dessas não é fruto apenas do ensino médio. Ela vem de longe…lá da pré-escola. O orçamento da SEMED para 2024 prevê gastos de R$ 2 bilhões e 300 mil reais. É interessante vermos como isso vai ser aplicado e o que pode ser feito para auxiliar em tais índices comparativos, como ENEM.
A Semsa (saúde) disporá de R$ 1 bilhão e 400 mil reais do orçamento municipal. É importante vermos como isso irá ajudar nos serviços da atenção à saúde básica, atribuição fundamental, por lei, das prefeituras. Como certas doenças poderão ser prevenidas? Quais os projetos da prefeitura para essa área? Quais os números atuais da saúde e como o orçamento pode melhorar tais índices? São perguntas realistas e que ao longo do ano deveriam figurar nos debates políticos.
Um setor que poderia chamarmos de “infraestrutura urbana” (Seminf, IMMU e Implurb) vai ficar com cerca de R$ 1bilhão e 700 mil reais. Onde serão aplicados? O que farão para que a cidade fique mais aprazível e confortável? Manaus não tem calçadas, os carros estacionam irregularmente, o comércio usa e abusa do espaço público a fiscalização é zero. O que esses quase 2 bilhões mexerão nisso?
É hora de pensarmos o espaço em Manaus. O que queremos de nossas ruas e calçadas? O que fazer para que a infraestrutura sanitária exista e seja ampliada? Sem responder tais questões, o debate sobre esse orçamento bilionário fica vazio.
Enfim, são temas básicos que gostaria de ver debatidos em um ano eleitoral, cujo objeto é a cidade. E só listei os básicos (educação, saúde, transporte e urbanismo). Ainda poderíamos falar em assistência social, finanças, feiras, turismo, cultura e geração e empregos.
Por exemplo, como associar turismo e renda…eis um ponto interessante. Como a economia criativa pode gerar empregos para a população, estimular o turismo e reduzir a pobreza? Este é outro debate relevante. A prefeitura está investindo em grandes eventos. Porém, quantos empregos geram? Quanta renda circulou? As empresas privadas investem ou só há verba pública nesse setor? Enfim, são debates técnicos, mas com um inegável viés político que deveriam aparecer neste ano eleitoral.
Por fim, reitero que nosso foco deveria estar nesses temas, pelo menos no âmbito da discussão sobre política e economia. Discutir BBB, por exemplo, e a cultura nortista é atraente, mas, convenhamos, em que isso mexe com a pobreza e as médias do ENEM ainda estou ansioso para saber…