segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Jorge Bandeira doa acervo ao curso de teatro da ESAT: legado patafísico

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Doutoranda em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e Bacharel da primeira turma de Teatro do Amazonas. É artista da cena e criadora do canal Teatro na Rede, no Youtube.

Jorge Bandeira é daquelas raras figuras que cruzam nosso caminho e nos fazem sentir a sorte de dizer: “foi meu professor de teatro”; “ele escreveu sobre meu espetáculo”. No Brasil, poucas são as homenagens aos artistas em vida e, quando se trata dos artistas amazonenses, o reconhecimento exige um esforço ainda maior. Por isso, este texto busca, em poucas linhas, fazer jus à complexidade de Jorge Bandeira e prestar-lhe uma justa homenagem por sua imensa contribuição ao teatro amazonense.

Jorge Bandeira é professor de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas, crítico teatral e sócio do sebo O Alienígena Espaço Cultural, no centro de Manaus. Sua história com a cena começou na infância, nos palcos do grupo Bambi de Teatro, liderado por Titio Barbosa. O que parecia uma atividade despretensiosa tornou-se essencial em sua vida.

O gosto pelo registro sempre o acompanhou. Quando jovem, anotava cada filme que assistia, a sessão, colava estrelinhas de avaliação e fazia um breve comentário. Ainda na juventude, a paixão pelo cinema o levou a participar do Cineclube Humberto Mauro, um momento importante de sua formação intelectual, no qual nutriu admiração pelo cinema russo revolucionário.

Mais tarde, fez um curso com Dori Carvalho no Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (CAUA), no início dos anos 1990, com quem seguiria trabalhando. Nessas experiências, a direção teatral o arrebatou, consequência de uma de suas primeiras montagens, uma adaptação do conto O Alienista, de Machado de Assis.

Ele mesmo se define como um ‘patafísico’. A patafísica, conceito criado pelo escritor francês Alfred Jarry (1873-1907), é a ciência das soluções imaginárias. E não haveria definição melhor para um artista que transita entre o professor provocador e o criador disruptivo. Quem já assistiu a seus espetáculos como As 22 Lâminas, A Casa Alienígena de Van Gogh ou Contatos Amazônicos de 3º Grau, encenados por sua Cia. Teatro Éden, entende bem do que se trata. Jorge sempre se preocupou menos com a quantidade de espectadores e mais com a experiência que a cena pode proporcionar.

Essa inquietação também está presente em sua escrita crítica, um trabalho que vai além da análise de espetáculos: ele documenta memórias, acompanha grupos, registra caminhos estéticos e observa a transformação da cena local. Um trabalho constante desde 1992, voluntário, que forma leitores e fortalece o público do teatro manauara.

Sua primeira crítica teatral, Luzes incandescentes na casa de luz (1992), analisava uma montagem do grupo A Rã Qi Ri, de Nereide Santiago, no projeto Demônios do Qorpo Santo. Em uma entrevista concedida a mim, Jorge comentou: “Eu sempre gostei muito de escrever, desenhar também. E eu comecei a ver que havia essa possibilidade, né? Não só de assistir ao teatro, mas escrever sobre ele” (BANDEIRA, 2019).

A possibilidade se tornou real dado que o primeiro livro sobre crítica teatral publicado no Amazonas é mérito dele: Cabeças Decapitadas: Ensaios e Críticas Teatrais e Cênicas (2015), lançado de forma independente, em parceria com Iago Luniére e Thiago Roney. Trata-se de uma seleção de críticas de espetáculos que analisou ao longo dos anos. Em 2022, saiu o segundo volume, Cabeças Decapitadas: Dramaturgias e Reflexões Cênicas, fruto do prêmio do edital Amazonas Criativo, da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa (SEC), impresso pela Editora Valer. O autor saudou as contribuições de Douglas Rodrigues, Tenório Telles e Ìtalo Rui.

Ambos os livros são baseados no seu método amazônico de crítica teatral, pois, para ele, não basta escrever, é necessário conhecer o público e o movimento teatral. Para escrever sobre um espetáculo, Jorge se dedica a vê-lo pelo menos duas vezes, além de acompanhar o grupo. Escreve sobre o que lhe move, pois reconhece que nem sempre as críticas são recebidas com maturidade. É uma escrita de contribuição.

Quando pensamos em espaços de críticas teatrais em Manaus, lembramos de uma época em que era possível encontrá-las frequentemente nos jornais. Críticos como Mário Freire, Leyla Leong e Márcio Braz são exemplos de quem aproveitou esses espaços, assim como o próprio Jorge, que chegou a escrever para jornais como Amazonas em Tempo, Jornal do Comércio, Correio Amazonense e a revista Ideias Editadas, do Espaço Cultural Casarão de Ideias. Com a redução desses meios para a crítica, Jorge cavou novos territórios: ocupou o ciberespaço e manteve a resistência ao usar o Facebook como um novo lugar para suas críticas. Esse gesto demonstra a habilidade de alguém adaptável a seu tempo e, ao mesmo tempo, que não abre mão da tradição da escrita.

Ao longo de sua trajetória, Jorge Bandeira esteve envolvido em movimentos culturais, como a Federação de Teatro do Amazonas (FETAM), e deixou sua marca indissociável como professor, com pelo menos 38 anos de dedicação à docência. Mais recentemente, teve um papel fundamental no fortalecimento do Curso de Teatro da UEA, criado em 2010. O curso, que hoje é uma realidade, foi um sonho que exigiu pelo menos uma década de luta antes de sua fundação, e Jorge, ao lado de outros artistas da cidade, esteve na linha de frente dessa conquista. Não à toa, a primeira turma de bacharelado em Teatro do Amazonas leva o seu nome: “Turma Jorge Bandeira do Amaral”.

No dia 21 de fevereiro, sexta-feira, às 16 horas na Escola de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (ESAT-UEA) o Curso de Teatro realizará um evento em que Jorge Bandeira fará a doação de seu acervo artístico ao curso. Mais do que um gesto simbólico, a doação reafirma sua contribuição inestimável à memória e ao teatro amazonense.

Jorge Bandeira é um homem de muitas facetas, mas sua essência é uma só: a de quem vê a arte como urgência, transformação e compromisso com a cena e com a palavra. Seu trabalho, felizmente, está vivo. Como Jorge bem sabe, a crítica também é teatro, e teatro é memória em movimento.


*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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