Você sabia que, entre as colunas do Teatro Amazonas e as ladeiras da Rua Marechal Deodoro, viviam jovens que, em pleno coração da Amazônia, acabariam sendo enviados para um dos maiores conflitos do século XX?
No início do século XX, Manaus vivia um de seus momentos mais exuberantes. Durante a chamada Belle Époque manauara, no final do século XIX e início do XX, a cidade viveu um período de intensa modernização e prosperidade econômica impulsionada pela borracha.
A riqueza do látex transformara a cidade em símbolo de modernidade no coração da floresta, com iluminação elétrica, bondes, cafés, clubes sociais e o luxuoso Teatro Amazonas – uma Paris tropical em plena Amazônia. Não à toa, atraiu olhares e sonhos de quem vinha de longe.
Entre os muitos que desembarcaram no porto da capital amazonense, estavam famílias italianas que fugiam da pobreza e das instabilidades políticas da Europa. Chegaram com pouco, mas logo se integraram à vida urbana, trabalhando como artesãos, comerciantes, operários e constru
tores. Fundaram sociedades de auxílio mútuo, abriram pequenas lojas e fincaram raízes nas ruas de pedra do centro histórico. Eram, ao mesmo tempo, estrangeiros e parte do tecido da cidade: ajudaram a erguer fachadas, abastecer mercados e animar festas religiosas.
Essas comunidades mantinham vivo um certo orgulho de origem. Falavam italiano em casa, mantinham laços com as vilas de onde vieram e acompanhavam de longe os acontecimentos da Europa. Mas foi quando as tensões no continente explodiram em conflito que essa conexão ganhou um peso inesperado.
A Grande Guerra, como ficou conhecido então o conflito que tomou o mundo entre 1914 e 1918, e que hoje chamamos de Primeira Guerra Mundial, chegou à vida dos italianos de Manaus de forma inesperada e, para muitos, inevitável. E é aí que começa uma história pouco conhecida – e surpreendente: a de jovens manauaras, filhos e netos de imigrantes, que deixaram a Amazônia para lutar do outro lado do Atlântico.
Com a entrada da Itália na guerra, o dito “chamado à Pátria” trouxe milhares de italianos emigrados de volta para seu país de origem, para pegar em armas e defender seu país no que, então, tornar-se-ia o conflito de maiores proporções já visto. Isso não excluiu os imigrantes que tinham vindo para o Brasil, e chegou mesmo ao extremo norte: é sabido que pelo menos algumas dezenas de italianos residentes em Manaus empreenderam a viagem de volta para a Europa para lutar por seu país.
Tudo mais a respeito do tema, porém, é pouco nítido. Dois pontos são particularmente incertos: quantos e quem foram os rapazes enviados, e se foram voluntários ou oficialmente convocados. No que diz respeito ao primeiro, há dois documentos que parecem indicar, ao menos parcialmente, a resposta.
A primeira fonte, e talvez a mais segura, para identificar os nomes de alguns desses meninos é uma notícia de jornal de 1915, que escreve:
“Embarcam hoje 20 reservistas italianos:
Seguirá, às nove horas de hoje, pelo paquete Olinda, a segunda turma de reservistas italianos.
São mais vinte patriotas que, com o sacrifício do sangue generoso, com o sacrifício da vida, vão luctar pela dignidade da Itália e da civilização ameaçada. São os seguintes os nomes dos que partem: Bianchini Donato, Lammardo Elia, Alfano Domenico, Martino Antonio, D’Alessandro Generoso, Di Pierro Giovanni, Tino Vincenzo, Russo Nicola, Matteo Angelo, Vivacco Egidio, Attadia Nicola, Labanca Biassantonino, D’Aquino Vincenzo, Constanzo Nicola, Bruno Vincenzo, Scaldaferri Pietrangelo, Bianco Vincenzo, Pagano Vincenzo.
Haverá, conforme noticiamos hontem, uma reunião no Theatro Amazonas, ás oito horas, onde se farão ouvir diversos oradores, dizendo adeus aos que seguem, proferindo palavras de incitamento a todos elles, na hora suprema em que deixam a terra para o progresso da qual empregaram todos os seus esforços.
Publicámos, hontem, a esse respeito, um boletim assignado pelos sr. Giulio de C. Roberti, presidente do Comitato Pró Patria.”
O segundo indicador de quem poderiam ser os homens que partiram para lutar é um texto de Mário Ypiranga Monteiro, escrito em homenagem ao veterano Domenico Demasi por ocasião de seu falecimento. Nele, o autor escreve que:
“Em 1918, por ocasião da rutura das relações entre a Itália e Alemanha, um grupo de rapazes de origem italiana ou que possuíam família natural daquele país apresentaram-se ao cônsul da Itália a fim de combater pela terra. Eram eles Domingos Demasi, Biasi Petrucelli, Pasquale Famulare, Nicola Gioia, Pietro Napolitano, Bonifácio Milione, Francesco Petrucelli, Francesco Pagano, Giuseppe Cantisani (muito conhecido em Manaus, proprietário de ourivesaria na rua do Marechal Deodoro, junto à antiga Chefatura de Polícia), Domenico Nero, Michele Cabira”.
(É necessário notar que há um erro claro no texto de Mário Ypiranga Monteiro – a Itália entrou na guerra em 1915, contra a Áustria-Hungria (tendo declarado guerra contra a Alemanha apenas em 1916) e, tendo pelo menos um dos reservistas manauaras, Domenico Demasi, comprovadamente participado da Batalha de Caporetto, que se deu em outubro de 1917, sua afirmação de que os italianos de Manaus juntaram-se ao exército italiano em 1918 está, certamente, equivocada.)
A primeira notícia indica duas coisas: primeiramente, que pelo menos dois grupos de rapazes retornaram ao país de origem para unir-se ao esforço bélico; em segundo lugar, os nomes de vinte deles. O texto de Mário Ypiranga Monteiro cita mais onze nomes – nenhum dos quais é repetido da notícia anterior, indicando que todos os citados por Monteiro teriam ido na primeira leva. Isso indica, então, pelo menos 31 combatentes: Domenico Alfano, Nicola Attadia, Donato Bianchini, Vincenzo Bianco, Vincenzo Bruno, Michele Cabira, Giuseppe Cantisani, Nicola Constanzo, Generoso D’Alessandro, Vincenzo D’Aquino, Domingos Demasi, Pasquale Famulare, Nicola Gioia, Biassantonino Labanca, Elia Lammardo, Antonio Martino, Angelo Matteo, Bonifácio Milione, Pietro Napolitano, Domenico Nero, Francesco Pagano, Vincenzo Pagano, Biasi Petrucelli, Francesco Petrucelli, Giovanni di Piero, Nicola Russo, Pietrangelo Scaldaferri, Vincenzo Tino e Egídio Vivacco. É possível que a lista não seja exaustiva.
Pouco se tem a respeito da participação de qualquer um deles, com excessão de Domenico Demasi, de quem a família guarda vários registros da época do conflito, que foi agraciado pelo governo italiano com uma medalha comemorativa em 1968, e cujo nome está inscrito no Museo dela Battaglia na cidade italiana de Vitório Venetto. Há registros que comprovam a presença de vários desses homens em Manaus logo antes do conflito, e de muitos depois também, mas a única menção encontrada de sua ida para a frente de batalha vem dessas listas.
Além de Demasi, há uma possível exceção: Francesco Pagano, que parece ter sido morto em combate, como indica uma placa memorial em Castellucio Inferiore, datada 4 de novembro de 1920. A placa homenageia os 34 homens mortos e desaparecidos provenientes da cidade. Alguns nomes lá registrados são conhecidos na cidad
e de Manaus: Gioia, Cantisano, Biase, provavelmente braços das famílias emigradas que ficaram em sua cidade de origem. Embora não seja possível garantir que esse Francesco Pagano citado no memorial seja o mesmo citado por Monteiro, já que nomes completos se repetem com alguma frequência na cidade – no próprio memorial, temos dois Gaetano Ruggiero e dois Nicola Cantisano -, a falta de uma especificação, como ocorre com os dois exemplos anteriormente citados, em que cada Gaetano e Nicola é identificado como “filho de…” após seu nome, torna bastante plausível que o Pagano de Mário Ypiranga Monteiro seja o mesmo que é homenageado em Castellucio – sendo, a princípio, o único dos “manauaras” que parece não ter sobrevivido ao conflito.
A segunda questão refere-se à maneira como esses rapazes se viram em posição de retornar para lutar por seu país. Algumas fontes, dentre elas os comentários de Demasi, deixam bastante claro o papel da convocação oficial na decisão, mas outras sugerem que o retorno tenha sido largamente voluntário. É sabido que a mobilização dos reservistas emigrados foi obrigatória, e entretanto, pouco mais de 10% de todos os emigrados elegíveis retornariam ao país ao longo do conflito.
Quando entrou na Grande Guerra, a Itália, como muitas outras nações, implementou um sistema de alistamento obrigatório para aumentar suas forças armadas. A lei de convocação militar italiana, formalmente conhecida como Legge di leva, estabelecia o serviço militar mandatório para todos os homens cidadãos com condições físicas a partir dos 20 anos, com duração de dois anos. A lei aplicava-se a todos os cidadãos italianos, independente de classe social ou ocupação.
O limite de idade exato, como em quase todos os países envolvidos na guerra, variou ao longo do tempo, mas de maneira geral incluiu homens jovens, entre 18 e 45 anos. A duração do serviço era, tipicamente, de múltiplos anos. Exceções aplicavam-se, normalmente relacionadas à problemas de saúde ou ocupações específicas consideradas essenciais para o esforço de guerra.
Em teoria, a população emigrada não estava isenta das leis de convocação. Cidadãos italianos, onde quer que residissem, estavam legalmente ligados à sua terra natal e suas leis, e eram considerados sujeitos à serviço militar obrigatória. Na prática, porém, forçar o alistamento em emigrados acarreta uma miríade de dificuldades materiais. Mark I. Choate escreve: “A Itália, como todos os países europeus, baseava seu sistema militar no recrutamento universal masculino aos 20 anos, com um serviço de dois anos de duração, seguido por um período na reserva até os 45 anos.
Já que os emigrantes eram majoritariamente pertencentes a essa faixa etária, os movimentos populacionais se tornaram um assunto de segurança nacional. Nos anos anteriores à Grande Guerra, uma mobilização total dos reservistas parecia certa e os emigrantes teriam, inevitavelmente, um papel fundamental nela”.
O princípio central do posicionamento oficial do governo italiano a respeito de convocação militar obrigatória para emigrados era o conceito de jus sanguinis, definido por Pinto Ferreira como um sistema para determinar a nacionalidade onde “se a determina pela atribuição aos pais e avós”. De acordo com Ferreira, “O [sistema de jus sanguinis] é o mais antigo, e foi adotado pelos gregos e romanos. Tais Estados […] viam no Estado um prolongamento e agrupamento das famílias. […] Onde nascesse um filho romano, romano ele era”.
Em resumo, esse princípio legal declara que a cidadania é determinada pela nacionalidade dos pais de um indivíduo, e não por seu local de nascimento. Assim, aqueles nascidos de pais italianos, independentemente de seu lugar de nascimento ou residência, eram considerados cidadãos italianos e sujeitos às leis da nação, incluindo serviço militar.
O conceito de jus sanguinis foi fundamental para justificar a autoridade reclamada pela Itália sobre seus emigrados. Esse princípio legal carrega uma série de implicações: o laço entre os emigrados e seu país de origem permanece intacto mesmo após o estabelecimento de residência no estrangeiro e, assim, pela lógica do governo italiano de então, permaneciam eles obrigados a participar do serviço militar quando convocados.
Em teoria, emigrados italianos poderiam ser sujeitados a outras leis italianas, como leis de herança e direitos de propriedade, embora a aplicação prática dessas leis com frequência dependesse do sistema legal do país adotivo e de uma série de outras circunstâncias.
Enquanto o princípio é claro, aplicar o serviço militar obrigatória em emigrados era um desafio muito complexo, cheio de dificuldades. Muitos países tinham suas próprias leis relacionadas à cidadania e aos direitos de residentes estrangeiros, que com frequência entravam em conflito com as reinvindicações de autoridade italianas. Além disso, as dificul
dades práticas de localizar, notificar e repatriar emigrados tornava quase impossível impor completamente essas obrigações. Muitos emigrados, e especialmente aqueles em países distantes como o Brasil, relutavam em deixar para trás suas novas vidas e retornar para um país que muitos consideravam distante, e com o qual com frequência não tinham contato desde a infância.
O custo de viajar e se reestabelecer era outro problema, pois com frequência representava um fardo econômico significativo para os emigrados e suas famílias. Emigrantes com frequência deixavam seu país buscando oportunidades econômicas melhores, e muitos já tinham estabelecido novas vidas e famílias em seus países de adoção, tornando a perspectiva de retornar para servir no exército pouco atraente e a quebra de laços difícil. Mais ainda, residentes em países além-mar, ou muito isolados, representavam dificuldades ainda maiores para o governo italiano em termos de comunicação e transporte.
Aqueles que tinham encontrado refúgio em áreas rurais ou muito remotas eram quase inacessíveis, pois era muito difícil localiza-los e entrar em contato com eles. Manaus, até certo ponto, já oferecia esses desafios, mas aqueles que tinham acabado no interior do Amazonas, por exemplo, eram ainda mais difíceis de localizar.
Apesar dos muitos esforços feitos pelo governo italiano para trazer seus emigrados de volta para casa para lutarem, a distância, a comunicação e a resistência de muitos emigrados tornaram o processo de conv
ocar soldados no exterior um processo complexo, frequentemente ineficiente e, em última análise, colossalmente falho. A maior parte dos emigrados escapou com sucesso da convocação – calcula-se que apenas 13% dos homens vivendo no exterior, cerca de 300.000 dentre 2.500.000 que eram elegíveis para o serviço militar obrigatório, retornaram para o país para juntar-se as forças armadas. A vasta maioria dos homens que evadiram o serviço militar residiam nas Américas. Ainda assim, o número é considerado impressionante em relação ao ocorrido em outras nações: a Itália foi, afinal, o único país a ganhar população durante a Grande Guerra. Choate escreve: “…o Comissariado de Emigração pagou o retorno de cerca de 304 mil para que cumprissem suas obrigações de reservistas entre 24 de maio de 1915 e 31 de dezembro de 1918. Esse número não inclui reservistas que retornaram para a Itália por seus próprios meios entre agosto de 1914 e maio de 1915.”
Embora informações específicas sobre o processo de convocação no estado do Amazonas sejam escassas, é bastante possível, a partir do que se sabe do sistema de maneira geral, que a convocação tenha sido oficial, mas difícil de efetivamente impor. Isso, talvez, possa explicar as diferentes e aparentemente conflitantes narrativas a respeito do motivo pelo qual os italianos em Manaus retornaram para seu país de origem: embora o chamado tenha sido, de fato, uma convocação, a noção de que os rapazes que foram o fizeram voluntariamente pode ser explicada pela consciência de que não havia, de fato, nada de particularmente sério que pudesse ser feito para obrigar esses meninos – muitos que vinham de famílias pobres que não tinham qualquer propriedade para ser confiscada na Itália, e que não pretendiam retornar à seu país de origem para viver – a se apresentarem, tornando sua participação, efetivamente, mais um voluntariado do que uma imposição, apesar da ordem oficial ter sido expedida.
De acordo com Luiz Geraldo Demasi, “durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), [a Sociedade Italiana de Mútuo Socorro e Beneficência de Manaus / Societá Italiana de Mutuo Soccorso e Beneficenza di Manaos] ajudou a recrutar patrícios italianos para defender a Itália na guerra. Muitos jovens nem esperavam ser convocados e se ofereceram voluntariamente para lutar na frente de batalha.” Fica incerto se a convocação à qual Demasi se refere é a ordem oficial do governo italiano e se, nesse caso, a Sociedade Italiana de Mútuo Socorro e Beneficência de Manaus estava trabalhando com a Itália para auxiliar na repatriação de seus emigrados, ou se a “convocação” por parte da Sociedade Italiana seria mais um incentivo ou tipo de pressão social do que algo vinculado às ordens de alistamento mandatório emitidas na Europa, que representaria um tipo de pressão social mais do que algo legalmente significativo. Mário Ypiranga fala, claramente, de alistamento voluntário também.
Demasi oferece um exemplo interessante disso ao dizer, em uma entrevista muito anos depois, que foi convocado, mas que seus pais o aconselharam a não ir. Talvez por isso Mário Ypiranga e outros autores tenham tido a impressão de que Demasi juntou-se ao exército de maneira voluntária, embora o próprio o tenha negado categoricamente em público e privado ao longo da vida. O próprio Comissariado de Emigração observou que “nossos compatriotas nascidos no Brasil que retornaram para a pátria após a mobilização estavam convencidos de que realizavam um ato totalmente voluntário”.
O que é certo, porém, é que os rapazes que foram – seja por vontade própria ou por imposição – passaram por situações terríveis durante seu serviço. Já em novembro de 1914, havia se tornado dolorosamente claro que a guerra rápida aos moldes do século XIX que os exércitos esperavam não seria a realidade e, com a chegada do inverno, a guerra de movimento foi abandonada em favor de combate de trincheiras. No Museu Imperial de Guerra, em Londres, estão descritas as trincheiras da seguinte maneira: “Trincheiras salvavam vidas. Elas protegiam os soldados nelas de estilhaços e balas. Mas guerra de tricheiras significava um beco sem saída. Trincheiras desenvolveram-se de valas simples para complexas teias de fortificações […] através de bancos de areia, campos enlameados, colinas com florestas e vilarejos”. A vida nas trincheiras era perigosa, insalubre e árdua. Protegidas por arame barbado e sacos de areia, e frequentemente à pouca distância de trincheiras inimigas, essas estruturas poderiam manter seus soldados à salvo de balas e artilharia inimigas – contanto que mantivessem suas cabeças baixas, seus corpos curvados, e suas velas e isqueiros apagados durante a noite -, mas pouco fazia para abriga-los do frio, da chuva e do sol, para manter longe os ratos e afastar as doenças.
A frente do Isonzo, onde lutaram boa parte desses rapazes, era um ponto de complicação, onde o exército italiano com frequência via-se em desvantagem, pois as temperaturas eram congelantes, e o terreno montanhoso favorecia a defensiva – posição quase sempre adotada pela Áustria, que na maior parte do tempo tinha seus exércitos melhor localizados para observar e repelir ataques. No frio, os soldados sofriam de dores de garganta, resfriados, gripes e vômito, além dos outros problemas de saúde tradicionais de toda e qualquer trincheira: desidratação, diarreia, alergias, problemas de pele, feridas, queimaduras, bolhas, constipação, infecções, inflamações nervosas e, é claro, exaustão. Manter a higiene em busca de preservar a saúde, embora uma prática encorajada, era praticamente impossível, e atendimento médico era uma questão complexa, pois muitos comandantes relutavam em permitir que muitos homens buscassem tratamento simultaneamente, com medo de desfalcar suas companhias, e médicos e oficiais vez ou outra acusavam homens doentes de procurar fugir de seus deveres. Alguns casos poderiam ser interpretados como deserção – um crime passível de julgamento em corte marcial, podendo resultar em prisão ou execução.
É bastante provável que muitos dos italianos vindos de Manaus tenham lutado em duas grandes batalhas: Caporetto, uma derrota colossal para o exército italiano, e Vittorio Veneto, uma vitória brilhante um ano depois. Domenico Demasi, por exemplo, foi um dos combatentes de ambas, tendo recebido uma medalha comemorativa na década de 1960 por sua participação nessa última. Seu nome está inscrito no Museo della Battaglia, na cidade de Vittorio Veneto. A batalha durou de 24 de Outubro à 3 de Novembro de 1918, e foi parte do esforço derradeiro do conflito, marcando o fim da guerra na frente italiana, com o armistício entrando em efeito às 15:00 do dia 4 de Novembro – uma semana antes do armistício geral.
Hoje, mais de um século depois, os nomes desses jovens permanecem quase apagados da memória coletiva. E, no entanto, caminhar pelo centro de Manaus é, talvez, cruzar com os ecos de suas famílias: sobrenomes preservados em placas de comércio, feições herdadas, histórias que resistem em fragmentos. Ao lembrar desses rapazes — que trocaram a floresta pelo frio das trincheiras —, recuperamos não apenas um capítulo esquecido da história da cidade, mas também a certeza de que a Amazônia, mesmo em sua geografia isolada, nunca esteve à margem do mundo.