quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"How to be a manauara"

COMPARTILHE
Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Estreou em novembro, em um canal de TV fechada, a série “How to be a carioca”. Ela retrata as experiências de alguns estrangeiros no Rio de Janeiro, tendo como interlocutor um “carioca da gema”, estrelado pelo cantor Seu Jorge.

A ambição da série é mostrar como é a cultura carioca, em sua pluralidade, usando alguns estereótipos, mas mostrando sua diversidade também. A ideia da relação estrangeiro x local seria o eixo através do qual a narrativa se consolidaria.

E se houvesse uma série local: “How to be a manauara” … O que ela mostraria? Do que ela falaria? Que cidade ela mostraria?

Primeiramente, o óbvio: restaurantes de peixes, shows de boi bumbá, tomar tacacá em praças e visitar o encontro dos rios Negro e Amazonas. Não dá para fugir do estereótipo, seja no Rio, em São Paulo ou em Manaus.

Contudo, e depois? Como andaríamos pela cidade? Como se locomover aqui? Sem comparar com outras cidades, para evitar briguinhas regionais (o clubismo), a pergunta se impõe: como o turista/estrangeiro andaria em Manaus? Creio que muito mal. Os ônibus são problemáticos e repletos de deficiências. Além disso, são o único modal coletivo da cidade, pois não se pode considerar mototaxistas como transporte coletivo.

Tudo isso, sem falar do trânsito caótico, engarrafado, violento e agressivo ou das ruas irregulares, sem calçadas e totalmente inapropriadas para os pedestres. Seria bem realista mostrar como idosos e pessoas com necessidades especiais andam mal em nossas ruas, movendo-se em meio a pedras e terra, inclusive onde ainda existe calçamento.

Outro episódio bem realista seria exibir nossa desordem urbana. As calçadas invadidas por lojistas, cafés da manhã, camelôs, imigrantes, sem teto e carros, entre outros elementos estranhos, seriam um ponto alto dessa desorganização coletiva.

A violência poderia ser outro episódio. Os roubos a celular, os famosos “dois homens em uma moto”, os assaltos nos ônibus, as execuções na periferia, enfim, há um cardápio completo a ser mostrado em uma série. Muito se fala da violência nas grandes cidades do sudeste, mas Manaus, assim como outras capitais do norte/nordeste possui números elevados de criminalidade. Não poderia deixar de ser exibida tal faceta da cidade em uma série televisiva.

E o meio ambiente? E a floresta? Pois é, depois das queimadas e da fumaceira geral, talvez ficasse meio estranho exibir esse tema. Porém, seria inviável não falar disso ao retratar a capital do Amazonas. O problema é como mostrar tal ponto. Exibir a floresta ao redor da cidade é fácil. Contudo, Manaus é uma das capitais menos arborizadas do país. Esse contraste poderia ser explorado e talvez suscitasse debates entre especialistas. Como pode haver tanto verde e debate ambiental em uma cidade tão cinza e repleta de concreto, pintura abstrata e asfalto?

Enfim, mostrar uma cidade não é apenas exibir seus pontos turísticos (Teatro Amazonas, encontro dos rios, Mercado municipal etc), mas também, exibir seus dilemas urbanos e como isso interfere no cotidiano de seus moradores. Como retratar a vida em uma cidade cuja pobreza faz com que a população que recebe auxílios seja maior do que a que possui emprego? Como mostrar a vida nos bairros de invasão, a falta geral de saneamento básico e os crônicos problemas de água e luz?

Para finalizar, só enfatizo que essas são reflexões sobre o que poderia ser exibido em um programa assim, que retratasse a Manaus real e não aquela do turista. Certamente que a hospitalidade e a generosidade das pessoas apareceriam em tal série da TV. Entretanto, até que ponto tais características pessoais já diminuíram, por causa da pobreza e da violência, por exemplo? Tais questões poderiam orientar nossas considerações sobre o que é Manaus e o que ela pensa de si.

Mostrar comidas, pessoas bondosas, a culinária local ou as belezas naturais é interessante. Contudo, fora de qualquer programação televisiva, podemos e devemos ir além. Temos de ver o que é nossa cidade de fato, com suas mazelas, impasses e desafios. Alguns foram listados (transporte, ruas, desordem urbana e violência). Porém, há outros e o exemplo da série de Tv é bom para mostrar o que somos, o que pensamos ser e o que desejamos ser.

Deixe um comentário

COMPARTILHE