domingo, 25 de outubro de 2026

CRÍTICA TEATRAL: Giramundo traz um clássico de seu repertório

COMPARTILHE
Dib Carneiro é jornalista, dramaturgo e crítico teatral

Manaus pôde aplaudir, em mais um dia de seu “Festival Sesi Cultura Infância – Uma Visão de Futuro”, duas sessões de Pedro e o Lobo, espetáculo mais conhecido da carreira do mineiríssimo Grupo Giramundo, de Belo Horizonte. A companhia brasileira de animação mais famosa no mundo nasceu em 1970. É um grande feito estar ativa até hoje, renovando seus elencos e cultivando seu bem-sucedido repertório. Claro, o nosso País não sabe valorizar seus tesouros culturais – e é por isso que se torna tão grandioso o fato de resistirem firmes desde 1970.

Pedro e o Lobo foi criado por eles em 1993. Virou uma pérola do repertório, fácil de viajar, boa de agradar a todas as faixas etárias, incluindo os adultos. Sua base, claro, é a obra do russo Sergei Prokofiev (1891-1953), que ele compôs em dez dias, em 1936, por encomenda de Natalya Sats, diretora do Teatro Musical para Crianças de Moscou. A ideia era apresentar às crianças o som de alguns instrumentos musicais. O compositor criou uma história em que cada personagem é representado por um instrumento diferente.

O Giramundo, em sua versão do início dos anos noventa, optou de cara pelos bonecos de fios, para garantir mais mobilidade, movimentos mais variados. Um grande acerto. O que a gente vê, com direção agora renovada de Ulisses Tavares e Bia Apocalypse, é um primor de manipulação, ágil e detalhista, com o cuidado que eles têm de fazer os bonecos andarem no chão do palco, ou seja, mais à altura dos olhos das crianças da plateia do que dos adultos. Prokofiev e Natalya Sats teriam orgulho dessa opção, pois o teatro dela em Moscou era todo pensado/construído para o tamanho/altura das crianças. Sem contar que os bonecos de fios atiçam as memórias dos adultos, que se encantam tanto quanto os pequenos com essa técnica clássica e até retrô de animação. Bom, e o design de todos os bonecos – criação inspirada do saudoso Álvaro Apocalypse – é algo de nos encher os olhos, pela delicadeza e funcionalidade.

O espetáculo foi todo construído para um trio de atores-manipuladores no registro clownesco trapalhão circense. Aqui em Manaus, Ana Fagundes, Rai Bento e Enzo Giaquinto foram perfeitos, tanto como marionetistas quanto (e principalmente) como digníssimos representantes da mais alta e nobre palhaçaria. O trio brilhou nos tombos, erros, trocadilhos, gags – enfim, em tudo o que caracteriza um bom jogo cênico entre três patetas, por assim dizer. Curioso é notar como as cenas precisam ter a duração da música, pois essa é a estrutura na qual a obra foi pensada e criada. Uma história narrada dentro de um poema sinfônico. E o Giramundo faz isso muito bem, não deixando espaço para “barrigas” nem buracos. Tudo casa bem e ainda deixa no final um gosto de quero mais.

Na trama, o lobo (trompa) – ótima ideia de encher o palco com efeitos de fumaça toda vez que ele aparece! – engole/come um pato (oboé) e, no final, Pedro (cordas) fica triste, até que volta à cena um novo patinho, para alegria das crianças e celebração de um final feliz. Fiquei matutando sobre isso, afinal os contos universais para crianças sempre foram mais cruéis e realistas do que são hoje. A Disney, principalmente, tudo edulcorou e amenizou. Mas sou capaz de entender essa escolha do Giramundo, pelo viés da esperança. É importante fazer teatro infantil apontando caminhos, saídas. O patinho simboliza essa esperança, essa vida que se renova. “O primeiro pato o lobo comeu, mas ficou um ovinho e dele nasceu o novo patinho”, comentou comigo a diretora Bia. É isso: vida que segue.

COMPARTILHE