Nascido em Itacoatiara, Amazonas, em (1957 – 2020), Francisco Antônio Carlos transcendeu as fronteiras entre teatro, filosofia e ativismo, deixando um legado nas artes cênicas brasileiras. Diretor teatral, ator e dramaturgo de destaque, sua trajetória foi marcada por uma inquietação criativa que abrangeu desde várias linguagens. Formado em filosofia pela Universidade do Amazonas, Carlos não escrevia peças esculpia manifestos cênicos, nos quais a palavra se entrelaça com a ancestralidade indígena e crítica social. Com mais de 40 obras escritas e 30 espetáculos dirigidos, sua produção artística tornou-se um farol de resistência cultural. Francisco Carlos faleceu em 2020, mas sua voz ecoa além do palco: nas florestas, nas lutas e no imaginário de um Brasil que insiste em renascer.
Seu repertório, repleto de simbolismos, inclui obras como Românticos da Idade Média (tragédia pastiche), a tetralogia Jaguar Cibernético mergulho em mitologias indígenas e distopias tecnológicas e títulos provocadores como Xupaespacial ou Combate Mortal entre o Cavalo e o Robô. Para o autor, o palco é um campo de batalha: ali, a Amazônia não é cenário passivo, mas protagonista de narrativas que desafiam o apagamento colonial.
Além dos palcos, Francisco levou suas experimentações a instituições como o Coral Paulistano e o Teatro Municipal de São Paulo, ministrando workshops que fundem expressão cênica e voz lírica. Uma síntese entre o erudito e o popular, o local e o universal eixo central de sua arte.
Destaque em seu repertório, Cavalo Hidrelétrico (classificada como “ficção científica teatral”) é uma alegoria visceral sobre resistência indígena e os monstros da modernidade. Ambientada em um futuro distópico, a peça desdobra-se como um caleidoscópio de símbolos, desafiando a lógica colonial em cinco eixos centrais: Espiritualidade como ato revolucionário; Memória viva: Fantasmas do Passado no Presente; Subversão do (pelo) Sagrado: Demônios como Aliados; Maria Solaris: a heroína, Ecologia ou Morte representações da dicotomia e da destruição.
Entre esses eixos, é fundamental destacar a ayahuasca (kamárampi) que não é apenas ritual; é portal para o divino. O Xamã Antaviari, com seus cantos e plantas medicinais, personifica a ponte entre humanos e Pawa (deus criador), enquanto a kushma (vestimenta tradicional) transforma-se em insígnia de resistência contra a proibição do Capitão X 2 figura que encarna a violência colonial. Personagens como a Índia-na-Sombra e o Guerreiro das Trevas são espectros de lutas históricas, como a resistência no Cerro de la Sal contra os espanhóis. Essas figuras ligam a distopia ao real, expondo a tecnologia como ferramenta de extermínio. O Cavalo – Robô (EQUUS HIDRELÉTRICUS), por exemplo, não é máquina, mas metáfora da exploração capitalista: construído sobre corpos indígenas escravizados, devora a floresta ecoando projetos como Belo Monte e outros [grifo meu].
Os personagens, Korioshipiri e Irampavánto, demônios aliados aos indígenas, invertem a lógica colonizadora que sataniza o sagrado nativo. Aqui, o “mal” é desmascarado como invenção do opressor, revelando como narrativas coloniais distorcem identidades para legitimar dominação. Maria, líder da rebelião, carrega em seu corpo a tatuagem protetora e as cinzas do Cavalo-Robô símbolo da contaminação colonial e da cura possível. Sua insurgência não se limita ao Capitão X2: é um levante contra o sistema que reduz a Amazônia a “coração-pulmão-selvagem do capital”. A peça contrasta a cidade de ferro (extrativista, desumana) com a floresta (espaço de vida e mitologia), revelando o cerne da crítica: o capitalismo como praga. Não há finais felizes, apenas um chamado à desobediência.
Francisco Carlos se enquadra, segundo a minha tese, na “dramaturgia menor” conceito de Deleuze e Guattari sobre vozes que desafiam hegemonias. Suas dramaturgias são atores políticos: a Amazônia fala, vomita (literalmente, no ritual da ayahuasca) e ressurge. Em tempos de garimpos ilegais e queimadas, Cavalo Hidrelétrico não é ficção é grito de alerta. Cada símbolo da ayahuasca ao Cavalo-Robô convida à reflexão sobre ecologia, resistência cultural e os custos humanos do “progresso”. Nas mãos de Carlos, o teatro não é entretenimento: é arma de transformação.
* O trecho do texto faz parte da pesquisa “E o que diz esse tal de nova dramaturgia brasileira?” em andamento no PPGAC – Programa de Pós – Graduação em Artes Cênicas da UDESC que visa refletir sobre a dramaturgia contemporânea na Região Norte.
REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2 . Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011. v. 2. (Coleção Trans)
Kafka: por uma literatura menor . Tradução de Cíntia Vieira da Silva.
Revisão da tradução de Luiz BL Orlandi. 1. ed., 7. reimpr. Belo Horizonte: Autêntica,2024.
FRANCISCO Carlos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/38710-francisco-carlos?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 08 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7
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