A Páscoa é uma data religiosa interessante – a crucificação e ressurreição de Cristo, ou seja, a data mais importante do ano litúrgico cristão, e também, se pensarmos no Velho Testamento, o marco da libertação dos hebreus do Egito por Moisés. Ambos os eventos – do ponto de vista narrativo, inegavelmente histórias épicas que podem explorar os mais variados temas, desde amor e redenção até traição e direitos civis – foram e continuam sendo fonte de infinita inspiração para filmes, séries e documentários excelentes.
A lista que se segue não é exaustiva — o cinema e a televisão produziram mais adaptações de histórias bíblicas do que qualquer pessoa poderia assistir numa única vida —, mas reúne algumas das melhores e mais interessantes obras do gênero, de épicos clássicos de Hollywood a séries contemporâneas, passando por musicais, documentários e experimentos que desafiaram convenções; há aqui algo para crentes e não-crentes, para quem quer emoção e para quem quer reflexão, para quem já conhece as histórias de memória e para quem as está descobrindo pela primeira vez.
O que eles têm em comum é que fazem algo de interessante com o material que escolheram, seja pela grandiosidade da escala, pela ousadia da abordagem, pela força de uma performance ou pela inteligência de uma premissa.
Ben-Hur (1959)
Dificilmente existe filme mais associado à Páscoa do que Ben-Hur, e a associação não é acidental — a história de Judah Ben-Hur, príncipe judeu que é traído pelo amigo de infância romano Messala e condenado às galés, desenvolve-se em paralelo com a vida de Cristo, que aparece na narrativa de maneira discreta mas absolutamente central para seu desfecho. Dirigido por William Wyler e estrelado por Charlton Heston numa performance que lhe valeu o Oscar, o filme é um dos maiores épicos já produzidos em Hollywood, com uma corrida de bigas que permanece, mais de sessenta anos depois, uma das sequências de ação mais impressionantes da história do cinema — filmada com animais reais, cenários físicos monumentais e uma coreografia que nenhum efeito digital conseguiu ainda superar. A história de vingança, sofrimento e redenção que o filme narra é, no fundo, uma história sobre o que a fé — e o encontro com algo maior do que si mesmo — é capaz de fazer com um homem.
A Última Tentação de Cristo (1988)
Nenhum filme desta lista gerou mais controvérsia do que a adaptação que Martin Scorsese fez do romance de Nikos Kazantzakis — proibido em vários países, alvo de protestos violentos, e até hoje capaz de provocar reações intensas em certas audiências. A proposta do filme é radicalmente diferente da dos épicos bíblicos tradicionais: em vez de um Cristo sereno e distante, Scorsese e seu roteirista Paul Schrader apresentam um Jesus profundamente humano, atormentado pela dualidade entre sua natureza divina e seus desejos, medos e fraquezas humanos — incluindo, na sequência que motivou toda a polêmica, uma fantasia de uma vida comum ao lado de Maria Madalena. Willem Dafoe interpreta Cristo com uma intensidade crua e desconcertante, e o filme, longe de ser uma provocação vazia, é uma meditação genuinamente séria sobre o que significaria ser simultaneamente humano e divino — uma questão que está no coração do próprio cristianismo, só que raramente formulada com essa honestidade.
Os Dez Mandamentos (1956)
Cecil B. DeMille levou seis anos para produzir sua versão definitiva da história de Moisés — ele já havia filmado uma versão muda do mesmo tema em 1923 — e o resultado é o tipo de filme que só poderia ter sido feito naquele momento específico da história de Hollywood, quando os grandes estúdios ainda tinham o orçamento, a ambição e a disposição para montar produções de uma escala que hoje seria simplesmente impossível. Charlton Heston, mais uma vez, está no centro, desta vez como Moisés, e Yul Brynner interpreta o Faraó Ramsés com uma frieza que permanece como uma das grandes caracterizações vilãs do cinema clássico. As cenas das pragas e da abertura do Mar Vermelho, com todos os seus excessos e efeitos práticos que revelam sua idade, continuam sendo espetaculares pelo que representam — um esforço humano de dar escala visual a histórias que existem há milênios no imaginário coletivo de metade do planeta.
Barrabás (1961)
Barrabás é o personagem mais misterioso do Novo Testamento — mencionado brevemente nos quatro evangelhos como o criminoso libertado no lugar de Jesus por escolha da multidão, e depois completamente desaparecido da narrativa sagrada. O que aconteceu com ele depois? O escritor sueco Pär Lagerkvist, laureado com o Nobel de Literatura, transformou essa lacuna num romance sombrio e perturbador, e o filme italiano dirigido por Richard Fleischer em 1961, com Anthony Quinn no papel principal, seguiu essa mesma linha — não a de um épico celebratório, mas a de um drama denso sobre um homem que viveu porque outro morreu em seu lugar, e que passa o resto da vida sem conseguir encontrar paz com esse fato. Barrabás percorre minas de enxofre e arenas de gladiadores carregando a lembrança de Cristo como um peso que não consegue largar e também não consegue abraçar; é, no fundo, uma história sobre o fardo de ter sido poupado, e sobre a impossibilidade de redimir-se de algo que não foi, tecnicamente, culpa sua. Uma das curiosidades mais notáveis da produção é que a cena da crucificação foi filmada durante um eclipse solar real, capturado diretamente pela câmera.
Ressurreição (2016)
A premissa de Ressurreição é suficientemente inteligente para separar o filme da maioria das produções bíblicas convencionais: em vez de acompanhar a história de Cristo do ponto de vista dos apóstolos ou dos fiéis, o filme segue Clavius, um tribuno romano agnóstico interpretado por Joseph Fiennes, encarregado por Pôncio Pilatos de investigar o desaparecimento do corpo de Jesus após a crucificação e desmentir os rumores de ressurreição antes que provoquem um levante em Jerusalém. O resultado é um filme que funciona, na maior parte de sua duração, quase como um policial — com Clavius conduzindo interrogatórios, vasculhando túmulos e coletando depoimentos contraditórios como um detetive relutante diante de um caso que não fecha —, e que tem a sabedoria de não tentar competir com os grandes épicos em termos de escala ou grandiosidade, apostando num registro mais intimista e contido que lhe serve muito bem.
The Passion — BBC (2008)
Produzida pela BBC em coprodução com a HBO e exibida ao longo da Semana Santa de 2008, esta minissérie em seis episódios conta a última semana da vida de Cristo com uma sobriedade e um rigor histórico que a distinguem da maior parte das produções bíblicas, apostando menos no espetáculo e mais na política — na tensão entre as autoridades religiosas judaicas, o poder romano representado por um Pôncio Pilatos humano e ambíguo (James Nesbitt, numa das melhores interpretações da série), e um Jesus interpretado por Joseph Mawle com uma presença contida e inquieta que muitos críticos consideraram a mais humanamente convincente desde Robert Powell em Jesus de Nazaré. O roteirista Frank Deasy e o produtor Nigel Stafford-Clark trabalharam com o estudioso bíblico Mark Goodacre para construir uma Jerusalém política e socialmente densa, onde a crucificação emerge não como destino mítico inevitável, mas como resultado de um jogo de interesses concretos, mesquinhos e reconhecíveis — o que, paradoxalmente, torna o peso da história ainda maior.
Jesus Christ Superstar (1973)
Baseado no musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice que sacudiu a Broadway no início dos anos 1970, o filme dirigido por Norman Jewison é um dos experimentos mais ousados já feitos com material bíblico, e um dos poucos que envelheceu genuinamente bem, sobretudo musicalmente. Filmado em locações reais na Palestina com uma estética deliberadamente anacrônica, misturando túnicas e tanques de guerra, sandálias e óculos escuros, a produção não tenta reconstituir o primeiro século mas sim capturar algo de sua energia política e emocional em termos contemporâneos, tratando Cristo como uma figura revolucionária cercada de expectativas impossíveis e Judas como um homem sinceramente atormentado, não um vilão de carteirinha — uma releitura que continua sendo, cinquenta anos depois, teologicamente provocadora e dramaticamente eficaz. Ted Neeley, no papel de Jesus, e sobretudo Carl Anderson, como Judas, entregam performances que vão muito além do que o formato musical normalmente exige.
A Maior História Já Contada (1965)
Filme dirigido por George Stevens com Max von Sydow num papel que marcou sua carreira e um elenco de apoio que inclui, entre outros, Charlton Heston (desta vez como João Batista), Sidney Poitier, José Ferrer e Claude Rains. O filme é um épico no sentido mais ambicioso da palavra — mais de quatro horas em sua versão original, filmado em paisagens do sudoeste americano que Stevens escolheu deliberadamente pela escala e pela luz, com uma abordagem solene e quase litúrgica que tanto pode ser lida como grandeza quanto como distância excessiva, dependendo do espectador. Von Sydow traz ao papel uma serenidade que beirava o inumano — o que é, ao mesmo tempo, a força e a limitação do filme: seu Cristo é belo e imponente, mas raramente parece habitado pelo tipo de urgência e conflito que faz as outras representações da lista mais perturbadoras e, por isso, mais memoráveis.
Jesus: His Life — History Channel (2019)
Esta série docudrama do History Channel em oito episódios propõe uma estrutura narrativa inteligente — contar a vida de Cristo através dos olhos de oito personagens que o cercaram, de José a Maria Madalena, de Judas a Pilatos —, intercalando reconstituições dramáticas com comentários de historiadores, teólogos e estudiosos bíblicos de diferentes tradições e posições, incluindo agnósticos, o que garante ao menos alguma tensão intelectual num gênero que costuma evitá-la. A estrutura de perspectivas múltiplas funciona bem o suficiente para que episódios como os dedicados a Caifás e a Judas ofereçam ângulos genuinamente menos explorados pela tradição cinematográfica — personagens que costumam ser tratados como obstáculos à narrativa principal e que aqui, ao menos por alguns momentos, ganham uma dimensão própria.
O Príncipe do Egito (1998)
Produzido pela DreamWorks Animation e lançado em 1998, O Príncipe do Egito é, sem qualquer margem de dúvida, a melhor adaptação animada de um texto bíblico já feita, e um dos filmes de animação mais impressionantes dos anos 1990 — um período extraordinariamente fértil para o gênero. A história de Moisés e o Êxodo é contada com uma atenção visual e emocional que envergonha muitas produções live-action do mesmo tema, com sequências como a das pragas ou a abertura do Mar Vermelho que permanecem tecnicamente deslumbrantes décadas depois, e uma trilha sonora de Hans Zimmer com músicas de Stephen Schwartz que inclui When You Believe, vencedora do Oscar — cantada, na versão original, por Whitney Houston e Mariah Carey, num dueto que de alguma forma continua superando as expectativas toda vez que se ouve. O filme tem também a sabedoria de centrar seu conflito emocional na relação entre Moisés e Ramsés, criados como irmãos e destinados a se tornar adversários, o que transforma uma história de libertação coletiva numa tragédia pessoal de uma eficácia surpreendente para um filme classificado para todas as idades.
Jesus de Nazaré — Franco Zeffirelli (1977)
Se há um filme que define, para gerações inteiras de espectadores, a imagem de Jesus Cristo, é quase certamente este — e a responsabilidade por isso recai em partes iguais sobre a visão do diretor italiano Franco Zeffirelli e sobre os olhos azuis e imóveis de Robert Powell, que Zeffirelli instruiu a raramente piscar durante toda a produção, com o resultado de um olhar que se tornou, literalmente, uma das imagens mais reproduzidas na arte devocional cristã das últimas décadas. A minissérie de mais de seis horas — concebida originalmente para a televisão a pedido do próprio Papa Paulo VI, e depois exibida em salas de cinema pelo sucesso que alcançou — acompanha a vida de Cristo do nascimento à ressurreição com um cuidado histórico e visual que era praticamente inédito na televisão da época, filmada em locações no Marrocos, na Turquia e na Tunísia com um elenco de apoio que reunia, entre outros, Laurence Olivier, Anne Bancroft, James Mason, Michael York, Anthony Quinn e James Earl Jones. É uma obra que envelheceu com a dignidade dos clássicos que sabem exatamente o que querem ser.
Messiah — Netflix (2020)
A premissa de Messiah é suficientemente inteligente para sustentar dez episódios de boa televisão: e se um homem aparecesse hoje no Oriente Médio realizando atos que seus seguidores descrevem como milagres, atraindo multidões e desestabilizando governos? A série, criada por Michael Petroni e estrelada por Mehdi Dehbi no papel do misterioso Al-Masih — nome que, não por acidente, é também como o islamismo chama o Anticristo —, e Michelle Monaghan como a agente da CIA encarregada de investigá-lo, tem a sabedoria de manter a ambiguidade até o fim, nunca resolvendo a questão central de se o personagem é o que afirma ser ou um charlatão extraordinariamente bem-preparado, e deixando essa decisão inteiramente nas mãos do espectador. A execução é mais irregular do que a premissa merecia, e o cancelamento abrupto após uma única temporada deixou a história sem resolução; mas como experimento sobre como o mundo contemporâneo — com suas redes sociais, suas agências de inteligência, seu cinismo e sua sede de algo transcendente — receberia uma figura messiânica, a série faz perguntas que não perdem validade.
Testamento: A História de Moisés — Netflix (2024)
Esta série documental em três episódios, lançada pela Netflix na Páscoa de 2024 com narração do sempre excelente Charles Dance, segue o formato híbrido que o streaming tem explorado com alguma frequência: reconstituições dramáticas intercaladas com comentários de teólogos, historiadores e especialistas religiosos de diferentes tradições — cristã, judaica e islâmica —, o que confere à narrativa uma pluralidade de perspectivas que o gênero costuma evitar. O ator judeu Avi Azulay interpreta Moisés, e a produção, filmada no Marrocos, tem uma qualidade visual que está acima da média para o formato. Os pontos altos são as sequências das pragas e a abertura do Mar Vermelho; os pontos fracos estão nas reconstituições dramáticas propriamente ditas, que tendem à superficialidade precisamente quando a narrativa pede mais profundidade emocional, passando muito por cima de algumas das partes mais interessantes da história, como o tempo de Moisés no Egito e sua relação pessoal com o Faraó. É uma boa introdução ao tema para quem não conhece a história, e uma opção razoável para quem a conhece mas quer revisitá-la com algum contexto histórico e religioso adicional — mais do que um grande drama, é um documentário com ambições narrativas que nem sempre cumpre.
Jesus Christ Superstar Live Arena Tour (2012)
Esta versão filmada de uma produção ao vivo em arena, com Tim Minchin no papel de Judas e Melanie C — a Sporty Spice — como Maria Madalena, é provavelmente a menos conhecida das adaptações cinematográficas do musical de Lloyd Webber e Tim Rice, mas tem argumentos consideráveis a seu favor, sobretudo na performance de Minchin, que traz ao papel de Judas uma intensidade raivosa e vulnerável que rivaliza com as versões anteriores, e na escala genuinamente espetacular de uma produção concebida para arenas de dezenas de milhares de pessoas, com iluminação e cenografia que exploram esse espaço de maneira que versões mais contidas simplesmente não conseguem. A adaptação moderna é interessantíssima e atual; Ben Forster é um Jesus vocalmente poderoso, e o formato ao vivo — com toda a imperfeição que isso implica — devolve ao material uma urgência que produções mais polidas às vezes perdem. Personagens secundários como Pôncio Pilatos encontram versões excelentes aqui, e alguns números, como Superstar, se destacam; a utilização da versão moderna da letra de Gethsemani, que troca “God, Thy will is hard, but you hold every card” por “God, Thy will be done, take your only son” é uma troca bem-vinda. Não é a melhor versão do musical, mas é uma das mais vivas.
The Chosen — (2017–presente)
The Chosen é um fenômeno que não tem paralelo na história das produções sobre a vida de Cristo: criada pelo diretor Dallas Jenkins, financiada inicialmente por crowdfunding — tornando-se a série mais bem-sucedida nessa modalidade na história —, distribuída gratuitamente através de seu próprio aplicativo e já assistida por mais de duzentos milhões de espectadores em todo o mundo, a série está planejada para sete temporadas e já conta com cinco concluídas, tendo chegado à Última Ceia na temporada mais recente, enquanto a sexta — a ser lançada em 2026 — abordará a Paixão e a crucificação. O que distingue The Chosen de praticamente todas as outras adaptações é a decisão de construir o mundo ao redor de Cristo antes de construir Cristo em si — dar aos discípulos, às mulheres que o seguiam, aos fariseus e aos funcionários romanos uma vida interior completa, com histórias anteriores, contradições e motivações que os textos sagrados raramente fornecem —, de modo que quando Jonathan Roumie aparece como Jesus, ele aparece num mundo já habitado, não num cenário. É uma aposta de longo prazo que paga dividendos crescentes à medida que a série avança e as relações entre os personagens acumulam peso.
Êxodo: Deuses e Reis (2014)
A aposta de Ridley Scott ao adaptar a história de Moisés foi a da desmitificação — as pragas têm explicações naturais em cadeia, a voz de Deus pertence a um menino que poderia ser uma alucinação (e que é interpretado com maturidade e excelência por um ator de dez anos), e o Mar Vermelho abre-se por uma maré —, uma escolha que torna o filme uma experiência genuinamente distinta de qualquer outra adaptação do mesmo material. Christian Bale interpreta um Moisés que é, antes de tudo, um estrategista militar e um homem profundamente cético, e a tensão entre sua natureza racional e a missão que lhe é imposta dá ao personagem uma dimensão psicológica raramente explorada no gênero; Joel Edgerton, como Ramsés, oferece um antagonista movido por amor fraternal traído e vaidade ferida, em vez do vilão pantomímico que o épico bíblico costuma apresentar. A relação entre os dois personagens é crucial para o filme, e forma sua base emocional e narrativa. As sequências das pragas estão entre as mais visceralmente perturbadoras já filmadas no gênero, e Scott — como de hábito — garante que o filme seja um espetáculo visual de primeira ordem, com uma reconstituição do Egito antigo que tem a densidade e a textura que é sua marca registrada.
Jesus Christ Superstar (2000)
Filmada nos estúdios de Pinewood em 1999 e lançada em 2000, esta versão do musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice tem como principal trunfo a sua fidelidade ao espírito teatral do material — ao contrário da versão de 1973, que levou o musical para locações em Israel e apostou no anacronismo visual como recurso cinematográfico, esta produção abraça a artificialidade do palco como linguagem própria, com uma estética mais contida que concentra a atenção inteiramente nas performances e nas músicas. Jerome Pradon, como Judas, entrega uma interpretação de grande intensidade expressiva – totalmente diferente de Carl Anderson, mas também muito interessante -, e Glenn Carter, no papel de Jesus, sustenta com convicção o peso de um papel que exige tanto atletismo vocal quanto fragilidade emocional; o Herodes de Rik Mayall é um acréscimo de energia cômico e perturbador que funciona precisamente porque contrasta com o tom mais sombrio do restante. A cena da flagelação, em particular, é brilhantemente produzida, num formato que adquire um significado brilhante ao mesmo tempo que resolve a questão de como representar chicotadas ao vivo sem, de fato, ferir o ator, com imensa criatividade.
Ben-Hur (2016)
O Ben-Hur de Timur Bekmambetov não tenta ser o épico de William Wyler — e é precisamente essa consciência de seus próprios limites que lhe permite funcionar em seus melhores momentos. A decisão de tratar a história como um thriller de ritmo mais acelerado, com uma corrida de bigas rodada em grande parte com efeitos práticos e câmeras posicionadas diretamente na ação, resulta numa sequência que tem uma imediaticidade física que o original, por toda a sua grandiosidade, não tem — e que os efeitos digitais de outras produções do gênero raramente alcançam. O muitíssimo subestimado Jack Huston interpreta um Ben-Hur completamente diferente do de Heston – mais raivoso e vingativo, talvez mais próximo do espírito do livro -, Toby Kebbell é um Messala com motivações genuinamente ambíguas — não um vilão simples, mas um homem consumido pela lealdade ao Império que escolheu —, e Rodrigo Santoro traz ao papel de Cristo uma presença serena e física que funciona bem na lógica mais terrena desta versão, onde a redenção aparece não como intervenção miraculosa mas como escolha concreta de dois homens que precisam decidir o que fazer com o ódio que os separou.
A Paixão de Cristo (2004)
Há filmes que provocam debate por suas ideias, e há filmes que provocam debate por sua própria existência — e A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson e lançado em 2004, pertence inequivocamente à segunda categoria. Filmado inteiramente em aramaico, latim e hebraico, sem legendas na versão original, rodado na Itália com Jim Caviezel no papel de Cristo e uma determinação de Gibson de retratar as últimas doze horas da vida de Jesus com um nível de violência física que o cinema bíblico nunca havia sequer considerado, o filme chegou às telas precedido por meses de controvérsia sobre antissemitismo, sobre a teologia da expiação que o sustenta, sobre se o sofrimento representado constituía arte ou tortura filmada — e arrecadou mais de seiscentos milhões de dólares, tornando-se um dos filmes de maior bilheteria da história e o filme de língua não-inglesa mais lucrativo jamais produzido.
O que é inegável é que Gibson fez escolhas formais muito deliberadas que moldam a experiência de maneira irrevogável — a câmera lenta usada sistematicamente nas cenas de flagelação e crucificação, que estende o sofrimento para além de qualquer justificativa narrativa; a escolha de uma violência tão detalhada que abandona qualquer pretensão de realismo histórico e adentra um território quase expressionista; a figura do Diabo andando entre a multidão com um bebê nos braços, numa das imagens mais perturbadoras do cinema do início do século XXI.
A influência das meditações da mística alemã Anne Catherine Emmerich, cujos relatos visionários das últimas horas de Cristo Gibson usou como fonte adicional aos evangelhos, é sentida em praticamente cada escolha estética do filme. A fotografia de Caleb Deschanel, com sua paleta escura e quase monocromática interrompida por clarões de luz, é de uma beleza genuína — o que torna a experiência ainda mais desconcertante, porque é simultaneamente um filme visualmente impressionante e um exercício de sofrimento que testa os limites do que o espectador consegue e quer suportar.
Há uma teologia específica e bastante particular por trás de cada fotograma — a de que a salvação é proporcional ao sofrimento, que quanto mais Cristo padece, maior o valor do sacrifício —, e não é necessário compartilhá-la para reconhecer que o filme a sustenta com uma coerência formal que poucos diretores conseguiriam. Seja qual for o julgamento final sobre A Paixão de Cristo, é impossível ser indiferente a ele; e essa impossibilidade, por si só, já é uma forma de grandeza.