1. Abertura: Ciência, território e pertencimento
O título deste ensaio é, antes de tudo, uma provocação:
“Do colonialismo científico à pesquisa intercultural: ciência como ação coletiva e socialmente referenciada.”
Esse título representa uma transição – ou melhor, um convite à transição – entre duas formas de fazer ciência. De um lado, a ciência como instrumento de poder e extração; de outro, a ciência como construção coletiva, que reconhece e valoriza diferentes formas de saber e de vida.
2. O colonialismo científico e suas heranças
Importante esclarecer que no debate aqui proposto, o termo “colonialidade” ou “colonialismo” refere-se ao processo de dominação das mentalidades em que referências não eurocêntricas são consideradas inferiores e dispensáveis para o desenvolvimento da humanidade.
Ao longo da história, a botânica esteve profundamente imbricada com os processos coloniais. Desde o século XVIII, a coleta sistemática de plantas tropicais serviu a interesses econômicos, industriais e estatais das potências colonizadoras. Naturalistas como Alexander von Humboldt, Carl Friedrich Philipp von Martius e Richard Spruce percorreram vastas áreas da América do Sul, coletando milhares de espécimes que hoje integram herbários europeus.
A expedição de Martius e Spix ao Brasil (1817–1820), por exemplo, gerou uma das obras mais monumentais da botânica tropical: o Flora Brasiliensis, que por décadas orientou a classificação das plantas sul-americanas — sem, contudo, reconhecer os nomes indígenas ou os usos locais das espécies.
Esses trabalhos, embora de incontestável relevância científica, estavam inseridos num contexto de dominação e apropriação. O conhecimento tradicional sobre as plantas era ignorado, apagado ou traduzido em categorias alheias à cosmovisão local.
No século XX, com a criação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – o INPA – em 1954, inicia-se uma nova fase da ciência na Amazônia. Ainda assim, as primeiras décadas foram marcadas por um modelo científico centrado no extrativismo de dados e na subordinação dos saberes locais.
Sir Ghillean Prance foi o pesquisador responsável pelo Flora Amazônica (1976-1985). O programa binacional (Brasil e Estados Unidos) de coleta de plantas em áreas ameaçadas e remotas da Amazônia. Além das diversas expedições científicas para coleta, Prance é um dos maiores identificadores do Herbário Inpa com 7.587 registros, ficando atrás apenas do conceituado parataxônomo José Ramos (14.868) e William Rodrigues (8.493). Rodrigues veio para o Inpa em 1954 a convite de seu professor, Olympio da Fonseca, primeiro diretor do Instituto.
Esses fundadores do herbário do INPA, e mais recentemente, pesquisadores como Michael Hopkins e Alberto Vicentini, contribuíram imensamente para o conhecimento da flora amazônica, cada qual com suas contribuições ao estudo da biodiversidade amazônica e com distintos graus de abertura ao diálogo com os saberes locais.
Nesse contexto, é fundamental reconhecer o papel histórico e atual dos mateiros, também conhecidos como parabotânicos – homens e mulheres que, com profundo conhecimento empírico da floresta, guiam, coletam, reconhecem padrões ecológicos e acompanham pesquisadores em campo há décadas.
Muitas das grandes coleções botânicas da Amazônia só foram possíveis graças à atuação de mateiros experientes, que conhecem os ciclos das plantas, os lugares de ocorrência, os sinais da mata e que, frequentemente, contribuem de forma decisiva na identificação de espécies – mesmo sem aparecer como autores nos artigos ou fichas de coleta.
Esses profissionais são hoje uma figura em risco de desaparecimento. A maioria está envelhecendo, sem sucessores e sem reconhecimento formal. No INPA, a atual direção tem se mobilizado para criar um curso de formação para mateiros e parabotânicos, com o objetivo de valorizar, capacitar e garantir o reconhecimento legal dessa profissão, inclusive por meio de políticas públicas e regulamentação, que sugerimos seja a do técnico em biodiversidade.
Trata-se de uma reparação histórica, mas também de uma estratégia científica inteligente: formar uma nova geração de especialistas locais, conectados com a floresta, que possam colaborar como coautores e sujeitos da ciência.
3. A virada epistemológica: crítica e reconstrução
Nas últimas décadas, cresce o reconhecimento de que o conhecimento científico é apenas uma entre muitas formas legítimas de conhecer o mundo. Autores como Boaventura de Sousa Santos, com o conceito de epistemologias do Sul, e Marisol de la Cadena, com a noção de ontologias múltiplas, desafiam a ideia de que a ciência ocidental é neutra e universal.
Gostaria de trazer aqui uma reflexão proposta pela antropóloga Marisol de la Cadena, que nos ajuda a repensar a própria ideia de mundo que muitas vezes orienta nossas práticas científicas. Ela disse: ‘Worlds do not necessarily fit within one world — the pluriverse is not a universe.’ (Mundos não necessariamente cabem dentro de um mundo – o pluriverso não é um universo) (Marisol de la Cadena , 2015).
Com essa frase, ela nos convida a considerar que há muitos modos de existência — muitas formas de conhecer, de se relacionar com a natureza, com o tempo, com o coletivo — que não se encaixam na lógica de um mundo único e homogêneo. Essa é uma provocação especialmente relevante quando pensamos na produção científica em contextos como a Amazônia, onde diferentes cosmologias e ontologias coexistem com — e muitas vezes resistem a — os marcos da ciência ocidental. Reconhecer o pluriverso, nesse sentido, não é apenas uma questão filosófica: é um gesto ético e político de abertura a outras formas de vida e conhecimento.
A crítica à ciência como instrumento de colonialidade — conforme discutido por Walter Mignolo e Catherine Walsh — também encontra eco em experiências amazônicas. Enquanto Mignolo enfatiza as estruturas históricas e discursivas da colonialidade e as possibilidades de ruptura via um pensamento crítico alternativo, Walsh insiste na ação coletiva, na vivência encarnada da decolonialidade, e no papel central dos movimentos como produtores de teoria e transformação. Ancorada nos movimentos sociais da América Latina — particularmente os movimentos indígenas, afrodescendentes e feministas, para ela, a decolonialidade é um “projeto, processo e prática” que envolve corpo, território, memória e ancestralidade.
Pesquisadores indígenas como João Paulo Tukano, Gersem Baniwa e Davi Kopenawa têm mostrado, com força e lucidez, que a floresta é um território de conhecimento, e que o saber tradicional é tão sistemático quanto qualquer saber acadêmico — embora fundado em outras bases.
Quero trazer uma fala de Davi Kopenawa que nos provoca profundamente. Ele diz:
“Os brancos estudam a floresta de longe, como se ela fosse um objeto. Mas não escutam os espíritos dela.”
Essa crítica sintetiza o que está em jogo quando falamos em superar o colonialismo científico. Kopenawa aponta para uma ciência que se distancia da vida, que pretende conhecer sem se envolver.
Quando propomos uma ciência intercultural e socialmente referenciada, estamos dizendo que é preciso escutar outros modos de saber — modos que reconhecem que a floresta é viva, que o conhecimento nasce da relação, do cuidado, da escuta.
Essa é a ciência que queremos construir: uma ciência que não apenas explica o mundo, mas que se compromete com ele.
Já para João Paulo Barreto, ou João Paulo Tukano: “A ciência indígena é uma forma de pensar e viver o mundo, uma filosofia prática que se manifesta nas relações com os seres da floresta, com os rios, com os encantados. É um conhecimento vivo, que não se separa da vida cotidiana.”
Nessa citação, João Paulo Barreto nos apresenta um conceito fundamental: o de que o conhecimento indígena não é apenas um acervo de práticas ou saberes utilitários, mas uma forma de pensamento complexa, relacional e profundamente enraizada no viver. Esse entendimento é central para o debate sobre ciência intercultural. Ele nos obriga a sair da lógica da “tradução” ou da “integração” dos saberes indígenas à ciência dominante, e a reconhecer a existência de outras epistemologias completas e autônomas. Trata-se, portanto, de um gesto de reconhecimento, mas também de reequilíbrio político: admitir que há outras formas de produzir conhecimento que não apenas coexistem, mas que podem transformar profundamente o modo como fazemos ciência — tornando-a mais relacional, situada e comprometida com a vida em todas as suas formas.
No campo da biologia, isso nos obriga a perguntar:
— O que estamos vendo quando classificamos uma planta, um animal, um fungo?
— Que saberes estamos escutando – ou silenciando – em nossas descrições?
4. A pesquisa intercultural: entre mundos e saberes
A participação das comunidades indígenas (PIQCT – Povos Indígenas em Questões de Ciência e Tecnologia) é um aspecto crucial da pesquisa intercultural. É incontestável que o conhecimento tradicional dessas comunidades sobre a flora e a funga locais foi e continuará sendo inestimável para identificar áreas pouco exploradas e espécies ainda não catalogadas pela ciência.
No INPA e em outras instituições da região, há movimentos importantes de abertura à pesquisa intercultural. Projetos coordenados por pesquisadoras como Noemia Ishikawa, Camila Ribas, Sonia Alfaia entre outros, vêm incorporando metodologias participativas e protocolos de escuta ativa em comunidades indígenas e ribeirinhas.
Pesquisas botânicas realizadas junto aos povos Baniwa, Tikuna, Yanomami, Saterê-Mawé, Macuxi e tantos outros têm demonstrado que não basta “validar” cientificamente o uso tradicional de uma planta. É preciso reconhecer a autoridade epistêmica desses povos – e isso passa pela coautoria, pela reciprocidade, e pela negociação do que pode ou não ser compartilhado.
Esse exemplo mostra que a ética e a escuta podem orientar toda a metodologia científica, mesmo em áreas como a micologia, tradicionalmente dominadas por protocolos laboratoriais rígidos. Trata-se de reconhecer que nem todo conhecimento está disponível para ser nomeado, publicado ou universalizado.
Experiências como os Herbários Vivos Comunitários e os Jardins de Plantas Medicinais Tradicionais, desenvolvidos com apoio de organizações locais, mostram que é possível criar espaços de diálogo onde o conhecimento acadêmico e o conhecimento tradicional se reconhecem e se enriquecem mutuamente.
5. Ciência como ação coletiva e socialmente referenciada
A ciência socialmente referenciada é uma ciência que dialoga com as comunidades, respeita suas prioridades e contribui para seu fortalecimento.
No INPA, há experiências que apontam para esse caminho, como projetos integrados entre botânicos e etnobotânicos, envolvendo populações indígenas no monitoramento de espécies, na avaliação de impactos ambientais e na gestão territorial.
Um exemplo emblemático é o programa de Monitoramento Ambiental e Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX), liderado por Josiel Juruna, vice-liderança da aldeia Miratu, da Terra Indígena (TI) Paquiçamba, em colaboração com grupos liderados por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (Dra. Janice Cunha, Dr. Juarez Pezzuti), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Dra. Camila Ribas, Dr. Adriano Quaresma, Dr. Jansen Zuanon), Universidade Federal do Amazonas (Dr. Ingo Wahnfried), Instituto Socioambiental (Dra. Thais Mantovanelli), MPF-PA (Dra. Cristiane Carneiro) e Universidade de São Paulo (Dr. André Sawakuchi).
Outro exemplo são as pesquisas que dialogam com os Protocolos Comunitários de Consentimento Livre, Prévio e Informado, como preconizado pela Convenção da Diversidade Biológica e pelo Protocolo de Nagoya.
6. Desafios e caminhos possíveis
Ética, coautoria e interculturalidade são três conceitos importantes a serem considerados na ciência. A ética envolve a busca por um comportamento moralmente correto na pesquisa, incluindo honestidade, responsabilidade e respeito. A coautoria refere-se à colaboração em trabalhos científicos, onde a participação de cada autor deve ser reconhecida e equitativa. A interculturalidade, por sua vez, promove o diálogo e a compreensão entre diferentes culturas e grupos sociais.
Os desafios continuam sendo muitos:
- A estrutura acadêmica ainda é avessa ao tempo lento das relações de confiança;
- Os sistemas de financiamento muitas vezes não reconhecem os custos da pesquisa participativa;
- E o sistema de avaliação científica ainda privilegia métricas quantitativas e publicações de impacto, desconsiderando produtos sociais e comunitários.
Mas há também inovações importantes. A iniciativa do Reflora, com seu repositório de imagens de exsicatas coletadas por europeus, tem ajudado a reconstruir trajetórias coloniais e permitiu que o Brasil conseguisse cumprir de forma tão exitosa as Metas 1 estabelecidas pela Estratégia Global para a Conservação de Plantas, no âmbito da Convenção da Diversidade Biológica, para os anos de 2010 e 2020.
7. Encerramento: o que nos move?
Gostaria de encerrar com uma pergunta simples: o que move os cientistas?
Se é apenas o desejo de descoberta, isso já é muito.
Mas se for também o desejo de contribuir para mundos mais sustentáveis, mais equitativos e mais vivos, então precisamos repensar como fazemos ciência – e com quem.
A Amazônia não é um acervo, nem um campo de extração de dados. É um território de saberes, de afetos, de resistências.
A biologia, assim com as ciências da natureza – que sempre foi uma ciência de encontros entre espécies – possa também ser uma ciência de encontros entre mundos e cosmovisões.
*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.