quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crônicas de uma cidade anunciada

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Semana passada, saí da UFAM por volta do meio-dia e peguei o V8 (Efigênio Sales) em direção a um dos shoppings da cidade, no intuito de almoçar. Contudo, na altura de um tradicional motel manauara, nas proximidades de um posto de gasolina, o trânsito ficou parado. Nada andava. Lentamente, os carros avançavam metros e paravam.

Pensei em algum acidente, pois uma passarela de R$ 9 milhões de reais, verba do governo e da prefeitura, havia sido instalada no V8, justamente, para evitar tais engarrafamentos. Somente um acidente de grande porte para gerar aquele engarrafamento, imaginei ingenuamente.

Contudo, ao, finalmente, fazer a outra curva, na altura de um hub para coworking, vi o que acontecia, de fato. Um policial parava o trânsito, a fim de que os carros do TCE saíssem tranquilamente. Ele parava, liberava, parava, liberava, conforme sua vontade e os desígnios de seus superiores do tribunal.

Humildemente, aceitei minha posição de simples mortal e esperei que as “autoridades” saíssem do tribunal, no seu ritmo e disponibilidade. Olhei, pacientemente, para o alto e divisei a passarela…tentando extrair algo dessa experiência singular.

Fiquei refletindo sobre isso: digamos que aquele policial ganhe uns R$ 150 mil por ano, incluindo férias, décimo e adicionais. Em cerca de 60 anos, ele pagaria aquela passarela. Ou seja, qual a razão de tal passarela? Era só botar aquele policial por 60 anos (logicamente, trocariam o indivíduo periodicamente), que a obra já se pagaria. Será que os 9 milhões não poderiam ter sido utilizados em outra coisa?

Em 2023, a prefeitura construiu uma UBS de 2 pavimentos na Cidade de Deus por R$ 6 milhões, isto é, cerca de 2/3 do valor da passarela. Por R$ 12 milhões poderíamos ter 2 Unidades de Saúde com 2 pavimentos nos bairros mais distantes e necessitados. Aquele policial estava fazendo por 1/60 aquilo a que a passarela se destinava a fazer. Os recursos poderiam ter sido mais bem direcionados, caso fizessem essa conta simples.

Além da óbvia falta de racionalidade no uso das verbas públicas – um policial de trânsito ocupar o espaço de uma passarela de R$ 9 milhões – creio haver até elementos simbólicos mais profundos.

Certas relações de poder e dominação se exercem de foram silenciosa e oculta. Nem todo domínio precisa ser violento e aberto. As Ciências Sociais estudam isso há décadas, mostrando os tipos de violências e controles que há em nosso cotidiano e nem nos damos conta.

Uma situação dessas, um possível “drama social”, nos dizeres do antropólogo Victor Turner, ou seja, uma situação na qual elementos profundos da sociedade aparecem por instantes, estava se desenrolando ali.

Vi que era o poder aparecendo de forma mascarada, mas impositiva. Não importam as passarelas, as vias expressas, os engarrafamentos ou a mobilidade urbana. O importante é que aqueles que mandam saiam de seus escritórios na hora que desejam, sem esperar para pegar a rua apinhada de carros.

Racionalizar o uso de verbas ou otimizar recursos é um palavreado bonito e elegante, admito. Porém, nesses momentos ‘dramáticos”, cai por terra toda essa aparência. Quem manda usa a polícia para parar o trânsito e pronto. Poderiam até dizer que o trânsito é intenso e os membros daquele tribunal precisam desse apoio. Contudo, metros adiante há um clube e uma academia, além de uns 2 condomínios. Não vi policial ou agente de trânsito algum preocupado com os moradores e os frequentadores do clube, muitas vezes crianças e mulheres idosas.

Enfim, é apenas um relato de quem quer ver além das leis, dos números e das frases elaboradas do marketing oficial. No mundo “real”, existem pessoas que mandam e outras que “precisam” obedecer. Democracia, racionalidade, justiça social, entre outras belas palavras, nada mais são do que nuvens nesta cidade real, que é bem diferente da ideal, aquela das passarelas, viadutos (nem falei da obra na avenida das Torres…) e ciclovias que funcionam perfeitamente.

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