A dramaturgia contemporânea brasileira reflete as tensões históricas e linguísticas do país, questionando o cânone ocidental e explorando novas linguagens poéticas. Como forma de expressão, transcende o texto e a cena, tornando-se um espaço de reflexão social, política, cultural, econômica e, sobretudo, sobre raça, gênero e identidade.
Para compreender essa dramaturgia, é necessário analisar seus aspectos linguísticos e extralinguísticos, e como eles se articulam na criação de novas poéticas, considerando o cânone aristotélico e sua crítica, como propõe Florence Dupont (2017).
Agamben (2009) define o contemporâneo como aquele que mantém uma relação crítica com o presente, enxergando suas complexidades e descontinuidades. Nesse sentido, a dramaturgia contemporânea não pode ser compreendida como uma simples continuidade linear da tradição suposta, pois “essa versão abreviada do mundo foi tornada possível por uma concepção de tempo presente que o reduz a um instante fugaz entre o que já não é e o que não é” (Santos, 2010, p. 100).
A dramaturgia, portanto, não apenas reflete o presente, mas também expande suas possibilidades de criação e experiência, desafiando a linearidade histórica imposta pelo pensamento ocidental.
Dentro dessa perspectiva, trago a noção de “língua menor”, desenvolvida por Deleuze e Guattari em Kafka: Por uma literatura menor (2024) e *Mil Platôs – Volume 2* (2011), que oferece um caminho para pensar a dramaturgia frente ao cânone ocidental pela colonialidade.
Para pensar a colonialidade na América Latia, convido Aníbal Quijano que oferece reflexões para nós entendermos o impacto do hemisfério Norte sobre as terras brasileiras e, internamente, a relação desigual entre o Sudeste e as regiões consideradas “periféricas”.
Boaventura de Sousa Santos (2010) propõe uma crítica à modernidade ocidental através de sua obra A gramática do tempo: para uma nova cultura política, na qual identifica quatro formas de racionalidade: razão impotente, razão arrogante, razão metonímica e razão proléptica.
Dentre as quatro razões, destaco a razão metonímica porque é particularmente relevante para esta análise, pois “reivindica como a única forma de racionalidade e, por conseguinte, não se aplica a descobrir outros tipos de racionalidade ou, se o faz, fá-lo apenas para os tornar matéria-prima” (Santos, 2010, p. 95). Essa visão dominante impede o reconhecimento de outros modos de conhecimento e de criação teatral.
A modernidade ocidental, marcada pela razão metonímica, reduz a complexidade dos fenômenos sociais e exclui epistemologias não hegemônicas. Essa exclusão gera epistemicídios, isto é, a morte de formas de conhecimento que não se encaixam na racionalidade ocidental dominante. Como destaca Santos (2010), a razão metonímica “não é capaz de aceitar que a compreensão de mundo é muito mais do que a compreensão ocidental do mundo” (p. 98).
Para enfrentar essa exclusão, Santos propõe uma razão cosmopolítica baseada na sociologia das ausências e na sociologia das emergências. A sociologia das ausências busca revelar experiências sociais invisibilizadas pelas dicotomias hegemônicas, enquanto a sociologia das emergências expande o domínio das possibilidades sociais. Como exemplo, podemos citar o comentário do artista Jorge Bandeira no pós-fácio do livro *Outras Dramaturgias* (Sales, 2015), que afirma:
“Outras dramaturgias que são fragmentos, fractais, ideias que não se aguentam mais na mesmice da linguagem cartesiana do teatro […]”.
Esse posicionamento evidencia a tentativa de escapar das estruturas tradicionais do dramaturgia ocidental, mas contra resposta à razão metonímica precisar ser pensada com certa atenção, pois pode-se cair numa dicotomia foucaultiana da lógica do “mesmo e outro”, ou seja, continua se definindo em oposição ao cânone. Acredito que a resposta contra a estrutura hegemônica que atravessa a criação da dramaturgia contemporânea não seja apenas produzir uma resposta à razão metonímica, mas, sim, produzir uma poética – escrita – a partir da língua menor.
Quais são os limites impostos pela língua portuguesa? Qual o impacto das línguas Tukano, Tikuna e Yanomamis na escrita? Qual o impacto do Nheengatu e das línguas como iorubá, hausa, árabe e fulfulde (ou Fula) no Brasil? Quais expressões poéticas poderiam ser produzidas nessas intersecções? Obviamente, o limite está evidente, por motivos linguísticos e extralinguísticos, mas produzir uma dramaturgia nesse limite é a chave da questão.
É a resposta poĺitica contra o poétício. Mas sabemos que no interior dessa luta mora uma contradição que demonstra a dificuldade de romper completamente com a lógica metonímica, que fragmenta e exclui formas de conhecimento fora do modelo dominante.
A pergunta central que emerge é: como escapar dessas dicotomias hegemônicas? A resposta pode estar na sociologia das ausências, que propõe transformar ausências em presenças, ampliando o espaço da experiência. Santos (2010) questiona:
“O que é que existe no sul que escapa à dicotomia norte-sul? O que é que existe na medicina tradicional que escapa à dicotomia moderna da medicina tradicional? O que é que existe na mulher que é independente da sua relação com o homem? É possível ver o que é subalterno sem olhar a relação de subalternidade?” (Santos, 2010, p. 102).
Ao deslocar a questão para a dramaturgia, podemos perguntar: o que existe na dramaturgia dos países periféricos e da América Latina que escapa à dramaturgia ocidental moderna? O que existe na dramaturgia do Norte e Nordeste que é independente da dramaturgia do Sul e Sudeste? O que é “emudecido” na dramaturgia Brasilceira por editoras, catálogos, jornais físicos e eletrônicos, críticos, listas de revistas especializadas e etc?
A lógica metonímica nos arrasta para essas dicotomias, mas Santos (2010) aposta em duas possibilidades frente à essas razões, entre elas, a sociologia das ausências e emergências, porque permitem novas formas de pensar a produção dramatúrgica, expandindo sua relação com o presente e o futuro.
Dessa forma, a dramaturgia contemporânea brasileira precisa ser pensada a partir de uma perspectiva que ultrapasse os limites da razão metonímica e valorize formas de criação que escapam às dicotomias tradicionais. Esse movimento não significa apenas negar o cânone, mas expandir as possibilidades de compreensão e experimentação, reconhecendo a pluralidade das linguagens dramatúrgicas e a riqueza de seus contextos históricos e culturais.
A crítica à razão metonímica nos leva a compreender a necessidade de um pensamento mais inclusivo, que valorize saberes marginalizados e reconheça o potencial das dramaturgias “periféricas”. Ao romper com a imposição da linearidade histórica e da lógica binária, a dramaturgia brasileira pode afirmar sua multiplicidade e criar novos espaços de existência dentro da cena contemporânea.
*Texto adaptado do 1 Capítulo da Tese “Reflexões sobre as escritas do Norte – os perigos de uma dramaturgia “pós – dramática” única de autoria de Francis Madson
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