quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Bioeconomia no Amazonas: o desafio da assimetria entre cidade e floresta

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Doutor em Biologia Aquática (1999), é pesquisador e Chefe de Gabinete do INPA. Atua em consultorias sobre Bioeconomia.

O Amazonas discute seu Plano Estadual de Bioeconomia em um contexto marcado por contrastes territoriais. Nosso estado possui a maior floresta tropical do planeta, mas sua ocupação é profundamente assimétrica: os núcleos urbanos ocupam áreas diminutas em relação ao território, ainda que concentrem a maior parte da população e do Produto Interno Bruto, enquanto a vasta zona rural abriga comunidades dispersas, que mantêm modos de vida estreitamente vinculados à floresta e aos rios.

Esse desequilíbrio é determinante para compreender a bioeconomia.

Não podemos reduzir o debate a investimentos em inovação ou às oportunidades de mercado. Precisamos reconhecer que a base da bioeconomia está nos territórios onde floresta e sociedade se entrelaçam. A ciência geográfica nos ajuda a compreender isso.

Viktor Sotchava, nos anos 1970, definiu o conceito de geossistema como a interação inseparável entre fatores naturais, sociais e econômicos. O conceito de geossistema não está obsoleto. Ele segue ativo em escolas específicas e informa agendas atuais por meio de três portas de entrada que se tornaram mais universais: ecologia de paisagens, serviços ecossistêmicos e sistemas socioecológicos.

Na Amazônia, cada várzea, igapó ou terra firme é resultado de práticas históricas de ocupação e de manejo. É aqui que entra a sociobiodiversidade: a combinação entre a diversidade biológica e os modos de vida de povos indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares e extrativistas.

A maior parte da produção de alimentos e de insumos da sociobiodiversidade nasce fora das cidades, em territórios camponeses e comunitários. São os quintais agroflorestais, os sítios familiares e os sistemas extrativistas que sustentam mercados locais e regionais, ao mesmo tempo em que regulam microclimas, preservam solos, mantêm florestas em pé e garantem rios fluindo. Essa economia, frequentemente invisível nas estatísticas oficiais, raramente aparece em relatórios oficiais, mas é ela que estrutura a vida cotidiana em grande parte do estado. Basta visitar as feiras de qualquer município para perceber que a economia pulsa independentemente de notas fiscais, recibos ou estatísticas oficiais.

O contraste urbano-rural amplia o desafio da territorialização.

Nas áreas urbanas, pequenas em extensão, mas densas em população, concentram-se instituições de governo, ciência e tecnologia, além do consumo. Já nas áreas rurais, dispersas e de difícil acesso, estão os territórios que efetivamente produzem a sociobiodiversidade.

Essa assimetria exige políticas diferenciadas: enquanto nas cidades o foco deve ser na agregação de valor, certificações e inovação tecnológica, nas comunidades rurais é indispensável garantir infraestrutura, logística e repartição justa de benefícios.

O Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas precisa adotar uma perspectiva territorializada. Mais do que atrair investimentos externos, é essencial construir redes de governança capazes de articular o urbano e o rural, reconhecendo a complementaridade entre quem produz e quem consome, entre a floresta e a cidade.

Adotar a territorialização implica compreender o papel estratégico dos municípios-polo situados nas diferentes calhas dos rios, que funcionam como centros regionais de articulação econômica e social. Esses polos devem espelhar, em escala local, parte da pujança econômica de Manaus, que concentra a maior fatia do PIB estadual e atua como verdadeiro polo econômico, garantindo maior equilíbrio territorial e fortalecendo a bioeconomia em todo o Amazonas.

A Secretaria de Estado da Fazenda do Amazonas (Sefaz-AM) enfrenta um desafio central: quantificar a bioeconomia territorializada, em especial os fluxos que ocorrem fora dos circuitos formais de mercado, como os sistemas agroflorestais familiares e cadeias produtivas tradicionais.

Para isso, é necessário desenvolver métricas fiscais e contábeis inovadoras (como indicadores específicos por produto e por território) que deem visibilidade macroeconômica a essas atividades e orientem políticas de estímulo mais justas e efetivas.

O estado do Pará já avança nessa direção, criando ferramentas como uma plataforma integrada de monitoramento da bioeconomia, que consolida dados sobre volume de recursos aplicados, número de beneficiados e iniciativas executadas por diversas secretarias. A experiência do Pará pode servir de referência útil para o Amazonas, indicando modelos de governança fiscal adaptados à realidade sociobiodiversa de nossas Regiões Geográficas Intermediárias (Manaus, Tefé, Coari, Parintins) e Regiões Geográficas Imediatas (Manaus, Itacoatiara, Parintins, Coari, Manacapuru, Tefé, Lábrea, Humaitá, Manicoré, Maués, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Eirunepé).

A ecologia da paisagem, na linha de Jean Paul Metzger, oferece bases para integrar conhecimento ecológico, planejamento territorial e escolhas econômicas orientadas por políticas públicas. A ecologia da paisagem mostra que cada produto da sociobiodiversidade carrega a marca de um território.

Não é o mesmo falar do açaí de várzea ou de terra firme, cultivado em sistemas manejados nos municípios produtores, da castanha-da-Amazônia coletada por cooperativas extrativistas no sul do estado, ou ainda dos óleos de andiroba e copaíba extraídos de forma comunitária no Médio Juruá. O mesmo vale para o pirarucu, manejado em lagos sob acordos de pesca no Médio Solimões, que não pode ser comparado a produtos obtidos em áreas sem governança, onde predominam a exploração predatória e a invisibilidade econômica das comunidades.

A bioeconomia só terá futuro no Amazonas se for territorializada, consciente da assimetria entre zonas urbanas e rurais. Ignorar essa realidade é condenar o plano a repetir modelos centralizados, que concentram benefícios nas cidades e deixam comunidades produtoras às margens. Reconhecê-la, ao contrário, abre caminho para um modelo justo, sustentável e enraizado no chão amazônico.

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