Alguns livros levam páginas para nos conquistar. Outros, fazem isso na primeira linha. Em alguns casos, é o estilo; em outros, a informação. Às vezes, é o estranhamento. Outras, a beleza. Há aberturas que nos colocam de imediato no centro da ação, e há aquelas que criam um espaço — narrativo e emocional — do qual já não conseguimos sair.
O fato é que a primeira frase carrega um peso desproporcional. Ela define o tom, apresenta o narrador, antecipa o mundo da história ou, ao menos, nos obriga a continuar lendo. Muitos autores sabiam disso — e escreveram suas aberturas como quem crava uma estaca no chão. Abaixo, uma seleção de vinte delas. Todas retiradas de romances que se tornaram clássicos, e todas com algo em comum: depois de lidas, é difícil esquecê-las.
- “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, dono de uma boa fortuna, deve estar precisando de uma esposa” – Jane Austen, Orgulho e Preconceito
- “Costumavam enforcar homens em Four Turnings antigamente” – Daphne Du Maurier, Minha Prima Raquel
- “Era um dia claro e frio de Abril, e os relógios marcavam treze horas” – George Orwell, 1984
- “Mamãe morreu hoje” – Albert Camus, O Estrangeiro
- “Uma hora antes do pôr do sol, no anoitecer de um dia no começo de Outubro, 1815, um homem viajando a pé entrou na pequena cidade de D_____” – Victor Hugo, Os Miseráveis
- “É bom que você não conte para ninguém além de Deus” – Alice Walker, A Cor Púrpura
- “Quando Gregor Samsa acordou certa manhã de um sonho intranquilo, ele se encontrou transformado em sua cama em um gigante inseto” – Franz Kafka, A Metamorfose
- “Era um prazer queimar.” – Rad Bradbury, Fahrenheit 451
- “Quando Mary Lennox foi enviada para Misselthwaite Manor para viver com seu tio, todos diziam que ela era a criança mais desagradável já vista” – Frances Hodgson Burnett, O Jardim Secreto
- “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a era da sabedoria, era a era da estupidez, era a época da fé, era a época da incredulidade, era a estação da Luz, era a estação da Escuridão, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, todos estávamos indo diretamente para o Paraíso, todos estávamos indo diretamente para o caminho oposto – em resumo, o período era tão parecido com o momento atual, que algumas de suas mais barulhentas autoridades insistiam que ele fosse recebido, para o bem ou para o mal, no grau superlativo de comparação apenas” – Charles Dickens, Um Conto de Duas Cidades
- “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar meu nascimento ou minha morte” – Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
- “Noite passada eu sonhei que ia a Manderley de novo” – Daphne Du Maurier, Rebecca
- “No dia 24 de Fevereiro de 1815, o vigia de Notre-Dame de la Garde sinalizou que um navio de três mastros, o Pharaon, chegava de Esmirna, Trieste e Nápoles” – Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo
- “Em um buraco no chão vivia um hobbit” – J. R. R. Tolkien, O Hobbit
- “Se terei me revelado ou não o herói de minha própria vida, ou se tal posição será ocupada por outra pessoa, caberá a estas páginas demonstrar” – Charles Dickens, David Copperfield
- “Eu sou um homem invisível” – Ralph Ellison, O Homem Invisível
- “Scarlett O’Hara não era linda, mas os homens quase nunca percebiam isso quando estavam envolvidos em seus encantos, como os gêmeos Tarleton estavam” – Margaret Mitchell, E O Vento Levou…
- “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne” – Vladimir Nabokov, Lolita
- “Me chame de Ishmael” – Herman Melville, Moby Dick
- “Alguém certamente havia caluniado Josef K” – Franz Kafka, O Processo