segunda-feira, 2 de novembro de 2026

As margens do rio Negro: Identidade artística e a figura de mulheres em vulnerabilidade

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Atriz, performer, arte-educadora e palhaça. Pós-graduanda em arte, cultura e educação, pesquisando a noite manauara,é formada em Teatro pela UEA.

Nasci em um lugar banhado pelo maior rio de água doce do mundo e ao mesmo tempo em um beco onde vivenciava diariamente a violência e a desigualdade social. Quando percebi minha condição social e entendi o que significava ser gente, não sei exatamente quando isso aconteceu, mas sempre soube que não tinha dinheiro e que o dinheiro era algo essencial. Desde então, minha única preocupação passou a ser que, ao crescer, eu precisaria, de alguma forma, ajudar minha família.

Minha mãe teve que sair da escola aos doze anos para trabalhar como empregada doméstica, minha avó não tinha terminado o ensino fundamental, mas todos os dias a minha mãe falava ‘Estuda minha filha, isso sim é futuro’. confesso que odiava ir à escola, não tinha motivação alguma, mas seguia. Aos doze anos eu tenho um encontro avassalador com o teatro, um encontro que mudou a minha vida inteira.

Com o passar dos anos e depois de muita luta consegui terminar o ensino médio e entrar em uma universidade pública. Comecei a viver completamente de teatro e tudo que eu fazia remetia aos meus, ao lugar de onde eu vim, quem eu sou. Comecei a olhar para dentro da minha comunidade, para as mulheres ao meu redor, para a força delas e o instinto de sobrevivência que elas carregam nos olhos e no corpo.

 Ver meu corpo como algo vendível foi o início da minha identificação com a prostituição e foi um primeiro passo para mim enquanto artista-pesquisadora entender melhor esse universo explorador do sexo. Passei cinco anos dentro da igreja e deixei de frequentar porque fiz sexo com um jovem que iria ser pastor. A partir dali minha vida sexual começou a ser compreendida de uma forma diferente, o pudor já não se fazia mais presente. Eu não tinha medo de falar abertamente de sexo ou de viver minha vida sexual, até que um dia eu cruzei com meu maior medo. Fui violentada sexualmente e não tive por muito tempo consciência alguma que aquilo tinha acontecido, o tempo passou e quando entrei na universidade entendi que o nu era um figurino e falava ainda mais sobre sexo e de como eu via meu corpo de forma vendível. Provocada por minha amiga de faculdade, que tempos depois virou minha diretora em um processo teatral que mais tarde seria meu trabalho de conclusão de curso, comecei a entender o porquê eu lidava dessa forma com a sexualidade e a partir daquele momento muitas coisas mudaram dentro de mim enquanto artista, foi nesse encontro das águas que o banzeiro da vida me levou ao centro da cidade de Manaus, as margens do rio negro.

Me torno pesquisadora da noite buscando o que me aproxima das mulheres prostituídas e em situação de vulnerabilidade. Compreendo que eu tenho muito mais em comum do que imaginava pois quando a dureza da vida é identificada é necessário reagir para sobreviver. Um rio de oportunidades é o que todas buscamos quando nascemos em um ambiente de extrema pobreza.

Quando me torno pesquisadora começo a compreender, ouvir, sentir, observar a vida e as histórias dessas diversas mulheres que estão nas ruas do centro de Manaus 24 horas por dia debaixo de chuva ou sol criando esse rio de oportunidades em busca da sobrevivência. Mas nesse movimento do banzeiro, ainda me questiono: quem são essas mulheres? Ao priori, são mães, filhas, irmãs, avós. Mulheres que são invisibilizadas e estigmatizadas pelas suas lutas de sobrevivência.

As investigações feitas e experienciadas no decorrer da vida acadêmica me levaram ao encontro destes corpos e dessas histórias que me instigam a interpretar estas mulheres em situação de vulnerabilidade e prostituição. As idas a campo me fizeram emergir e entender o local que essas mulheres habitam na sociedade desde os tempos antigos até os tempos atuais. A partir dessas características e estando nesses locais, entender onde tudo começa me fez ter algo mais palpável para a construção das figuras cênicas que se conectam de alguma forma, não apenas por ser a mesma intérprete, mas sim por haver a identificação dessas histórias que se atravessas.

Mergulhar na noite de prostituição de Manaus me fez entender que essa é uma vida solitária e isso fica evidente na corporeidade que essas mulheres apresentam. Percebendo-as, veio aí mais uma identificação entre nós. Eu, mulher nortista, periférica e filha de mãe solo entendia desde o ventre de minha mãe o que era o abandono masculino e a busca pelo acolhimento paterno me fez me submeter por vários momentos de abusos e violências.

A pesquisa busca entender o início desse apagamento e estigma em relação às mulheres prostituídas no centro de Manaus. Assim, considerando a análise realizada pelo presente estudo que associa conceitos da teoria de estigma a características da prostituição, percebo que a mulher prostituta é profundamente estigmatizada. Ela carrega atributos que são rejeitados pelos indivíduos considerados ‘’normais’’.  

 Registros históricos mostram que essas mulheres sempre estiveram presentes nas praças, ruas e nos jornais da cidade, quem pode dizer que nunca conheceu um dia sequer a presença delas nas ruas. Mesmo diante das grandes cheias e secas, elas continuam ali, nos mesmos lugares, em busca desse “rio” de oportunidades. Assim como elas, também estou em busca do meu rio de oportunidade, procurando, de alguma forma, gritar para o mundo o nome e a história dessas mulheres por meio da minha arte e das personagens que interpreto. Acredito profundamente no poder da arte e na capacidade dela de transformar histórias. Por isso este movimento no olhar do pesquisar, um movimento de rio.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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