quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Agricultura sustentável na Amazônia: mito ou realidade?

COMPARTILHE
Engenheiro agrônomo, professor titular da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Existe um modelo de agricultura adequado à realidade socioambiental amazônica e resiliente aos riscos climáticos?

Pode-se de forma genérica admitir que, na Amazô­nia, a atividade agrícola é plasmada por diferentes siste­mas de produção agroflorestal, dispersos em escalas variáveis nos ecossistemas da região.

Enquanto o sistema agrícola de base familiar tende a focar na produção de alimentos para consumo interno, o de larga escala é voltado essencialmente para o mercado exportador.

Em qualquer desses modelos, obser­va-se que nem sempre as práti­cas agríco­las se subor­dinam a um certo determi­nismo ambien­tal amazônico. Isto pode ser percebido tanto em relação à agricul­tura familiar, excetuando a de base agroecológica, como de grande escala, com uso intensivo de agroquímicos.

Não existe um conceito clássico de agricultura sustentável. Porém, algumas características lhes são comuns: manutenção à longo prazo da produtividade agrícola, impacto ambiental mínimo, satisfação das necessidades humanas quanto à segurança alimentar, educação, moradia e saúde. 

Apesar da exuberância da floresta amazônica, os solos são pobres em nutrientes. Se se quer atingir padrões de sustentabilidade agrícola nestas condições, deve-se adotar práticas de manejo agroecológico que garanta uma produtividade agrícola em padrões aceitáveis, com o mínimo de dependência de insumos externos. Isso impõe um grande desafio agronômico.

Critérios como: produtividade agrícola relativamente estável a longo prazo, que garanta a reprodução social e econômica do agricultor, são importantes indicadores de sustentabilidade. Agrega-se a isto, a adoção de práticas agronômicas que garantam a manutenção da capacidade de suporte dos agroecossistemas.

Na Amazônia não se pratica uma agricultura genuinamente sustentável. Predomina os tradicionais roçados e a secular prática da agricultura itinerante, tendo na mão-de-obra familiar a principal componente de reprodução do trabalho.  

São tímidos os avanços na transição para uma agricultura sustentável, que viabilize a reprodução social e econômica, a despeito de algumas experiências isoladas bem sucedidas, como os sistemas agroflorestais e agroecológicos.

O paradoxo ambiental amazônico, materializado na exuberância dos recursos naturais e na diversidade biológica, convivendo no tempo e no espaço com solos nutricionalmente pobres, tendo como pano de fundo uma sociedade em processo de empobrecimento e os impactos das alterações climáticas, é um desafio a ser enfrentado.

A consolidação de práticas referenciadas numa agricultura em bases sustentáveis na Amazônia, não será condição única para o rompimento do atual círculo de miséria no campo. Elevar o nível de organização social e política dos trabalhadores rurais, que resulte na construção de um modelo de política agrícola e agrária em acordo com suas expectativas e necessidades, talvez seja um dos caminhos à trilhar.

Deixe um comentário

COMPARTILHE