domingo, 27 de setembro de 2026

"A poesia está na Lástima": a vida e a guerra de Wilfred Owen, o poeta que se recusou a mentir

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

“Não estou preocupado com Poesia. Meu tema é a guerra, e a Lástima da guerra. A Poesia está na Lástima. Entretanto, essas elegías não serão para essa geração de qualquer forma consoladoras. Talvez sejam para as próximas. Tudo o que um poeta pode fazer, hoje, é avisar. É por isso que o verdadeiro poeta deve ser verdadeiro…” – Wilfred Owen.

A Primeira Guerra Mundial produziu, ao longo de seus quatro anos e nas décadas que se seguiram, uma quantidade imensa de narrativas sobre si mesma – mas a vasta maioria delas, enquanto o conflito ainda estava em curso, foi construída por quem não o estava vivendo. A guerra como contada por jornais, governos, igrejas e instituições de ensino era uma guerra de heróis lutando pela liberdade e pela pátria, de rapazes corajosos cumprindo seu dever com honra e serenidade, de sacrifícios nobres que justificavam a continuidade do esforço militar e consolavam as famílias dos mortos através de sua justiça, necessidade e nobreza. Essa versão tinha pouco a ver com o que de fato acontecia nas trincheiras da França e da Bélgica, mas era extremamente funcional: mantinha o alistamento em alta, o moral doméstico minimamente estável e a população civil convencida de que a carnificina tinha um propósito.

A maioria dos poetas de guerra – e foram muitos; a Grande Guerra ficou conhecida em círculos literários como a “guerra dos poetas” – colaborava com essa narrativa, produzindo versos patrióticos e memoriais que reforçavam exatamente o imaginário que os governos e a imprensa precisavam manter. Wilfred Owen, um jovem tenente inglês que escreveu de dentro das trincheiras e cuja experiência de guerra incluiu soterramentos, ataques de gás venenoso, bombardeios incessantes e um diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, fez o oposto — e pagou por isso com o anonimato em vida e uma morte aos vinte e cinco anos, atingido por uma metralhadora alemã exatos sete dias antes do armistício.

Owen é hoje considerado o maior poeta de guerra da língua inglesa, e possivelmente o maior poeta de guerra da contemporaneidade. Dylan Thomas o descreveu como “um poeta para todos os tempos, todos os lugares e todas as guerras”; seu nome está entre os homenageados na Esquina dos Poetas da Abadia de Westminster, ao lado de Shakespeare, Austen e Dickens; sua vida e obra foram tema de filmes, peças, biografias e memoriais por todo o mundo anglófono. Nada disso aconteceu enquanto ele estava vivo – Owen morreu praticamente desconhecido, com apenas cinco poemas publicados, todos anônimos, e só atingiu celebridade quase duas décadas depois, quando o legado da guerra começava a ser reavaliado e a realidade mais brutal do conflito podia ser confrontada à certa distância. Sua poesia, composta quase inteiramente entre 1917 e 1918, chega agora ao leitor brasileiro pela primeira vez, e o que ela tem a dizer sobre guerra, propaganda e o custo humano de narrativas heroicas permanece tão relevante quanto era quando foi escrita – o que, considerando o estado do mundo, talvez diga mais sobre nós do que sobre Owen.

Owen nasceu em 1893 em Oswestry, na fronteira galesa, filho mais velho de quatro irmãos, e cresceu numa família de classe média que já havia conhecido dias melhores — a fortuna do lado materno tinha se dissipado, e o pai trabalhava numa estação ferroviária, emprego que detestava. Criado como anglicano devoto, Owen desenvolveu desde cedo um interesse intenso por poesia, influenciado pela Bíblia e sobretudo pelos românticos ingleses; Keats era seu poeta favorito, e permaneceria como referência ao longo de toda a sua vida. Tentou

uma bolsa para a Universidade de Londres e não conseguiu; trabalhou como assistente de um vigário em Oxfordshire, experiência que o desiludiu profundamente com a Igreja Anglicana, cuja resposta ao sofrimento dos pobres ele julgava insuficiente; passou um ano e meio na França dando aulas de inglês, onde conheceu o poeta pacifista Laurent Tailhade, que o incentivou a levar a sério sua ambição literária.

Até 1915, quando se alistou no exército britânico aos vinte e dois anos, Owen era um rapaz tímido, um tanto pretensioso, com uma devoção algo obsessiva pelos poetas que admirava e uma produção própria ainda incipiente – poemas sobre temas convencionais, a maioria não muito bons, mas que já mostravam um ouvido incomum para a sonoridade e o ritmo do verso. A guerra mudou tudo isso. Owen chegou à França como combatente no final de 1916, e em questão de semanas qualquer resquício de romantismo se evaporou. Em janeiro de 1917, ele marchou cinco quilômetros por uma estrada bombardeada e depois mais cinco através de trincheiras alagadas onde os homens ficavam presos na lama e eram forçados a abandonar seus sapatos, continuando descalços com os pés sangrando e congelando, sob fogo contínuo de metralhadoras e bombardeio de explosivos pesados, até serem atacados com gás venenoso — episódio que ele imortalizaria em Dulce et Decorum Est, provavelmente o poema de guerra contemporâneo mais famoso já escrito.

Nos meses seguintes, um de seus homens ficou cego após ser atirado de uma escada por uma explosão; Owen caiu numa cratera de cinco metros de profundidade no escuro; foi hospitalizado por uma concussão; passou quatro dias preso num campo aberto coberto de neve, sem dormir, em roupas encharcadas e congeladas; foi pego numa explosão de morteiro enquanto dormia e passou dias imóvel numa cratera com o cadáver de um amigo apodrecendo a menos de dois metros de distância. Diagnosticado com shell shock, foi enviado para Craiglockhart, um hospital psiquiátrico na Escócia. Ali aconteceu algo extraordinário: em pouco mais de um ano, Owen produziu praticamente toda a obra pela qual é lembrado. A escrita começou como terapia – seu psiquiatra, o Dr. Brock, o incentivava a escrever, dar palestras e editar o jornal do hospital -, mas se transformou rapidamente numa missão que Owen entendia como política e moral, alimentada por uma energia criativa que beirava o sobre-humano e por uma raiva que não diminuiu até o dia de sua morte. Foi também em Craiglockhart que ele conheceu Siegfried Sassoon, poeta de guerra já célebre e ativista do pacifismo, cuja amizade e incentivo foram decisivos para que Owen passasse a se enxergar, de fato, como poeta, e cujo papel na publicação póstuma de seus poemas garantiria que o mundo viesse a conhecê-los.

O que movia Owen era, acima de qualquer outra coisa, a revolta contra a mentira. Existia no início do século XX, e com particular intensidade durante a Grande Guerra, uma verdadeira indústria cultural, política, institucional e midiática dedicada a sustentar a ideia de que a guerra era nobre, que morrer pelo seu país era um privilégio, e que os soldados nas trincheiras estavam lá cumprindo um dever sagrado com serenidade e coragem. Essa ideia tinha um lema antigo, emprestado de Horácio e repetido à exaustão em discursos parlamentares, sermões, manchetes e salas de aula: Dulce et decorum est pro patria mori – “É doce e apropriado morrer pela pátria”. Owen chamou essa noção de “a Velha Mentira”, e dedicou praticamente tudo o que escreveu a atacá-la. Seus poemas são o avesso exato da poesia patriótica que dominava a época: onde outros apresentavam soldados marchando com bravura e morrendo sorrindo, Owen mostrava rapazes sufocando em gás venenoso com os olhos revirados, corpos atirados em carroças como carcaças, homens

enlouquecidos cujos olhos vidrados enxergavam o amanhecer como uma ferida aberta, jovens que se matavam com os próprios rifles porque a pressão das expectativas de heroísmo colocadas sobre eles por famílias, governos e sociedades inteiras que jamais pisaram num campo de batalha se tornava insuportável. Owen detestava especificamente a imagem do soldado que morre “bem” – o soldado estoico, sorridente – e a ironizava repetidamente; num de seus poemas, a mãe de um soldado chamado Tim recebe uma carta informando que seu filho “morreu sorrindo”, o que Owen observa não ser de todo mentira, já que Tim estava com a boca aberta ao redor do cano de seu próprio rifle.

A brutalidade é deliberada e a precisão é obsessiva: Owen não queria apenas chocar; sua intenção era que a imagem fosse tão exata, tão impossível de desviar os olhos, que qualquer leitor que tivesse repetido a “Velha Mentira” se sentisse envergonhado de tê-lo feito. Ele escrevia contra seus leitores – e fazia questão de que soubessem disso. Num de seus poemas mais conhecidos, Apologia Pro Poemate Meo, Owen declara nos versos finais que ninguém que não tenha experimentado o inferno das trincheiras merece sequer um sorriso de quem esteve lá, e que ele não escreverá nada que permita a qualquer pessoa pensar o contrário. A intenção era dupla: mostrar que a retórica do sacrifício e do heroísmo não era apenas falsa, mas funcional – servia para que a carnificina continuasse sem oposição e para que os sobreviventes, mutilados, traumatizados, viciados e abandonados, pudessem ser descartados em silêncio quando deixavam de ser úteis à narrativa – e fazer com que seus leitores, as pessoas que em suas casas colocavam flores nos uniformes dos filhos e repetiam que eles precisavam “dar orgulho para a família”, entendessem que eram cúmplices naquela morte. Owen não queria confortar ninguém; queria que todos soubessem o que estava acontecendo, e que carregassem o peso dessa informação.

Owen morreu aos vinte e cinco anos. Escreveu poesia séria por pouco mais de um ano, e o que produziu nesse intervalo é suficiente para que, mais de um século depois, seu nome permaneça incontornável em qualquer discussão sobre literatura de guerra, sobre os limites da linguagem diante da violência, e sobre a responsabilidade política de quem escreve. A força da sua obra não está apenas na qualidade técnica dos poemas – embora essa qualidade seja extraordinária, e tenha sido reconhecida como tal por nomes que vão de Sassoon a T. S. Eliot, Dylan Thomas a Cecil Day-Lewis -, mas no fato de que Owen fez da escrita um instrumento de recusa: recusa da mentira, recusa do consolo, recusa de permitir que a experiência dos homens que ele viu sofrer e morrer fosse substituída por uma versão palatável e conveniente. Essa recusa era radical na época em que foi feita, quando a esmagadora maioria das vozes públicas – poetas incluídos – colaborava com a manutenção de um consenso patriótico que custava milhares de vidas por semana; e continua sendo necessária em qualquer contexto em que governos precisem convencer populações de que a guerra é justa, de que os mortos morreram por algo que vale a pena, e de que os sobreviventes, com seus traumas e suas próteses e seus pesadelos, devem ser discretamente esquecidos quando deixam de servir à narrativa.

A chegada de Owen à novos públicos – ao leitor brasileiro – importa exatamente por isso: não apenas como curiosidade literária ou resgate histórico, embora esse seja também o caso, mas acima de tudo pois as engrenagens que ele identificou e acusou em 1917 não pararam de funcionar. Jovens continuam sendo aliciados com as mesmas abstrações de honra e glória, “cidadãos de bem” continuam a gritar por patriotismo e sugerir que a solução dos problemas de hoje é carne e sangue de alguns descartáveis, e o mundo mais uma vez

se explode, invade e ataca, caminhando na corda-bamba à beira do abismo precária e perigosamente. Nesse cenário, ler quem escreveu de dentro da guerra, com a atenção e a seriedade que esse gesto exige, continua sendo uma das poucas formas honestas de falar sobre conflito armado sem reproduzir as retóricas que o alimentam.

A poesia de Owen, que não se preocupava com Poesia, vinha da lástima da guerra – da lástima que a guerra destila – e não foi, para sua geração, de maneira alguma consolatória. Terá sido para alguma desde então? Será para a nossa? Pouco provável – “consolo”, aqui, implicaria algum tipo de evolução que faz da comparação da realidade vivida com os horrores de outrora um tipo de alívio – o tipo de alívio que a frase “nunca mais” ofereceria, se tivéssemos certeza de que está sendo dita à sério. Não é o caso; a Guerra Total que tanto chocou o mundo entre 1914-18 é hoje a ordem de todos os dias. Geração após geração, seguimos dançando na beira do precipício, escalpelando nossas crianças, devorando nossos jovens. Owen, voz da sua geração perdida, fez o que podia: avisar. Segue avisando. Afinal, o verdadeiro poeta deve ser verdadeiro.

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