quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A pesquisa, os pré-candidatos e o Instagram

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Há quatro semanas venho acompanhando a atuação dos sete pré-candidatos à prefeitura de Manaus no Instagram. Vejo o que postam, quais os temas abordados e o tipo de narrativa que desejam contar sobre si e sua candidatura. Nesse meio tempo, o Real Time 1 contratou e divulgou uma pesquisa, executada pela Quaest.

Meu desafio, caso isso seja viável, foi tentar unir as duas análises – a rede social e a intenção de votos estimulada – a fim de ver quais as aproximações possíveis e como uma abordagem pode “iluminar” a outra.

Começo com David, que liderou a pesquisa, com 30%. Se olharmos seu desempenho no Instagram, vemos que ele não entra em brigas, não discute com adversários nem provoca impasses. Inaugura obras, a maioria de pequeno porte, e visita outras. Chamo de estilo “minimalista”, pois passa o dia vendo pequenas reformas e construções, evitando grandes debates sobre a cidade ou sobre ideologias. A liderança mostra que essa atuação vem dando algum resultado, embora haja uma certa rejeição e ainda haja espaço para outros crescerem.

Outra situação é Amom, o segundo colocado, com 27%. Ele tem baixa rejeição e ainda pode ser mais conhecido pelo povo. Isso indica bom potencial de crescimento. Se pensarmos no seu Instagram, isso pode ter alguma relação com o fato de não colocar coisas polêmicas, postar relativamente pouco, mostrar mais seu cotidiano na Câmara e evitar se posicionar em temas difíceis. Recentemente, vem provocando o prefeito David Almeida, mas isso pode ter a ver com o fato dos dois estarem polarizados. Uma briga direta com David lhe interessa, pois os dois, na possível estratégia de Amom, se distanciariam mais dos outros candidatos.

O capitão Alberto, terceiro, com 15%, busca, nessa rede social, se identificar ao máximo com Bolsonaro. Confia nessa estratégia e a persegue diariamente. Agora, vem tentando postar algo de sua atuação na Câmara, mostrando que produz projetos e se posiciona próximo ao que seria a ideologia da direita. É identificado a Bolsonaro, pela pesquisa e ainda pode ser mais conhecido pelo povo. A dúvida é saber se apenas essa identificação, que é muito propagada, seria o suficiente para o levar ao segundo turno.

Roberto Cidade, o quarto, com 8%, começou mostrando muito seu cotidiano na Assembleia Legislativa (ALEAM). Usava seu cargo de presidente para criar eventos e mostrar produtividade legislativa. Porém, vem mudando e, cada vez mais, anda nas ruas, frequenta reuniões em bairros e circula em táxi e motos pelas ruas. Provoca brigas com David e começou a reclamar da prefeitura. Contudo, ainda não é muito conhecido e, apesar de ser o candidato do governador, isso não lhe assegurou votos. Está apostando que essa mudança de atuação (indo mais às ruas) poderá alterar isso. É algo que só as próximas pesquisas poderá dizer, mas já é visível nas redes sociais, que houve uma guinada no rumo.

Marcelo Ramos está em quarto, empatado com 8%, também. Porém, vimos na pesquisa que possui rejeição elevada, mesmo entre quem o conhece. Talvez isso tenha a ver com seu estilo “brigão” nas redes sociais (e na própria carreira). Polemiza e chama para o duelo David, Amom, o governador, os bolsonaristas e quem mais aparecer em sua frente. Apesar de sua longa trajetória na política local, possui números pouco eloquentes. Mostra Lula diariamente, exaltando seus feitos. Todavia, apesar de já ter um número razoável de eleitores que já o vê como o nome de Lula; David e Amom, com outras performances, também estariam associados ao presidente. Vem tentando, nas últimas semanas, mostrar propostas, alterando um pouco seu estilo. A pesquisa não captou mudanças, talvez as próximas mostrem se isso mexeu na percepção do eleitor sobre ele, ou não.

Maria do Carmo Seffair e Wilker Barreto são casos que podem ser unidos. Ficaram com 2% e 1%, respectivamente. Maria do Carmo é muito pouco reconhecida. Suas postagens não ajudam, pois não vai às ruas, fala pouco e de forma genérica sobre Manaus e não se posiciona nos temas duros. Mostra muito da Fametro (ela é a reitora e proprietária) e suas entrevistas à mídia local. Não mostrou, ainda, jeito de candidata ao Executivo, nas postagens. Muito focada na universidade, Igreja Católica e grupos de mulheres. Às vezes, parece estar fazendo pré-campanha para vereadora, em vez de prefeita. E os números da Quaest mostram isso. Por outro lado, Wilker é um deputado estadual de oposição ao governo. E suas postagens diariamente mostram isso. Critica, todo dia, SSP, SEDUC e SES, que são secretarias estaduais e não municipais. De vez em quando, fala do lixo em Manaus e diz que irá dar um choque de ordem nas finanças, cortando “muita coisa”, mas não fala o que e nem como. Parece, pelo Instagram, que faz campanha para deputado estadual e não para prefeito. A pesquisa mostrou que o eleitor ainda não acolheu sua candidatura e não o vê como um nome viável.

Enfim, são reflexões ousadas e que tentam juntar o mundo virtual das redes com o real das ruas e com aquele das pesquisas quantitativas, baseadas em estatística. Talvez sirvam para ajudar os candidatos a refletir, assim como ao eleitor e aos “especialistas” em eleições. Que cargos realmente os candidatos almejam, de que forma estão trabalhando e que resultados estão obtendo? O universo do Instagram é limitado, mas já é um começo. Pode indicar muita coisa, inclusive pelo que não mostra….

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