A tese de que o presidente Lula perdeu seu carisma popular e sua habilidade instintiva incorre no equívoco de supervalorizar a persona em detrimento da capacidade de gestão e dos resultados concretos de governo. A política de Estado, com suas complexidades fiscais e legislativas, não pode ser reduzida a uma mera performance de animal político.
Texto de opinião publicado neste portal, no dia 16/10/2025, enxerga um presidente contraditório e hesitante, mas falha em contextualizar a realidade complexa de um governo de coalizão em um cenário de Congresso altamente fragmentado.
A suposta dependência de emendas e o diálogo com o parlamento não são sinais de fragilidade, mas sim o exercício do devido processo democrático e do intrincado sistema desenhado pela Constituição de 1988.
A dificuldade na tramitação de medidas, como a MP 1303, demonstra, de fato, a resistência do Congresso, mas também a resiliência da negociação política, inerente a qualquer democracia madura.
A crítica ao discurso de oposição e a antecipação de 2026 devem ser vistas sob a ótica da governabilidade.
Um presidente que busca ampliar a arrecadação para sustentar a narrativa de que ‘cuida dos pobres está, na verdade, implementando políticas fiscais para garantir a sustentabilidade dos programas sociais prometidos na campanha, cujo retorno se traduz na redução da desigualdade, aumento da renda, saída do mapa da fome etc.
A ênfase na arrecadação visa o necessário equilíbrio das contas públicas, com justiça tributária, contexto no qual se insere a criação do Imposto sobre Grandes Fortunas sobre a qual o Congresso insiste em omitir-se.
É fundamental deslocar a argumentação do “sapato de grife”, supostamente usados pelo presidente, para os indicadores macroeconômicos e sociais. É preciso analisar a capacidade da administração em aderir aos princípios da administração pública, garantindo a transparência e a eficiência nos investimentos.
A verdadeira força de um líder não reside em um carisma intacto, mas na sua habilidade de gerir as demandas do Estado com responsabilidade fiscal e legalidade, mesmo em meio a uma extrema direita que, embora burra, é feroz.
O projeto nacional consistente, mencionado como ausente, se manifesta em uma economia acelerada, na retomada do investimento em áreas essenciais, nos mais baixos índices de desemprego da série histórica e no reposicionamento internacional do país que, a despeito das alegadas ambiguidades diplomáticas, tem reconquistado espaço relevante.
A centralidade da discussão deve residir não no fim de um mito, com perdão da expressão, mas na performance do Estado. O sucesso da gestão será medido pela curva ascendente dos índices de desenvolvimento e não pela nostalgia de um carisma de outrora.