quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A COP30 e a encruzilhada climática brasileira: entre a urgência e a oportunidade

COMPARTILHE
Professor Titular da UFAM e Diretor do INPA. Graduado em Agronomia pela UFAM, mestrado em Ecologia pelo INPA e doutorado em Ecologia pela Pennsilvania State University.

A crise climática não é mais uma previsão científica. Ela está em curso — e seus efeitos já moldam o cotidiano dos brasileiros, especialmente na Amazônia. A COP30, que será sediada em Belém do Pará em 2025, representa mais do que um grande evento internacional: é um teste de coerência, liderança e responsabilidade para o Brasil.

Não faltam sinais de alerta. Nos últimos anos, a Amazônia vivenciou eventos extremos em sequência: secas históricas, enchentes recordes, perda de biodiversidade e impactos severos para populações ribeirinhas. Em 2023 e 2024, a bacia amazônica enfrentou as maiores estiagens já registradas, com níveis de rios abaixo do mínimo histórico e colapso de ecossistemas aquáticos. A ciência é clara: esses eventos são intensificados pelas mudanças climáticas causadas por atividades humanas, especialmente o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis.

Diante desse cenário, o Brasil vem atualizando sua política climática. A nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), apresentada em novembro de 2024, propõe reduzir entre 59% e 67% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 (em relação aos níveis de 2005), alcançar a neutralidade de carbono até 2050 e zerar o desmatamento ilegal até 2030. São metas ambiciosas — e, mais importante, necessárias.

Para viabilizar essas metas, o governo lançou o Plano Clima, que é hoje a principal estratégia nacional frente à crise climática. Ele se estrutura em quatro eixos: mitigação, adaptação, estratégias transversais e planos setoriais. Ao todo, sete setores (como energia, transporte e agricultura) receberão planos de mitigação, e outros dezesseis (como saúde, cidades e recursos hídricos) terão planos de adaptação. A transversalidade garante a inclusão de temas como financiamento climático, governança e transição justa.

Outras políticas complementam esse arcabouço: o novo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (mercado de carbono), o Programa Nacional de Crescimento Verde, o Plano ABC+ para a agropecuária de baixo carbono, a retomada do PPCDAm para combate ao desmatamento e a reativação do Fundo Amazônia, com mais de R$ 3,9 bilhões em doações internacionais.

Em 2024, o país também aprovou uma série de leis que reforçam a transição energética e ambiental: incentivo ao hidrogênio de baixa emissão, estímulo aos biocombustíveis, política de qualidade do ar, educação ambiental, e manejo do fogo. São avanços importantes, ainda que desafiados por pressões políticas, interesses econômicos e a urgência dos prazos.

O Brasil tem uma oportunidade única de mostrar ao mundo que é possível conciliar proteção ambiental, justiça climática e desenvolvimento. Mas isso exige algo que vai além de planos e discursos: compromisso com a implementação, escuta ativa das populações mais afetadas e integração entre os níveis de governo e sociedade civil.

Belém 2025 pode ser lembrada como a COP da floresta em pé, da transição energética justa, da diplomacia climática com raízes na realidade amazônica. Ou pode ser mais uma promessa perdida entre o discurso e a ação. A escolha está em nossas mãos — e o tempo, literalmente, está contra nós.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

COMPARTILHE