quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Bioeconomia no Amazonas e o futuro sustentável em construção

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Doutor em Biologia Aquática (1999), é pesquisador e Chefe de Gabinete do INPA. Atua em consultorias sobre Bioeconomia.

Quando pensamos na Amazônia, é impossível não imaginar uma vasta floresta verde, com rios que serpenteiam como veias pulsantes e árvores que se estendem em direção ao céu, formando um manto de biodiversidade que parece infinito. Esse ecossistema, que abriga uma enorme diversidade de seres vivos e culturas, é o coração do planeta. No entanto, além de ser um símbolo de riquezas naturais, o estado do Amazonas tem se destacado como um centro estratégico para o futuro do mundo. É nas profundezas da floresta que se encontra a chave para um modelo econômico que une desenvolvimento e preservação ambiental: a bioeconomia.

Quem já visitou uma feira no Amazonas sabe o que é encontrar produtos que são verdadeiros tesouros da floresta: açaí, castanha-do-brasil, óleos vegetais, ervas medicinais e peixes, que são a base de muitas dietas locais. Esses produtos, que já fazem parte do cotidiano de muitas famílias, representam apenas uma fração do que a biodiversidade amazônica tem a oferecer. O potencial da floresta ainda é vasto e precisa ser explorado de forma responsável.

Eu acredito que o Amazonas pode se tornar um modelo mundial de sustentabilidade, inovação e prosperidade inclusiva. Mas, para isso, é preciso um plano claro e estratégico, que transforme esse potencial em realidade, respeitando a floresta e beneficiando as populações locais.

Estamos trabalhando na construção do Plano Estadual de Bioeconomia, em parceria com o Governo do Amazonas e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEDECTI). O objetivo é criar um plano participativo e eficaz, que integre as riquezas naturais do estado ao desenvolvimento social e econômico, de forma responsável. Este Plano adota o seguinte conceito de Bioeconomia: “conjunto de atividades econômicas de produção, fomento à produção, distribuição e consumo de bens e serviços provenientes de recursos da sociobiodiversidade Amazônica de forma sustentável e inovadora”.

A chave para o sucesso desse plano está em algo simples, mas poderoso: a união entre o conhecimento ancestral das comunidades tradicionais e as inovações tecnológicas. As populações indígenas e ribeirinhas, com seu profundo saber sobre a natureza, têm o poder de oferecer soluções sustentáveis que, quando combinadas com a ciência moderna, podem transformar a região em um exemplo global de economia verde e de baixo carbono.

Em 2018, a SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus) criou o Plano Prioritário de Bioeconomia, com o objetivo de promover a sustentabilidade e a inovação na produção de bens e serviços derivados da biodiversidade amazônica. Esse plano busca integrar a bioeconomia com o modelo da Zona Franca de Manaus, agregando valor aos produtos da floresta e criando novos mercados. A bioindústria é um dos pilares desse plano, incentivando a criação de empresas e startups que utilizem tecnologias inovadoras para transformar a biodiversidade em produtos com valor agregado, como cosméticos, medicamentos naturais e alimentos funcionais.

Além disso, a Estratégia Nacional de Bioeconomia, criada pelo governo federal em junho de 2024, coordenará as políticas públicas da Bioeconomia adotando o seguinte conceito: “modelo de desenvolvimento produtivo e econômico baseado em valores de justiça, ética e inclusão, capaz de gerar produtos, processos e serviços, de forma eficiente, com base no uso sustentável, na regeneração e na conservação da biodiversidade, norteado pelos conhecimentos científicos e tradicionais e pelas suas inovações e tecnologias, com vistas à agregação de valor, à geração de trabalho e renda, à sustentabilidade e ao equilíbrio climático”.  Essa Estratégia só será bem-sucedido com uma coordenação eficaz entre os esforços municipais, estaduais e nacionais.

Em 2024, o Plano Federal Novo Brasil de Transformação Ecológica, proposto pelo Ministério da Fazenda, reforça a bioeconomia como um dos pilares para tornar o Brasil líder global na economia verde. Este plano busca usar tecnologias sustentáveis e promover o uso responsável dos recursos naturais, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) também tem trabalhado na execução do Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia (PRDA) para promover um desenvolvimento sustentável, alinhando suas ações com os planos estaduais e federais para garantir que a bioeconomia seja uma realidade sólida na Amazônia.

Esses planos, apesar de suas singularidades, têm semelhanças, se complementam e estabelecem uma agenda nacional para transformar a bioeconomia em uma política pública robusta, com o potencial de criar economias baseadas na sustentabilidade e no respeito aos saberes tradicionais. A bioeconomia se apresenta, assim, como uma forma de inclusão social e desenvolvimento sustentável.

Em termos práticos, isso significa que os esforços para promover a bioeconomia na Amazônia, no Amazonas e em outras regiões do Brasil serão mais eficazes quando as políticas estaduais e federais estiverem bem alinhadas. Isso criará um ambiente favorável para novos negócios sustentáveis e para a geração de renda para as populações locais. A integração de tecnologias, o respeito pelos saberes tradicionais, a valorização da biodiversidade e a promoção da sustentabilidade são os pilares desses planos.

A bioeconomia já tem mostrado resultados concretos. Em 2021, segundo dados do IBGE, os produtos florestais não madeireiros geraram mais de R$ 10,5 bilhões para famílias rurais de baixa renda. Isso não é apenas um recurso ambiental, mas também uma poderosa fonte de geração de renda e preservação. Mesmo representando apenas 0,12% do PIB brasileiro, o setor tem grande potencial de crescimento. A Fundação Getúlio Vargas estima que o PIB da bioeconomia tenha alcançado R$ 2,7 trilhões em 2023, representando cerca de 25,3% do PIB brasileiro.

No entanto, a implementação desses planos enfrenta desafios. É necessário investir em infraestrutura adequada, garantir acesso à educação e capacitação das populações locais e promover a integração entre os diversos setores da sociedade – governamentais, empresariais, acadêmicos e comunidades tradicionais. A coordenação entre os governos federal, estadual e municipal será fundamental para garantir que a bioeconomia seja uma realidade em todas as regiões do Brasil.

No Amazonas, a discussão sobre crescimento econômico muitas vezes se limita a Manaus e ao Polo Industrial de Manaus (PIM). Embora o PIM tenha sido um motor importante para a economia local, seus benefícios ficam restritos à capital, deixando o interior do estado de fora. A bioeconomia pode mudar isso, criando oportunidades no interior, incentivando a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.

Ao agregar valor aos produtos da floresta, como açaí, guaraná, castanha, seringa, andiroba, copaíba e cacau, podemos gerar empregos e promover a redução da dependência de indústrias não sustentáveis. Isso inclui criar cadeias produtivas mais complexas, que incluam alimentos funcionais, cosméticos e medicamentos naturais derivados da biodiversidade amazônica.

Há uma crescente crença de que o Polo Industrial de Manaus e a bioeconomia podem se complementar. A Zona Franca já oferece incentivos fiscais, criando uma base para o crescimento industrial. Porém, o Amazonas precisa se preparar para um novo ciclo econômico, onde a bioeconomia ocupe um papel central. Isso pode agregar valor aos produtos locais e fortalecer a preservação da floresta, promovendo um modelo de produção sustentável.

A minha visão para o Amazonas em 2073, quando encerrar a vigência dos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus e de áreas da Amazônia Ocidental, é de um estado transformado, onde a bioeconomia será a espinha dorsal do desenvolvimento. A inovação sustentável será o motor do crescimento, a biodiversidade será convertida em riqueza através da biotecnologia, e a região será reconhecida mundialmente como o epicentro de uma economia verde. O Polo Industrial de Manaus terá se adaptado para se tornar um modelo de economia circular, promovendo o uso responsável dos recursos naturais e a regeneração da floresta.

Portanto, o futuro da bioeconomia no Amazonas é uma oportunidade histórica de reimaginar nosso modelo de desenvolvimento. Se conseguirmos alinhar inovação, tradição, preservação ambiental e inclusão, o Amazonas poderá se tornar um modelo global de sustentabilidade. Para isso, precisamos agir agora, integrar todos os envolvidos e garantir que nossa rica biodiversidade seja usada de forma responsável, gerando prosperidade para todos os amazonenses e para o mundo.

Estamos no caminho certo. Se soubermos aproveitar o potencial da nossa floresta de forma estratégica, em 2073, o Amazonas não será apenas um símbolo de biodiversidade, mas um exemplo de prosperidade sustentável para o planeta.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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