segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A arte de produzir cultura e criar filhos: uma jornada de resiliência

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Mãe, multiartista, produtora cultural e CEO da Mabrini Produções. Especialista em Gestão e Produção Cultural (e bacharel em Teatro pela UEA.

Ser CEO de uma produtora cultural e mãe solo de dois filhos é um desafio que exige criatividade, planejamento estratégico e uma dose extra de resiliência. Minha trajetória na cultura começou ainda na graduação em Teatro, quando tive meu primeiro filho. Entre ensaios, aulas e provas, aprendi na prática que ser mãe e profissional da cultura significava estar sempre dividida entre dois mundos e que era possível conciliá-los sem abrir mão dos meus sonhos.

Anos depois, com meu segundo filho ainda pequeno, mergulhei em uma especialização em Gestão e Produção Cultural, aprofundando meu conhecimento no setor e entendendo que a cultura é, além de expressão artística, um poderoso instrumento de transformação social e econômica. Enquanto estudava, equilibrava mamadeiras e projetos, provando que a maternidade não era um empecilho, mas sim uma potência.

Minha jornada me levou ao Sul do Brasil, onde vivi por dois anos. Essa experiência foi essencial para ampliar minha visão sobre a cultura brasileira. Estar distante da minha terra me fez compreender ainda mais a riqueza da identidade amazônica e a necessidade de valorizá-la em projetos culturais. O Sul me proporcionou um intercâmbio com diferentes perspectivas artísticas, mas também reforçou minha missão de dar visibilidade à cultura do Norte, uma região muitas vezes esquecida nas políticas culturais nacionais.

Essa vivência me preparou para me tornar uma referência na elaboração de projetos culturais, editais e leis de incentivo, ajudando artistas e produtores a conquistarem financiamento e viabilizarem seus sonhos. Ser mulher e mãe nesse meio é um desafio constante, mas também é uma oportunidade de trazer um olhar sensível, estratégico e inovador para o setor cultural.

De volta a Manaus, decidi transformar todo esse aprendizado em ação e fundei minha própria empresa, a Mabrini Produções. Hoje, como CEO, lidero uma produtora cultural que atende clientes de todo o país, desenvolvendo projetos inovadores, criando pontes entre artistas e oportunidades e garantindo que boas ideias saiam do papel para se tornarem realidade.

Mas os desafios nunca foram apenas profissionais. Além de ser mãe solo, meu filho mais velho tem TDAH, o que exigiu de mim ainda mais dedicação, aprendizado e uma nova forma de enxergar o tempo, a produtividade e a educação. O caminho não foi fácil como muitas mulheres, precisei romper barreiras, enfrentar preconceitos e provar, repetidamente, que era capaz de conciliar a maternidade e o empreendedorismo cultural sem abrir mão do meu propósito.

Se antes eu via a maternidade como algo que poderia me limitar, hoje percebo que ela ampliou minha capacidade de gerir equipes, liderar projetos e transformar desafios em oportunidades. Ser mãe me ensinou sobre negociação, empatia e estratégia, habilidades essas essenciais para qualquer CEO.

Na palma das mães: um projeto de impacto e propósito

A experiência de equilibrar maternidade e empreendedorismo me levou a idealizar o projeto Na Palma das Mães, um reflexo do meu desejo de ajudar outras mulheres a trilharem esse caminho com mais suporte e oportunidades. Criado pela Mabrini Produções, o projeto foi reconhecido no Prêmio Periferia Viva por seu impacto transformador nas comunidades do Norte do Brasil.

A iniciativa promove a capacitação e o empoderamento de mães no interior do Amazonas, utilizando a economia criativa como ferramenta de transformação social. Muitas dessas mulheres enfrentam desafios ainda maiores do que os que eu mesma vivi: a falta de acesso à informação, a sobrecarga da maternidade solo e a escassez de oportunidades para empreender ou atuar no setor cultural.

Em sua primeira execução, no município de Beruri, o projeto estabeleceu parcerias estratégicas com prefeituras e secretarias municipais, criando uma rede de apoio que oferece formação, acolhimento e suporte pedagógico. Com uma equipe composta exclusivamente por mulheres, o Na Palma das Mães valoriza o protagonismo feminino e enaltece as mães como agentes de mudança em suas comunidades.

Mais do que um projeto de capacitação, essa iniciativa fortalece a cultura e o empreendedorismo, conectando resistência e desenvolvimento sustentável.

O reconhecimento veio de forma grandiosa. Viajei até Brasília ano passado para receber o Prêmio Periferia Viva, um marco que reforça a relevância desse trabalho e o impacto positivo que estamos gerando na vida de tantas mulheres. Estar ali, representando o Norte do Brasil, as mães empreendedoras e a potência da cultura amazônica, foi uma prova de que quando investimos nas mães, transformamos realidades inteiras.

Transformar vidas através da cultura e da maternidade

Minha trajetória me mostrou que maternidade e cultura podem caminhar juntas. Se antes eu via a maternidade como um desafio, hoje entendo que ela me deu as ferramentas para liderar, inovar e inspirar outras mulheres.

Mas minha jornada não se resume a apenas um papel. Sou muitas Mabrinis. Já fui professora, palhaça, animadora, dubladora, instrutora, gestora, atriz, diretora, produtora cultural, narradora, produtora executiva, mas foi através da elaboração de projetos que transformei minha vida e a de tantas outras pessoas.

Cada projeto que escrevo carrega não apenas técnica e planejamento, mas uma história de luta, um propósito maior e a esperança de mudar realidades. Por isso, sigo plantando por onde passo, deixando sementes de cultura, resistência e transformação. Porque criar arte e criar filhos são, no fim das contas, a mesma coisa: um ato de amor e entrega ao futuro.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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