quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Amazônia e a economia do conhecimento

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Em julho, durante a 75ᵃ Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Paraná, diversos pesquisadores que vivem e trabalham na Amazônia reclamaram da “invisibilidade” dos institutos locais.

Segundo eles, há 166 municípios na Amazônia Legal e cerca de 34 institutos públicos de pesquisa e desenvolvimento, com mais de 330 campi. Foi, inclusive, comentado que a Embrapa de a Amazônia, um centro de pesquisas da região, recebe apenas 15% da verba nacional, apesar da Amazônia Legal cobrir 58% do território.

Outros pesquisadores reclamaram que a Amazônia seria usada para experimentações criadas por pessoas de outras regiões. Seria um anti-Brasil.

Também foi ressaltada a necessidade de se combater a exclusão dos pesquisadores locais dos debates nacionais e da própria memória da ciência brasileira.

Toco nesse tema porque ele atinge em cheio uma das áreas mais debatidas da nova era global: a Economia do Conhecimento.

Por definição, ela abrange o uso do conhecimento como um ativo produtivo capaz de gerar valores tangíveis e intangíveis. Ela possibilita que novas relações de produção e mercado sejam construídas, agregando valor, através da inovação e do uso da ciência e da tecnologia.

Direciona seu foco para a informação, concentrando investimentos no setor de serviços.

Sua atuação é fluida, podendo entrar em vários setores da economia tradicional. A educação passa a ser o centro da sociedade e a busca pela inovação torna-se rotina. É o tipo de atividade econômica mais adaptada aos tempos globalizados que vivemos.

Pesquisas de dez anos atrás já apontavam que países como Luxemburgo, Singapura, Suíça e Suécia possuíam mais da metade da população empregada em atividades “de conhecimento intensivo”. Nessas mesmas análises, o Brasil aparecia com cerca de 20% apenas nesse setor. Em países como Coréia, Índia e China, mais de 50% do PIB estão em atividades dessa área – ciência, tecnologia e informação.

Países como China e Índia, desde o início do século XXI, buscam adaptar sua economia para atender aos requisitos dessa “revolução do conhecimento”, seja pela implementação da inovação tecnológica, seja pela qualificação intensa de sua mão de obra.

O problema é que, enquanto eles já faziam as mudanças, o Brasil ainda começava a discutir, como no XVII Fórum Nacional, o assunto. Atualmente, a base da competitividade econômica não está mais nos produtos materiais, mas no conhecimento e é isso que ainda estamos tentando compreender.

No Brasil, dois desafios aparecem de imediato, desde o começo deste debate: como se igualar a essas potências e como difundir por todas as classes da população esse conhecimento avançado. O perigo de se criar uma nova classe de excluídos do conhecimento é real no Brasil (e na Amazônia, em especial), por seus problemas de renda, desigualdade e acesso à tecnologia.

E no Amazonas? O Polo Industrial de Manaus só recentemente começou a entrar no debate sobre a indústria 4.0, passo inicial para se pensar em uma Economia do Conhecimento.

Ano passado, ele faturou mais de R$ 174 milhões e gera cerca de 114 mil empregos. Contudo, segundo critérios de aferição, ainda estaria no estágio da transição para a Indústria 4.0, fazendo projetos de diagnóstico.

É bom ressaltar isso porque o uso da biodiversidade e a implantação de uma bioeconomia intensiva aqui só acontecerão com investimentos fortes em conhecimento, ciência e educação.

Outro ponto que merece atenção é aquele que relaciona o conhecimento às “cidades inteligentes”.

Em 2020, o ex-prefeito de Manaus inaugurou o “Centro da Cidade Inteligente”. O atual, sem saber o que fazer daquilo, tornou-o centro de monitoramento do trânsito e das câmeras de segurança. Porém, um dos eixos da Economia do Conhecimento é justamente incrementar as cidades inteligentes.

Buscar a inovação, qualificar as pessoas, acelerar processos e procurar alternativas de mobilidade e comunicação, entre outros itens, faz parte dessa relação Sociedade do Conhecimento – Cidade Inteligente.

Em tempos de perda de arrecadação e faturamento incerto, investir no conhecimento poderia ser uma alternativa para o Amazonas e Manaus.

Vamos ver nas eleições de 2024 quem irá discutir tal ponto…

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