Quando anunciou, em 2022, a implantação de 12 ônibus elétricos em Manaus, por meio de uma parceria com o Governo do Amazonas, o prefeito David Almeida (Avante) apresentou o plano como um marco de inovação, modernização e compromisso ambiental.
A proposta previa veículos menos poluentes, silenciosos e tecnologicamente avançados, capazes de iniciar a transição energética do transporte público da capital.
Três anos depois, porém, o cenário é outro. O prefeito David Almeida prometeu, mas não cumpriu.
Manaus não possui frota elétrica em operação. O que existe são apenas dois ônibus isolados, apresentados e que fazem um itinerário mais curto, saindo do terminal da Cidade Nova e indo até a avenida Professor Nilton Lins, de onde retorna ao terminal rodoviário.
Licitação suspensa por suspeitas de direcionamento
Em janeiro de 2023, a licitação para a compra dos 12 ônibus elétricos prometidos pelo prefeito foi alvo de suspeitas de direcionamento, acabou entrando no radar do Ministério Público do Amazonas (MPAM) e, posteriormente, do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) e foi suspensa.

Na época, o RealTime1 publicou a íntegra dos documentos que embasaram as investigações (veja aqui).
Desde então, a Prefeitura não apresentou publicamente um plano de retomada, nem novo cronograma para a aquisição dos veículos.
O resultado, hoje, é objetivo: não há frota elétrica, não há expansão anunciada e não há previsão pública de implantação.
Promessas de renovação ficam para trás
O plano dos ônibus elétricos parou no anúncio, mas a renovação da frota convencional também ficou aquém do prometido.
A gestão municipal anunciava, há mais de três anos, um processo mais amplo de modernização dos coletivos a diesel, incluindo modelos climatizados. No entanto, reportagens recentes mostram que apenas 16% dos veículos novos previstos foram entregues.
Na prática, o transporte público segue com ônibus antigos, superlotados e ruidosos, uma rotina que a população conhece bem.
“Todo dia eu volto da faculdade em um ônibus barulhento e lotado. Depois de um dia de trabalho e estudo, a gente só quer um pouco de descanso, mesmo que seja dentro do ônibus. Sem falar no medo de assalto. Promessa tem muita, mas solução mesmo não aparece”, relata Rebeca Silva, 29 anos, assistente administrativa.
A modernização do transporte público estava registrada no primeiro plano de governo de David Almeida, de 2020, no TRE-AM, com o compromisso de ampliar qualidade, pontualidade, acessibilidade e segurança do sistema.

Ministério Público cobra explicações
O Ministério Público do Amazonas (MPAM) ingressou, em abril deste ano, com petição na 4ª Vara da Fazenda Pública de Manaus cobrando o cumprimento do cronograma de renovação da frota, estabelecido em uma ação civil pública, e a efetiva inclusão de ônibus elétricos na operação regular, compromisso assumido pela Prefeitura.

Segundo o órgão, o cronograma previa a entrega de 124 veículos até junho de 2024, mas somente 72 foram entregues. Restaram 52 pendentes. Para compensar o atraso, a gestão apresentou novo plano para 2025:
• 20 ônibus até fevereiro
• 15 até março
• 3 até junho
• 15 até julho
Ao todo, 53 veículos — um a mais que a pendência original.
A Prefeitura afirma ter entregue 19 coletivos em março, 23 em abril e 20 em agosto, somando 62 ônibus. Desse total, 52 correspondem às pendências de 2024 e apenas 10 fazem parte da frota prevista para 2025. Nenhum deles é elétrico.
Manaus vai ficar para trás?
Levantamentos de mobilidade urbana mostram que Manaus está atrasada na transição energética do transporte público. Outras capitais já avançaram:
• São Paulo ultrapassou 400 ônibus elétricos e tem contratos para milhares até 2030.
• O Rio de Janeiro já opera mais de 180 veículos.
• Salvador iniciou renovação com modelos 100% elétricos.
• Curitiba testa ônibus elétricos articulados em corredores estruturais.
• Florianópolis opera frotas elétricas em expansão.
A comparação coloca a capital amazonense entre os piores desempenhos do país na área, justamente em um momento em que a agenda ambiental e de eficiência energética se tornou imprescindível.
O atraso é ainda mais sensível considerando que Manaus lidera índices de poluição veicular na região Norte e convive com um sistema de transporte saturado e pouco eficiente.
Especialistas apontam que a falta de planejamento, a ausência de um calendário claro e a paralisia da licitação contribuíram para a estagnação. O resultado é uma cidade que perdeu a oportunidade de avançar, enquanto outras capitais aceleram rumo a frotas menos poluentes.
Por ora, Manaus segue parada no ponto — à espera de um ônibus elétrico que nunca chega.