A metodologia registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a pesquisa eleitoral AM-04327/2026, atribuída ao Instituto Phoenix & Associados, tem sido objeto de análise por especialistas em estatística e metodologia de opinião pública. Embora o levantamento esteja formalmente registrado na Justiça Eleitoral, a descrição técnica do plano amostral apresenta imprecisões conceituais e lacunas metodológicas que podem comprometer a avaliação da representatividade dos resultados.
De acordo com o registro, o estudo prevê entrevistas presenciais realizadas em 14 municípios considerados “representativos” do Estado do Amazonas, utilizando abordagem domiciliar e em pontos de fluxo populacional, com aplicação de questionário estruturado. O universo da pesquisa é definido como a população urbana com 16 anos ou mais, e a amostra é construída com base em cotas de sexo, faixa etária, escolaridade e renda, utilizando referências do IBGE e estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral.
Especialistas observam, contudo, que a metodologia contém uma inconsistência conceitual relevante ao afirmar que os entrevistados são “selecionados aleatoriamente segundo cotas”. Em termos estatísticos, os dois procedimentos pertencem a modelos distintos de amostragem. Na amostragem probabilística, todos os indivíduos têm probabilidade conhecida de seleção, enquanto na amostragem por cotas a escolha final do entrevistado depende da decisão do entrevistador em campo, a partir de perfis previamente definidos. A combinação dessas duas definições, sem explicação adicional, gera ambiguidade sobre a natureza real do desenho amostral.
Outro ponto observado refere-se à falta de identificação dos municípios pesquisados. Embora o registro mencione que o levantamento foi realizado em 14 cidades consideradas representativas, o documento não especifica quais localidades compõem a amostra. Para especialistas em metodologia eleitoral, a ausência dessa informação limita a capacidade de auditoria externa e impede a avaliação da distribuição regional das entrevistas em um estado que possui 62 municípios e forte heterogeneidade territorial.
A metodologia também informa que as entrevistas foram realizadas em domicílios e em pontos de fluxo populacional, como áreas de circulação intensa de pessoas. Esse tipo de abordagem pode introduzir viés de mobilidade, uma vez que tende a captar com maior frequência indivíduos que circulam em espaços públicos — geralmente mais jovens e economicamente ativos — enquanto segmentos como idosos, pessoas com mobilidade reduzida ou moradores de áreas periféricas podem ficar sub-representados.
Outro aspecto técnico relevante é a definição do universo da pesquisa exclusivamente na área urbana. Em alguns municípios do Amazonas, especialmente no interior, a população rural e ribeirinha possui peso eleitoral significativo. A exclusão dessas áreas pode afetar a capacidade da amostra de refletir com precisão a diversidade do eleitorado estadual.
No plano amostral, o instituto informa que utilizou dados populacionais do Censo 2010 e do Censo 2022 do IBGE, além de estatísticas eleitorais do TSE e dos tribunais regionais eleitorais. Especialistas observam que a utilização simultânea de bases demográficas de períodos diferentes pode gerar distorções na calibração da amostra, caso não haja um critério claro de ponderação para harmonizar essas fontes.
A pesquisa declara margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Embora esse valor seja compatível com levantamentos de porte semelhante, especialistas ressaltam que a margem de erro refere-se à amostra total, podendo aumentar significativamente quando os resultados são analisados por município ou por segmentos específicos do eleitorado.
No que diz respeito ao controle de qualidade, o instituto informa que os questionários passam por crítica integral após o trabalho de campo e que cerca de 20% das entrevistas são fiscalizadas, com o objetivo de verificar a consistência das respostas e a adequação dos entrevistados aos parâmetros amostrais. Analistas destacam que esse tipo de auditoria é comum em pesquisas eleitorais, mas ressaltam que a transparência sobre os procedimentos de verificação e supervisão de campo é um elemento importante para avaliação da robustez metodológica.