quarta-feira, 23 de setembro de 2026
RODOVIA BR-319

Marina Silva, a nova "inimiga número 1" do Amazonas

Classe política se mobilizou para tornar Marina Silva, a nova inimiga do Estado pela postura dela contraria a BR-319
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Foto: Lula Marques / Agência Brasil

A Ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, assumiu, após depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito das Ongs, o posto de “inimiga número 1” dos políticos do Amazonas pela postura contrária à reconstrução do trecho central da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho).

A postura é semelhante a adotada no passado contra governadores de São Paulo, vendidos para o amazonense como os grandes inimigos do modelo Zona Franca de Manaus.

Durante a sessão, houve um embate forte entre Marina Silva e o presidente da CPI, senador Plínio Valério (PSDB), sobre a conveniência de reconstruir o trecho de 400 quilômetros da estrada. Para a ministra, até hoje essa obra não apresenta viabilidade social, econômica e ambiental.

“Até dá para entender o social, mas abrir 400 quilômetros de estradas só para passear de carro não dá. É uma estrada difícil, se fosse fácil teria sido feita ao longo dos 15 anos que passei longe do ministério”, disse Marina, para incendiar as redes sociais de políticos amazonenses.

Praticamente todos, principalmente os bolsonaristas, como o próprio Plínio, Alberto Neto (PL) e Adail Filho (Republicanos) foram as redes sociais replicar cortes da fala da ministra e questionar o que os “amazonenses acham da posição da ministra”.

Uma das obras mais pedidas pelos amazonenses, principalmente após a crise de oxigênio em Manaus durante a segunda onda da pandemia da Covid-19 e, neste ano, com a dificuldade de trazer insumos via hidrovia Madeira-Amazonas para as fabricas do Distrito Industrial, a BR-319 tem agora um grupo de trabalho interministerial que tentará destravar a licença ambiental.

O governador Wilson Lima (União) também entrou nessa onda e disse, num evento sobre a COP28, que não aceitará este tipo de declaração de Marina e lembrou que o Amazonas tem quase um consenso sobre a importância que a rodovia tem para todos os setores.

“A BR-319 pavimentada é um dos instrumentos mais fortes e importantes para fazer fiscalização ambiental. Como o carro dos bombeiros vai fazer o combate a um incêndio sem poder chegar lá. Então é mais uma injustiça que o Amazonas sofre sob o discurso da preservação”, comparou o governador

A Câmara Municipal de Manaus também se manifestou em nota repudiando a fala da ministra do Meio Ambiente e destacou a importância da rodovia para os manauenses.

Ao lado de Marina, ambientalistas lembraram que reconstruir e pavimentar o trecho central da BR-319 é dar uma entrada livre para o desmatamento no último trecho de floresta amazônica virgem do País.

Cientista do Inpa, Phelipe Fearnside diz que será uma tragédia a reabertura da rodovia nos termos propostos pelos políticos do Amazonas.

“Será que o manauense já esqueceu o fumaceiro que tomou conta do céu da cidade?, se esqueceu das queimadas ao longo das estradas nesta região da BR? Será que não vamos apreender com estes erros?”, questiona a ambientalista Sofia da Mota, da Universidade Federal do Amazonas.

Política do inimigo é velha ‘cortina de fumaça’

O cientista político Carlos Santiago avalia que esse discurso da classe política, dos empresários e de uma parte da intelectualidade dos amazonenses para criar um inimigo público é tática antiga para esconder as deficiências e falhas dos próprios na condução do Estado.

“Foi assim quando os governadores de São Paulo eram os nossos inimigos, gente como José Serra e Geraldo Alckmin, que hoje é recebido com aplausos. Daqui a pouco vão atribuir a Marina o fato de Manaus não ter um aterro sanitário decente, ter um transporte público decente”, afirma Santiago.

Carlos Santiago reconhece que há força no discurso de ataque a Marina, mas no fundo ele só serve de cortina de fumaça para os problemas que estes políticos não conseguiram resolver e tentam jogar tudo nas costas dela.

“Quer dizer que a BR-319 vai ser a salvação para o desenvolvimento do Amazonas? Não. Esse discurso é igual ao que formou a opinião pública favorável a realização da Copa em Manaus, a construção da ponte sobre o rio Negro, o Terceiro Ciclo, o Zona Franca Verde, o Amazonas Rural, políticas públicas que não resolveram nosso problema de desenvolvimento”, analisou.

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