Uma pesquisa inédita da More in Common, realizada em parceria com o instituto Quaest, indica que a polarização política no Brasil é mais limitada do que se supõe.
O estudo “Populismo e progressismo no Brasil polarizado”, revela que o país não se divide em dois polos ideológicos, mas em seis grupos distintos — e que a maioria da população não está em nenhum dos extremos.
Com 10 mil entrevistas presenciais em todo o país entre 22 de janeiro e 12 de fevereiro de 2025, o estudo revela que apenas dois pequenos grupos — Progressistas Militantes e Patriotas Indignados — concentram o núcleo mais polarizado da sociedade, somando cerca de 10% da população.
Outros quatro segmentos completam o mosaico ideológico brasileiro, dos quais dois representam a maioria silenciosa: Desengajados e Cautelosos, que juntos compõem 54% da população .
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O levantamento ouviu dez mil pessoas em todas as regiões e fez mais de 150 perguntas sobre política, valores, religião, economia e comportamento social.
Seis segmentos em vez de polarização política
A pesquisa mostra que o cenário político nacional não se resume à disputa entre petistas e bolsonaristas. A população brasileira pode ser dividida em seis segmentos com visões políticas coerentes: Progressistas Militantes (5%), Esquerda Tradicional (14%), Desengajados (27%), Cautelosos (27%), Conservadores Tradicionais (21%) e Patriotas Indignados (6%).
Enquanto os extremos são altamente mobilizados, os grupos intermediários se mantêm afastados da política e raramente participam de debates públicos.
Segundo o relatório, “os segmentos minoritários são muito engajados e vocais, e os que não estão polarizados preferem se afastar da política”.
A pesquisa chama esses brasileiros de “invisíveis”, justamente por não terem sua voz representada no debate público.
O resultado desmonta a narrativa de um Brasil dividido em duas torcidas e traz à luz o papel de quem pouco aparece nos debates públicos: os “invisíveis”, cidadãos que não se reconhecem nem na direita nem na esquerda e que preferem se manter afastados da polarização.
Eles formam a maioria silenciosa cansada do embate ideológico. Votam mas raramente se envolve em discussões políticas. Não se identificam nem com o progressismo urbano nem com o conservadorismo militante, e isso muda completamente a leitura sobre a polarização no Brasil

Os “invisíveis”: conservadores, pobres e desiludidos com a política
Entre os invisíveis, predominam pessoas com baixa escolaridade e renda inferior a R$ 5 mil mensais.
O grupo dos Desengajados é o mais pobre e o menos escolarizado, com 65% vivendo com menos de R$ 5 mil e apenas 6% com ensino superior. É também o grupo mais afetado pela pobreza: 12% passaram fome recentemente.
Embora 72% se digam conservadores, 45% não se definem como de direita, esquerda ou centro. Quase um terço se absteve ou votou branco ou nulo em 2022.
Já os Cautelosos, também com 27% da população, têm perfil semelhante: um pouco mais escolarizados (11% com ensino superior), mais presentes no Nordeste e em áreas rurais e profundamente religiosos (49% católicos). Desconfiam das elites intelectuais e da política institucional, mas ainda mantêm algum senso de pertencimento nacional.
Esses dois grupos — que o estudo chama de “maioria invisível” — não se reconhecem nos debates políticos que dominam as redes sociais e os noticiários.
Enquanto progressistas e conservadores travam batalhas simbólicas em torno de temas como gênero, cotas, costumes e liberdade de expressão, os invisíveis se preocupam com questões práticas e imediatas: emprego, saúde, segurança e custo de vida.
O relatório aponta que essa maioria silenciosa tem sido negligenciada pelo discurso político. São pessoas cansadas da guerra ideológica, mas que sentem que nenhum dos lados as representa. E é justamente nesse vácuo que o populismo cresce.
Entre extremos, o Brasil real
Do outro lado da balança, o estudo identificou grupos mais engajados e ideologicamente definidos, que formam as pontas da polarização. De um lado, os Progressistas Militantes (5%) e a Esquerda Tradicional (14%); do outro, os Conservadores Tradicionais (21%) e os Patriotas Indignados (6%).
Os Progressistas Militantes são os mais escolarizados (53% têm ensino superior) e os mais ricos (37% ganham acima de R$ 10 mil). Têm baixa religiosidade (41%) e forte identificação com o PT (39%) e o PSOL (16%).
São guiados pela defesa da justiça social e da igualdade racial e de gênero — valores que os afastam da maioria mais conservadora.
Já entre os Patriotas Indignados, grupo majoritariamente evangélico (38%) e fortemente bolsonarista (70%), a pauta gira em torno da defesa da família, da religião e da moral. São o segmento mais mobilizado da direita, com quase metade (49%) considerando importante participar de manifestações políticas.
Entre esses extremos, estão os “invisíveis” — a maioria dos brasileiros que não milita, não se identifica com rótulos e evita o conflito.
Segundo o relatório, é o comportamento desses grupos que define o tom da política nacional e, principalmente, o resultado nas urnas. São eles que decidem eleições, que oscilam entre candidatos de diferentes campos e que, em última instância, determinam o rumo do país.
Enquanto os extremos se enxergam como protagonistas, a maioria do Brasil permanece à margem, porque prefere essa posição. É ela que, silenciosamente, mantém o país em equilíbrio.
Confira o estudo sobre polarização política na íntegra:
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