Partidos políticos destinaram nestas eleições R$ 50,6 milhões para 1.430 candidatos a deputado federal que não conseguiram nem 300 votos cada um. O alto emprego de dinheiro público em campanhas “sem voto” pode indicar candidaturas laranjas, que consiste em inscrever nomes de fachada, ou seja, que não realizam ou simulam atos de campanha.
Um cruzamento feito pela Folha de S.Paulo com base nos resultados das eleições e na distribuição pelas legendas dos fundos eleitoral e partidário mostra que vários desses casos envolvem mulheres e pessoas que se declararam negras, para que a legislação eleitoral fosse cumprida.
O uso de laranjas tem o intuito justamente de aparentar o cumprimento da cota de gênero (todos os partidos devem ter, ao menos, 30% de candidatas) e racial (divisão de verbas de forma equânime entre negros e brancos), ao passo em que, na prática, o dinheiro é desviado para outras campanhas ou outros fins.
Pela lista divulgada pela Folha, o nome de Adriana Mendonça foi o que mais chamou atenção.
Candidata a deputada federal, ela recebeu R$ 3 milhões do fundo eleitoral do Pros e teve apenas 240 votos, um custo de R$ 12.500 por cada um deles.
Adriana é ex-mulher do ex-deputado e ex-governador do Amazonas Henrique Oliveira (Podemos), que disputou o governo neste ano, mas não se elegeu.
Ela ainda não comentou o assunto. Seu ex, no entanto, nega que o dinheiro tenha sido utilizado em sua campanha ao governo.
“Não houve uso algum do recurso destinado à [campanha da] deputada federal Adriana Mendonça na campanha majoritária do Henrique Oliveira”, disse ele, afirmando que a baixíssima votação da ex-mulher teve origem no racha interno do Pros nacional.
O partido passou os meses anteriores à eleição em uma disputa judicial, incluindo suspeita de tentativa de compra de sentença, o que resultou em um revezamento dos grupos no comando da legenda.
“O Pros ficou totalmente desestabilizado. Houve uma fuga enorme de deputados federais de lá, uma saída em massa. Infelizmente, nessa briga, o nome dela ficou sub judice e acredito que as pessoas não quiseram votar nela, que fez uma belíssima campanha.”
O Pros nacional disse que assumiu o partido às vésperas da eleição já com o planejamento de distribuição de verbas montado pela gestão anterior e que, a partir daí, fez adequações, reduziu valores e priorizou estados em que avaliou haver candidatos com maior potencial.
Da Redação, com informações de Lucas Marchesini, João Gabriel e Ranier Bragon (FolhaPress)
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