quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Jesus revela a verdade

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Os eventos climáticos registrados em Manaus na última quarta-feira (19) reafirmam a vulnerabilidade da cidade diante dos impactos das mudanças climáticas, e trazem à tona uma verdade: não há números concretos sobre quantas são as áreas de risco na cidade e quantas pessoas estão sob ameaça por deslizamentos.

As contradições surgem principalmente da falta de dados atualizados e acessíveis por parte da Prefeitura de Manaus e da discrepância entre diferentes fontes sobre números de pessoas e imóveis em risco.

Segundo dados de 2024 da Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, mais de 55 mil pessoas em Manaus residem em áreas de risco, o que coloca a cidade na categoria de “município crítico” em relação a desastres naturais.

Esses dados, coletados em parceria com outros ministérios como o das Cidades, Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, indicam grande vulnerabilidade da capital diante de chuvas intensas e deslizamentos de terra.

Em novembro de 2024, a Defesa Civil de Manaus, por sua vez, diz ter identificado 634 setores de risco e mais de 1.600 áreas vulneráveis, afetando aproximadamente 52 mil imóveis na capital.

A discrepância nos números pode resultar em políticas públicas inadequadas

Esses dados foram reforçados publicamente nesta quarta-feira (19/3) pelo secretário municipal de Habitação, Jesus Alves.

“Há cerca de 52 mil habitações em áreas de risco. A falta de políticas públicas eficazes ao longo das décadas resultou em um dos maiores déficits habitacionais do país”, afirmou.

No entanto, como o número de moradores por imóvel pode variar, pode haver uma inconsistência entre as estimativas apresentadas e as mencionadas pela Casa Civil da Presidência da República, dependendo da média de habitantes por domicílio.

O uso dessas informações por um secretário municipal, responsável pela solução de problemas habitacionais, pode levar à implementação de políticas públicas inadequadas ou a previsões desatualizadas que influenciam as decisões.

Quanto aos riscos de deslizamentos de terra, até novembro de 2024, a Defesa Civil de Manaus identificou nove bairros com alta incidência desses desastres.

Localizados principalmente nas zonas norte e leste da cidade, esses bairros são considerados altamente vulneráveis a desabamentos durante o período de chuvas intensas.

Transparência

No entanto, a Prefeitura de Manaus não disponibiliza publicamente os dados atualizados sobre esses locais, dificultando a verificação da precisão dessas informações.

O RealTime1 procurou a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Defesa Social (Semseg) para verificar se o levantamento havia sido concluído e obter informações atualizadas sobre o número de áreas de risco, os bairros com áreas de alto risco e a quantidade de pessoas que residem nessas regiões.

A assessoria informou que esses dados estão disponíveis no Plano de Contingência da Prefeitura de Manaus, porém, não são de fácil acesso ao público, não estando disponíveis no site principal da Prefeitura, no portal oficial da Semseg ou no Portal da Transparência.

Até a publicação desta matéria, a assessoria da Semseg não forneceu os dados solicitados nem indicou onde o Plano de Contingência pode ser consultado.

A ausência de dados claros cria um problema de transparência, impedindo a validação das informações sobre setores e bairros em maior risco.

Enquanto isso, Manaus segue liderando estatísticas como o de cidade brasileira que mais emitiu alertas de desastres naturais em 2024, com um total de 50 notificações, conforme o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Este dado reforça a gravidade da situação e a necessidade de medidas urgentes para reduzir os riscos à população.

Crise habitacional

Além do perigo iminente de desastres climáticos, Manaus enfrenta uma crise habitacional. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a cidade possui 103.471 domicílios em déficit, o que representa 12,6% do total de habitações ocupadas.

A cidade também registra problemas como o aluguel excessivo, que afeta mais de 40 mil famílias, além de coabitação e moradias precárias.

O IBGE ainda aponta que Manaus abriga a quarta maior favela do Brasil, o bairro Cidade de Deus, com mais de 55 mil moradores. Atualmente, o Amazonas lidera o percentual de moradores de favelas no Brasil, com 34% da população em situação de vulnerabilidade.

A perda de vegetação urbana também é um problema crescente. Segundo o levantamento “Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra no Brasil – Coleção 9” da rede MapBiomas, entre 2003 e 2023, Manaus foi a capital brasileira que mais perdeu vegetação urbana proporcionalmente, com uma redução de 1.157,6 hectares em áreas verdes — o equivalente a mais de 1.100 campos de futebol.

Em 2003, a cidade possuía 28,8% de vegetação urbana, mas essa proporção caiu para 22,1% em 2023, o que reflete o impacto negativo do crescimento desordenado da cidade sobre o meio ambiente.

Dessa forma, há um questionamento válido: Se a cidade tem um alto número de alertas e áreas de risco bem mapeadas, como a prefeitura afirma ter, por que as estratégias para reduzir os impactos ainda não são amplamente divulgadas e acessíveis à população?

Essas inconsistências, provenientes de órgãos oficiais como a Casa Civil, Cemaden, IBGE e MapBiomas, revelam não apenas dificuldades técnicas na coleta de dados, mas também falhas na transparência e na implementação de políticas públicas para reduzir os impactos desses problemas.

Uma coisa está cada vez mais clara: A cidade precisa de respostas rápidas e eficazes para enfrentar os desafios climáticos, habitacionais e ambientais.

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