Os hábitos alimentares dos manauenses vêm mudando ao sabor da indústria e da agroindústria de alimentos brasileira e nenhum exemplo é mais ilustrativo do que o consumo de tambaqui ruelo, aquele com até cinco quilos de peso e oriundo de fazendas de peixes nos Estados de Rondônia e Roraima.
Rondônia foi o maior produtor nacional de tambaquis em 2022 no Brasil, com mais de 34 mil toneladas produzidas e que atenderam a 36% do mercado nacional. Roraima foi o terceiro maior produtor, com 11 toneladas, ao lado do Maranhão. No total, foram produzidos 94 mil toneladas de tambaqui, todos na faixa de peso que os caracterizam como ruelo aqui no Amazonas.
Não há números fechados, mas praticamente toda a produção de Roraima atende ao pequeno mercado interno e ao grande mercado amazonense, competindo com as mais de 10 mil toneladas de tambaquis que vieram, pela hidrovia dos rios Amazonas-Madeira, direto para o mercado consumidor de Manaus.
Essa facilidade logística faz do ruelo a nova preferência do manauense, que até pouco tempo optava pelo consumo do tambaqui de rio, que são maiores (acima de sete quilos), mais fortes, de sabor encorpado, têm menos gordura aparente e são (supostamente) “muito mais gostosos”.
“Antes o ruelo de rio não se criava, o pescador já tirava da rede e o devolvia para a água (quando vivo) ou usava no próprio consumo“, diz o feirante Marcos Mariano de Oliveira, que tem uma banca na feira do Dom Pedro. “Ruelo de rio não vinha para a feira, onde o cliente só quer os grandes tambaquizões“, completa.
A nova opção preferencial pelo tambaqui ruelo dos manauenses também se explica pelo preço bem mais em conta que o necessário para comprar um “bichão” de oito ou dez quilos pescado artesanalmente nas barrancas de rios como o Solimões ou Purus, onde estão os maiores cardumes.
Nas bancas, o quilo de um tambaqui de rio chega a custar mais de R$20 e um exemplar de bons oito quilos tira da carteira do consumidor R$160. Um ruelo bonito, com até seis quilos, sai por no máximo R$12.
Doutor em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Amazonas, Mário Thomé, explica que a questão comercial é um dos elementos que podem explicar essa nova opção pelo peixe de menor tamanho, mas há outros fatores.
“Os consumidores mais antigos conseguem estabelecer a diferença entre o sabor de um peixe de rio e um de viveiro, mas os mais jovens, que são a maioria do mercado consumidor, não vê essa diferença e prefere pagar pelo peixe mais barato, no caso o ruelo”, conta.
Famílias menores e a vida em apartamentos também são possíveis explicações para a nova preferência pelo ruelo. “Comprar um peixe de oito quilos para uma família de duas ou três pessoas é um exagero, ainda mais pelo preço que vão pagar. No apartamento também há a dificuldade para assar um peixe grande”, completa.