Após um “outubro cinza”, com a cidade invadida pela fumaça de queimadas criminosas a maior parte do mês, Manaus iniciou novembro de 2023 sem ter um dia com a qualidade do ar em condições de normalidade. O cenário de poluição do ar se repete em outras localidades da região amazônica, igualmente atingidas por nuvens densas de fumaça oriundas de queimadas florestais.
Especialistas alertam que a inalação contínua de poluentes como o monóxido de carbono e material particulado pode causar problemas sérios de saúde humana e de animais.
“O material particulado PM 2.5 são partículas muito finas que podem ter o diâmetro de 2.5 mícrons ou até menos e tem capacidade de penetrar profundamente nos pulmões causando graves problemas respiratórios, podendo afetar outros órgãos e inclusive podendo causar acidentes vasculares cerebrais (AVC)”, explica a pesquisadora em Saúde Pública do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Alessandra Nava. “Os hospitais estão lotados de pessoas, principalmente crianças com problemas respiratórios”, observa.

Crianças são as mais afetadas pela poluição do ar
Ao RealTime1, JP Amaral, gerente de meio ambiente e clima da ONG Instituto Alana, disse que hoje as crianças são as mais afetadas pela poluição do ar em todo o mundo.
De acordo com JP, que coordena o programa Criança e Natureza, isso se deve por alguns motivos:
- Frequência cardiorrespiratória: metabolismo mais acelerado; em comparação a adultos, as crianças respiram 50% mais ar por quilograma de peso corporal, o que aumenta significativamente a dose de exposição
- Fisiologia: menos alvéolos e vias aéreas menores, o que facilita a obstrução pelo material particulado; camada celular da parte interna é mais permeável em crianças menores
- Imunologia ainda em desenvolvimento
- Cérebro em formação e as micropartículas de poluição entram com mais facilidade no sistema sanguíneo, impactando o desenvolvimento cognitivo
- Altura: próxima dos escapamentos, tanto da criança quanto de um carrinho de bebê, etc
Entre os malefícios da poluição do ar na fase pré-natal estão a mortalidade neonatal e pós-neonatal, impacto na formação neuronal, prematuridade – em um ano, a poluição do ar foi a causa de 16 mil partos prematuros nos EUA -, e baixo peso do recém-nascido.
Para a população infantil de modo geral, JP explica que a poluição do ar pode afetar alguns aspectos da sua saúde:
- Efeitos neuro comportamentais: autismo
- Efeitos endócrinos: distúrbios metabólicos, como resistência à insulina, obesidade, hipertensão
- Doenças cardiovasculares: isquemia cardíaca, infarto e alta pressão arterial
- Pneumonia: 50% dos casos por poluição
- Doenças respiratórias: estresse oxidativo e inflamação das vias respiratórias, tosse e chiado, irritação das vias nasais e garganta, prejuízo das respostas imunológicas, infecções respiratórias agudas (incluindo bronquite e pneumonia), infecções respiratórias crônicas (incluindo asma), doença pulmonar obstrutiva crônica (bronquite e enfisema), prejuízo ao desenvolvimento de pulmão, câncer de pulmão
- Prejuízo ao desenvolvimento cognitivo decorrente de estresse oxidativo, neuroinflamação e dano do tecido neural, irritação oftalmológica, dentre outras.
Para ter uma noção mais ampla do problema da poluição do ar, JP explica que hoje 93% de todas as crianças do mundo estão expostas a ar poluído a níveis acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Destas, 630 milhões são crianças de até 5 anos de idade e 98% delas estão em países de baixa e média renda. A poluição do ar causa mais de 50% das infecções respiratórias agudas em crianças de até 5 anos nestes países.
No Brasil, segundo ele, um dos maiores gargalos atualmente é o monitoramento da qualidade do ar.
“O outro ponto é em relação aos índices que o Brasil se baseia para medir a qualidade do ar. Estamos muito defasados em relação aos padrões de qualidade do ar recomendados pela OMS. Ou seja, mesmo quando o ar aparentemente está bom, segundo a OMS, não estaria tão bom assim. Há a Resolução CONAMA 491/2018 em revisão no momento para ser atualizada em até 2 anos, conforme decisão do STF. Fundamental que este processo aconteça com participação e baseado nos padrões mais atualizados mundialmente”, observa JP Amaral.
O coordenador afirma que a poluição do ar no Brasil está principalmente relacionada às queimadas na Amazônia, de onde vem, por exemplo, 60% do material particulado inalado no país.
“Segundo a Fiocruz, em 2019 cerca de 5.000 crianças foram hospitalizadas por mês na região Amazônica em decorrência da poluição das queimadas, especialmente nos estados do Pará, Rondônia, Maranhão e Mato Grosso”, disse.
Poluição urbana veicular
Em relação a emissões veiculares, a maior parte das emissões vem de caminhões e ônibus, uma vez que ainda fazem uso de uma tecnologia de motor defasada que chega a emitir até 90% mais poluentes em relação a tecnologia mais atual, chamada de Proconve 8.
Medidas para enfrentar o problema
O gerente do Instituto Alana destaca que, no âmbito federal, o poder público deve intensificar as medidas de combate às queimadas, principalmente as criminosas, e também de fomento de proteção das florestas, em especial por meio das Terras Indígenas, que é onde estão as maiores áreas de florestas preservadas.
“Em relação às emissões veiculares, deve-se garantir que a indústria automobilística, em especial montadoras de caminhões e ônibus, implemente a tecnologia do Proconve-8 para reduzir drasticamente as emissões de poluentes nos meios urbanos”, diz JP Amaral;
“Os governos estaduais, por sua vez, são responsáveis pelo monitoramento de qualidade do ar, infraestrutura essencial para garantir dados e medidas de redução de poluentes atmosféricos. No município, é necessário que se implementem medidas de fomento à mobilidade sustentável, em especial a mobilidade ativa, como a pé e bicicleta, e a mudança da frota de ônibus dos transportes públicos por tecnologias limpas”, acrescenta.
“É fundamental também priorizar os espaços onde estão as crianças, criando zonas de baixa emissão, como no entorno de escolas e creches, além da criação de mais áreas verdes e azuis nas cidades”, conclui ele.
Autoridades se manifestam sobre a fumaça em Manaus
O secretário estadual do Meio Ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira, se pronunciou sobre o assunto. Ele disse que a fumaça observada nos últimos dias em Manaus, diferentemente das que cobriram cidade no início de outubro, “são predominantes de outros estados (ainda que haja sim influência de alguns focos ainda persistentes aqui no Amazonas)”.
Taveira disse que não há um único fator para isso acontecer, mas que o uso do fogo para “limpar terreno ou preparar áreas para produção é muito comum no Amazonas”.

“Tanto que mais de 80% das áreas queimadas eram áreas de uso de terras já desmatadas nos últimos 10 ou 5 anos. No entanto, esse padrão de uso de terra em uma escala pequena, com regimes de chuvas dentro da regularidade e umidade alta, conseguiu conter essa fumaça em uma rápida dispersão”, acrescentou.
Segundo ele, o governo concentrou esforços emergenciais no dia 10 de outubro e, até o dia 30, a redução das ocorrências ultrapassou 80%.
“No entanto, o sistema colapsado ainda perdura. Estamos com um baixíssimo índice de chuvas na região e uma seca recorde que ainda poderá perdurar por alguns dias (meses). Ou seja, nunca na história do Amazonas enfrentamos tal situação”, disse.
O governador Wilson Lima (União) se manifestou nesta sexta-feira (2). Disse que as equipes do governo estão combatendo os focos de incêndio, principalmente na Região Metropolitana de Manaus e no sul do estado.
“Já detivemos mais de 100 pessoas e aplicamos mais de R$ 140 milhões em multas por crimes ambientais”, ressaltou.
Em entrevista coletiva em Manaus, onde participa do evento TED Talks, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, disse que, se não fosse o trabalho de combate ao desmatamento realizado em 2023, a situação seria muito pior, “apocalíptica”, segundo ela.
“As queimadas acontecem em função do desmatamento. E, se nós não tivéssemos reduzido o desmatamento aqui no Estado em 64%, nós teríamos uma situação completamente apocalítica. O que se precisa fazer é o que nós já estamos fazendo, um plano de prevenção e controle do desmatamento e que esse plano não seja apenas do governo federal, mas dos governos estaduais”, disse ela, ressaltando a necessidade de fortalecimento das Defesas Civis e de se trabalhar a educação ambiental.
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