quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Efeito delivery: na pandemia, motos garantem empregos dentro e fora do PIM

Em um ano, enquanto serviços de delivery abriram 10 mil postos de trabalho, o setor de Duas Rodas do Polo Industrial registrou aumento de 3,4% na geração de novos empregos.
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Acostumadas a escapar de congestionamentos e do trânsito pesado com seu zig-zag diário pelas ruas do Brasil, as motocicletas conseguiram algo ainda mais ousado em 2020: driblar o desemprego. No ano marcado pela pandemia do coronavírus, os serviços de entrega deixaram de ser um diferencial e passaram a ser uma necessidade do mercado.

Enquanto taxa média de desemprego no Brasil foi de 13,5% em 2020, a maior já registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde o início da série histórica em 2012, os gastos com serviços de delivery cresceram 149% no mesmo período, segundo dados da Mobilis, startup de gestão de finanças pessoais.

O salto acontece devido à impossibilidade de estabelecimentos como bares, restaurantes, mercados, shoppings e lojas do comércio em geral receberem os consumidores em seus espaços físicos, devido às restrições impostas pelo vírus.

Ainda de acordo com os números da Mobilis, o mês de dezembro de 2020 registrou a maior alta nos gastos com a modalidade, com crescimento de 187%, se comparado a março, quando iniciou a pandemia.

O impacto direto deste movimento foi o incremento no número de motoboys contratados pelas plataformas de delivery durante este período.

iFood

Só no iFood, por exemplo, em 12 meses de pandemia, foram abertas 10 mil novas vagas. Dados divulgados pela empresa mostram que o número de entregadores cadastrados na plataforma saltou 150 mil, no início da pandemia, para para 160 mil em abril deste ano. O quantitativo representa um aumento de 6% na geração de novos empregos em apenas um ano.

A abertura de novas vagas para os motoboys no serviço de entrega da plataforma, no entanto, poderia ter sido ainda maior, já que o número de pedidos cresceu em proporção bem superior.

Segundo a empresa, a quantidade média de pedidos feitos no aplicativo passou de 30 milhões antes da pandemia para 48 milhões no fim de 2020.

O iFood explica que a estratégia de segurar o aumento nas contratações e manter o atual número de empregados serviu como forma de valorizar financeiramente os colaboradores que já trabalham na plataforma.

“Atualmente, o iFood conta com 160 mil entregadores ativos na plataforma em todo o Brasil. Para manter o equilíbrio do modelo de negócios, por conta do aumento da demanda por pedidos, a empresa decidiu não expandir o número de entregadores na mesma proporção para evitar que a renda desses parceiros tivesse queda”, justificou a empresa, em nota enviada ao Real Time1.

Expansão dos negócios

O empresário Thiago Rodrigues sentiu na pele a mudança trazida pela pandemia ao seu negócio. Proprietário de uma rede de hamburguerias focada especialmente em delivery e retirada de Manaus, além de ver a necessidade de aumentar a quantidade de motoboys, ele acabou por expandir sua área de atuação, devido à alta demanda do último ano.

“A pandemia aumentou significativamente tudo, desde preços de insumos, até a demanda de pedidos e necessidade de entregadores também. Na unidade [do bairro] da Cidade Nova há um ano atrás, durante o pico da primeira onda da pandemia em Manaus, eram quatro entregadores. Hoje são sete. Já a unidade do [bairro] Parque 10, como inauguramos há só quatro meses, temos três motoboys”, comemora.

Emprego garantido

Um dos profissionais contratados pela hamburgueria de Thiago no último ano foi o motoboy Neto Alves. Ele conta que já atuava como prestador de serviço de delivery antes da pandemia, mas percebe que houve uma valorização deste tipo de trabalho neste período.

“Antigamente as pessoas não valorizavam muito o serviço de entrega. Havia muita reclamações sobre os valores de taxas, mas não viam os transtornos que passamos”, comenta o profissional.

Com o emprego garantido, a expectativa agora é de que, com o fim da pandemia, a demanda por entregas continue em alta.

“Graças a Deus as entregas aumentaram muito durante essa pandemia. Está havendo muitos pedidos e eu creio que sem a pandemia essas melhorias serão mantidas e vamos continuar com os mesmos níveis de entrega. Mas no momento é importante que nossos clientes não saiam de casa e continuem se prevenindo por que nós, entregadores, vamos levar os produtos até eles”, conclui.

Empregos em alta também na indústria

Com a alta demanda nos serviços de entrega, as restrições impostas pela Covid-19 também se refletiram em aumento na geração de empregos no setor de Duas Rodas do Polo Industrial de Manaus (PIM).

Segundo números divulgados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) nos Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus, a mão de obra do setor passou de 13.472 trabalhadores em 2019 para 13.930 até dezembro de 2020.

O resultado de 2020, que exclui trabalhadores terceirizados e temporários, representou uma alta de 3,4% na geração de empregos do setor na comparação com 2019 – o melhor resultado do segmento em cinco anos.

Considerando os números de mão de obra incluindo terceirizados e temporários, a alta de empregos no setor de Duas Rodas foi ainda maior, segundo dados da Suframa: +10,2% (14.859 trabalhadores em 2019 contra 16.380 trabalhadores em 2020).

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, credita este aumento na produção justamento ao incremento das atividades de delivery.

“Houve um aumento nos serviços de delivery, comumente efetuados por meio de motocicletas. Esse cenário manteve o segmento levemente aquecido em meio às dificuldades da crise”, explicou o empresário.

Além disso, lembra Silva, no último ano, as empresas do setor de Duas Rodas do Polo Industrial de Manaus se viram obrigadas a incrementar a produção, devido um desajuste entre oferta e demanda por veículos novos no mercado, também causado pela Covid-19.

“Existe uma demanda reprimida no setor, onde há procura, mas a oferta acabou reduzida em razão da pandemia”, explicou o empresário.

O presidente da Fieam acrescenta ainda que as medidas do governo estadual que possibilitaram o funcionamento das indústrias, mesmo durante o auge da crise, auxiliariam sobremaneira para este indicador positivo.

Reportagem: Lucas Raposo

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