Grande produtor e exportador de grãos e proteína animal, o Brasil é o terceiro maior consumidor mundial de macronutriente (nitrogênio, fósforo e potássio), insumos fundamentais para produção de fertilizantes utilizados nos cultivos da soja, milho, feijão e arroz, por exemplo. Mas enquanto a exploração de nitrogênio e fósforo é autossuficienciente no país, ainda há uma grande dependência do potássio importado. Hoje, cerca de 95% do todo o potássio utilizado pelo agronegócio brasileiro são provenientes de importações, principalmente da Rússia.
O Amazonas conta hoje com duas grandes reservas do mineral. A primeira, da Petrobras, localizada na margem direita do rio Madeira. São reservas antigas que precisariam ser revalidadas em estudos mais atualizados. Na margem esquerda, em uma área conhecida como Vila de Urucurituba, no município de Autazes, existe o projeto da empresa privada Potássio do Brasil. O investimento para a exploração das primeiras lavas de potássio nesta região estão avaliados na ordem de US$ 3 a US$ 4 bilhões.
O geólogo e analista ambiental do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Daniel Nava explica ainda que as reservas de potássio do Amazonas, atualmente sem atividade mineradora, não serviriam como alternativa imediata à falta de fertilizantes importados da região do Leste europeu, cujas importações estão paralizadas devido o conflito armado com a Ucrânia. Segundo ele, as primeiras lavas do mineral só serão aproveitadas anos após o início da exploração mineral na região.
“Essas reservas que temos no Rio Madeira, para entrar em funcionamento, elas levam um tempo. Não é simplesmente ‘bater o martelo’. São investimentos pesados e é um investimento que vai render a sua primeira leva daqui há alguns anos. Talvez leve uns 5 ou 6 anos para que elas entrem em funcionamento. Não é uma garantia imediata”, explica.
Sinuca de bico
Ele lembra que, por muitos anos, boa parte dessas reservas estavam nas mãos do governo federal, já que estão sob responsabilidade de Petrobras. Da mesma forma, o ente privado precisa ter garantias de que todo o investimento que ele captar não terá prejuízos, na relação da insegurança jurídica, da insegurança política.
“O governo federal deixou, por muito tempo, essa discussão de lado e até hoje não temos uma resposta. Passaram-se vários governos – situação, oposição – e, infelizmente hoje estamos em uma ‘sinuca de bico’ em relação ao aproveitamento e à manutenção da exploração do potássio no estado. Infelizmente, temos tido muita inseguraça para os investidores por parte da política ambiental brasileira, por parte da política tributária e por uma série de questões que ficam muito mais no discurso e que não são equacionadas para que o país se torne atrativo para o investidor”, lamenta.
Para ele, a decisão política e empresarial de se investir na exploração dessas minas, poderá abrir “uma estrada de desenvolvimento” no estado. “Porque não é só a mina em si. É uma mina muito bem localizada, em termos de infraestrutura e sob o ponto de vista dos principais consumidores desse minério. Ela está bem próxima do Serrado, região de grande atividade agrícola”.
“Sem potássio não há alimentos”
Defensor da exploração mineral na Amazonas há mais de 20 anos, o deputado estadual Sinésio Campos (PT) afirma que o estado possui, em seu subsolo, reservas de potássio com mais de 400 quilômetros de extensão.
Segundo Sinésio Campos, o imbróglio gerado em torno da exploração do potássio no Amazonas cria problemas gravíssimos para a alimentação em todo o Brasil, já que produtos como o milho e a soja são muito utilizados na fabricação de ração, que serve à produção de proteína animal, seja na piscicultura, bovinocultura, suinocultura e avicultura.
“Se não temos o potássio, para a produção desses produtos, automaticamente poderemos ter desabastecimento não só aqui no Brasil, mas no mundo todo, já que somos grandes exportadores de proteínas e grãos. Sem potássio, não há produção de alimentos no Brasil”.
Cerca de 95% de todo o potássio utilizado para a fabricação de fertilizantes no Brasil são importados, sendo que de 30% a 40% vêm de países como Rússia, Ucrânia e o vizinho Belarus. Principal envolvida no conflito, o país de Vladimir Putin é hoje um dos maiores fornecedores globais de nitrogenados, potássicos e fosfatados, nutrientes conhecidos pela sigla NPK, fundamentais na fabricação de fertilizantes agrícolas.
Reportagem: Lucas Raposo
Leia mais: