quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Duas semanas cheias de depoimentos que vão expor Governo Bolsonaro

Os ex-ministros Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello prestarão os depoimentos mais esperados pelos senadores, que também ouvirão médicas defensoras da cloroquina.
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A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 terá duas semanas cheias com depoimentos que abrirão o entendimento dos senadores sobre diplomacia, uso de cloroquina e desabastecimento de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), elemento essencial para a produção das vacinas produzidas no Brasil pelos institutos Butantan e Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Na terça-feira (18) será a vez do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Os senadores vão interrogá-lo sobre as agressões de autoridades brasileiras – ele incluído – à China, principal parceiro comercial do país e único produtor de IFA para a CoronaVac, do Butantan, e da vacina Astrazeneca, produzida pela Fiocruz.

Ernesto Araújo se notabilizou por avalizar essas agressões, principalmente em relação ao embaixador da China, Wang Wyaming, que teve sua remoção do Brasil pedida por Ernesto ao governo chinês.

Por conta dessa postura hostil ao país asiático, o diretor-presidente do Butantan, Dimas Covas, afirmou que o governo chinês colocou uma série de entraves burocráticos para liberar novos lotes de IFA da CoronaVac, o que paralisou a produção da principal vacina usada no País nesta quinta-feira (13).

Ex-ministro quer ficar calado

Espera-se que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello fale, na quarta-feira (19), à CPI. Sua oitiva é a mais esperada pelos senadores da Comissão.

Acontece que, ainda hoje (14), Pazuello pode conseguir um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) garantindo-lhe o direito de ficar calado diante das perguntas dos senadores e também de não ser preso, caso seja pego na mentira.

De qualquer modo, Pazuello terá de ir até a CPI. Dele são esperados esclarecimentos sobre compra de vacina, uso de cloroquina e ivermectina como tratamento precoce e crise do abastecimento de oxigênio em Manaus. Todos são temas considerados explosivos e de grande impacto sobre o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), tanto que o presidente mobilizou a Advocacia-Geral da União (AGU) para conseguir o habeas corpus para Pazuello.

‘Capitã Cloroquina’

No dia 20, quinta-feira, outra personagem que poderá implodir o Governo Federal é aguardada na CPI: Mayra Pinheiro, a ‘Capitã Cloroquina’. A médica cearense era gerente de Educação e Tecnologias do Ministério da Saúde na gestão de Pazuello e ficou famosa por prescrever cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com Covid, embora não se tenha a comprovação da eficácia dessas medicações no combate à doença.

Pega contra a sua atuação também o fato de, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, ela ter liderado uma equipe do Ministério da Saúde que percorreu Unidades Básicas de Saúde da capital amazonense pregando o tratamento precoce e recomendando o uso imediato das medicações polêmicas.

Embora não esteja agendado, o depoimento da médica Nise Yamaguchi, defensora do uso da cloroquina, deve ser junto com a da ‘Capitã Cloroquina’.

Produtores de vacinas

A semana seguinte será dedicada pelos senadores a ouvir os representantes dos institutos Butantan, produtor da CoronaVac; e Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Aztrazenca; e o proprietário da farmacêutica União Química, que pretende importar e produzir no Brasil a vacina russa Sputnik V.

O presidente do Butantan, Dimas Covas, será ouvido na terça-feira (25) e, dele, os senadores vão querer saber se as posturas hostis de autoridades brasileiras em relação à China prejudicaram a entregas de IFAs, bem como os detalhes da proposta do Instituto feita no ano passado, para fornecer 160 milhões de doses da CoronaVac ao Governo Federal – proposta que ficou sem resposta.

Na quarta-feira (26), será a vez da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima. Ela irá falar sobre o acordo feito entre o governo brasileiro, a universidade de Oxford e a farmacêutica AztraZeneca para a produção da vacina desenvolvida por eles no Brasil. Esse acordo prevê a transferência de tecnologia para a produção do IFA no laboratório Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro, mas que está empacado devido ao fato do desenvolver chinês estar atrasando o repasse da tecnologia, também em função das hostilidades do governo brasileiro.

Por fim, na quinta-feira (27), será ouvido o presidente da União Química e ex-deputado federal, Rogério Rosso, que tem acusado a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de má vontade para a aprovação do uso emergencial e importação da vacina Sputnik, que tem lotes de mais 40 milhões de doses negociadas com o Ministério da Saúde e os consórcios de governadores de Nordeste e do Norte.

Texto: Gerson Severo Dantas

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