quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Denúncia da Reuters lança dúvidas sobre mercado de carbono que movimenta bilhões no Brasil

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Amazônia destrava mercado de carbono e prevê R$ 8 bilhões em créditos ambientais (Foto: Reprodução/Stoke Adobe)
(Foto: Reprodução/Stoke Adobe)

Empresas e governos de todo o mundo investiram bilhões em projetos de conservação na Amazônia brasileira com a promessa de preservar a floresta em troca de créditos de carbono.

No entanto, uma investigação da agência Reuters revelou que parte desses recursos tem beneficiado diretamente pessoas e empresas que já foram autuadas por desmatamento ilegal, inclusive dentro das áreas que deveriam ser protegidas.

A análise incluiu 36 projetos de compensação voluntária de carbono certificados pelas maiores entidades do setor, como Verra e Cercarbono.

Em 24 deles, os principais responsáveis já haviam sido punidos pelo Ibama por infrações como corte ilegal de árvores, transporte sem licença e inserção de dados falsos em sistemas oficiais de controle de madeira.

Em pelo menos cinco projetos, os responsáveis foram multados por extrair madeira dentro da área que declararam preservar. Apesar disso, não há indícios de que os projetos estejam tecnicamente descumprindo os critérios formais de certificação.

Segundo Raoni Rajão, ex-diretor do programa de combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, o caso mostra uma distorção no modelo:

“É um fracasso de toda a ideia. Estão financiando quem contribui com o desmatamento”, disse. “Eles podem estar reduzindo o desmatamento em um lugar, mas aumentando as emissões em outro lugar com esses mesmos recursos.”

O caso Stoppe: de médico a alvo da PF

Um dos principais nomes do mercado brasileiro de créditos de carbono é Ricardo Stoppe Jr., médico de formação, que se apresentou por anos como o “maior empresário de carbono do mundo”.

Ele foi preso em 2024, na Operação Greenwashing da Polícia Federal, acusado de liderar uma organização criminosa que fraudava títulos de terra e lavava madeira ilegal com uso de projetos de carbono.

Segundo relatório da PF, Stoppe utilizou seus projetos para esquentar mais de 1,1 milhão de m³ de madeira extraída ilegalmente, além de subornar servidores públicos e ocupar áreas de domínio federal. Os projetos registrados por ele na Verra movimentaram US$ 15 milhões desde 2020, mesmo com histórico de multas do Ibama desde 2014.

Após as denúncias, a Verra suspendeu os projetos vinculados a Stoppe. A Cercarbono também anunciou investigações formais sobre os casos citados na apuração.

Projeto ambiental como fachada

A proposta de Stoppe para a Verra mencionava ameaças de grilagem e extração ilegal por terceiros como justificativa para o projeto “Unitor”.

No entanto, o relatório policial afirma que o próprio grupo de Stoppe criou o risco que usava para vender créditos. Ao lado do projeto Ituxi, ele registrou “planos de manejo florestal” usados, segundo a PF, para legalizar madeira de origem clandestina.

O líder indígena Edivan Kaxarari, que recusou parceria com Stoppe, disse à Reuters:

“Se a pessoa está trabalhando nesse projeto do gás carbônico, como é que ele está desmatando? Alguma coisa errada tem.”

Os dados de fiscalização mostram pelo menos 18 novas multas aplicadas ao grupo após o início dos projetos, inclusive dentro das áreas registradas como preservadas.

Impacto global e COP30 no horizonte

O mercado voluntário de carbono movimentou US$ 7,6 bilhões nos últimos cinco anos, segundo a AlliedOffsets. Com a COP30 marcada para novembro em Belém, o Brasil tenta se posicionar como líder climático global, e as descobertas da Reuters colocam em xeque a credibilidade do setor.

Segundo Cristina Reis, do Ministério da Fazenda, o caso expõe os desafios de regulamentação. O país aprovou em 2023 a criação de um mercado regulado de carbono, que ainda será implementado. “As descobertas são bastante graves”, disse ela.

O Ministério do Meio Ambiente afirmou que os dados do Ibama devem ser utilizados como base para verificação de projetos de carbono. O órgão não comentou os casos específicos envolvendo Stoppe e outros investigados.

*Com informações do G1

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