O cientista político Jairo Nicolau defendeu, durante seminário do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, que a democracia brasileira está passando por mudanças profundas causadas pela maior participação das mulheres e o envelhecimento da população.
Direto do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) da Universidade Candido Mendes (UCAM), Jairo Nicolau analisou dados inéditos obtidos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as eleições de 2022 e concluiu que a democracia brasileira está sendo impactada pela nova demografia.
“Em 12 anos, cidades como o Rio de Janeiro, Salvador e Belém perderam até 200 mil habitantes, com impactos em tudo: são menos crianças nas escolas, menos eleitores nas urnas, enfim: há um processo rápido de encolhimento da população e isso impacta nossa democracia”, concluiu.
Ainda analisando os dados da eleição do ano passado, Jairo Nicolau mostrou que os cortes de análise mostram caminhos ideológicos diferentes tomados pelo eleitor. Segundo Jairo Nicolau essas são as principais sinalizações dadas pela análise da nova demografia brasileira sobre a democracia:
- Uma queda na participação dos jovens de 16 a 18 anos que têm a opção de votar: “Curiosamente eles tiram o título eleitoral, mas não foram as urnas votar”, concluiu Jairo.
- Houve a menor participação dos jovens de 18 a 24 anos da história. “Há um descolamento da imagem do jovem de 20 ou 30 anos atrás, que eram de esquerda, faziam reivindicações e iam às ruas. Hoje, me parece, este jovem está correndo nas ruas entregando lanches, fazendo Uber. Eles têm preocupações mais com o mundo do trabalho”, afirmou;
- Eleitores com escolaridade do Ensino Fundamental para baixo foram os que menos compareceram às urnas. “Isso prejudicou a eleição do presidente Lula, pois nesse grupo ele tinha maior vantagem”. lembrou.
- O eleitor de maior escolaridade migrou para a direita e votou majoritariamente no ex-presidente Jair Bolsonaro. “Isso não aconteceria há 15 anos, houve uma mudança grande nesta fatia do eleitorado”, analisou Jairo.
- Houve maior participação das mulheres em todas as faixas etárias, com exceção do eleitorado com mais de 70 anos, e em todas as faixas de escolaridade. “Isso mostra duas coisas: as mulheres passam mais tempo na escola, estão mais escolarizadas que os homens. Isso para sorte do Lula, pois as pesquisas mostraram que nesta fatia do eleitorado ele tinha ampla maioria, enquanto entre os homens havia uma divisão praticamente igual”, comparou o cientista.
- Por fim, ainda analisando os dados do TSE sobre a eleição de 2022, Jairo Nicolau constatou que são as mulheres que mais justificam a ausência nas urnas. “Talvez aqui tenha uma preocupação de cidadania, pois sem o voto não se disputa concurso público, não se tira passaporte, não se faz uma série de coisas. Essa é uma explicação possível para mais mulheres que homens irem até a Justiça Eleitoral justificar a ausência nas urnas”, concluiu.
Sobre a evolução do quadro demográfico apresentado por Jairo Nicolau e os impactos dela na democracia brasileira, a professora-doutora Marilene Corrêa comentou:
Democracia com ou sem voto obrigatório
Outro ponto ressaltado durante a apresentação do cientista político Jairo Nicolau no seminário do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal é o impacto do voto obrigatório nas eleições e no resultado delas para a democracia.
O voto obrigatório, na análise dele, é adotado em poucos países desenvolvidos, como a Bélgica, na Europa; e na Austrália, na Oceania; e em todos os lugares onde é adotado tem como ideia central reduzir as desigualdades e equilibrar a democracia.
“Nas principais democracias do mundo o voto é facultativo e isso amplia a desigualdade, mas curiosamente este perfil desigual já é visto no Brasil, onde o voto é obrigatório. Então fica a pergunta: vale a pena manter o voto obrigatório”, comentou Jairo Nicolau.
Essa questão do voto obrigatório também ensejou outra reflexão importante para Nicolau, pois após faltar a duas eleições o cidadão é retirado do sistema na terceira.
“Então estamos vendo no atual momento que uma parte do eleitorado está saindo do sistema exatamente por não estarem indo votar. Eis um bom tema para estudos futuros”, concluiu.
Sobre estes impactos da escolaridade, voto obrigatório e tendências ideológicas do eleitorado trazidas por Jairo Nicolau, o professor de Ciência Política da Ufam Ludolf Waldmann comentou:
O Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal é uma rede de pesquisadores ligados a 17 laboratórios e coordenados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro que analisa questões políticas tratadas no âmbito dos estados da região.
Os resultados dessas pesquisas é divulgado em em boletins no site Legal — Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (legal-amazonia.org). O seminário desta semana foi realizado no auditório Rio Negro, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com público presencial e também de modo virtual.

Rio Negro, da Ufam