A reportagem ‘Cabo eleitoral de David Almeida e professor de Zumba: saiba quem é o dono da roda-gigante em Manaus’, publicada pela Revista Cenarium acendeu o alerta sobre um padrão que estaria se repetindo na gestão de David Almeida (Avante): o contínuo favorecimento de empresas ligadas a amigos, aliados políticos e familiares em contratos da Prefeitura.
Se a roda-gigante fosse apenas uma atração turística, talvez as críticas fossem apenas quanto sua utilidade. Mas ela virou símbolo de um “padrão viciado”, permitindo que uma empresa ‘liderada’ por um cabo eleitoral assumisse um contrato público sem edital, sem documentação, sem clareza.
O episódio traz à tona aquilo que há meses vem sendo denunciado e exposto inclusive pela mídia nacional: de que quem circula no entorno do prefeito pode acabar recebendo contratos — por vezes milionários — mesmo sem comprovação pública de licitação ou legitimidade da operação.
Portanto o problema vai além da roda-gigante.
‘Laços’ que custam milhões à cidade
A empresa Murb Manutenção e Serviços Urbanos Ltda., responsável pela limpeza urbana da capital, conseguiu renovar recentemente um contrato de R$ 114,8 milhões com o município — mesmo sendo controlada por José Curcino Monteiro Neto, padrinho de casamento de David Almeida com Izabelle Fontenelle.
Somando os valores desde 2022, a Murb e outra empresa de Curcino, a Construtora Rio Piorini Ltda., ultrapassam a marca de R$ 500 milhões em contratos com a Prefeitura. O que eleva mais ainda os questionamentos sobre a real competitividade dos processos de contratação.
A polêmica não se limita ao padrinho. A mãe da primeira-dama, Lidiane Fontenelle, chegou a aparecer como administradora da Murb em contrato entre 2022 e 2023. Durante esse período, a empresa recebeu mais de R$ 300 milhões da gestão municipal.
Há ainda a microempresa L.O. Fênix — da sogra do prefeito — que emitiu notas fiscais para a Rio Piorini poucos dias após sua fundação.
As ligações empresariais e familiares entre os contratados e o próprio núcleo do poder municipal levantam uma dúvida grave: o princípio da impessoalidade está sendo respeitado na gestão de David Almeida?
| EMPRESA/FORNECEDORA | OBJETO/TIPO DE CONTRATO | VALORES/PERÍODO/ADITIVOS | VÍNCULO COM DAVID ALMEIDA |
| Murb Manutenção e Serviços Urbanos Ltda. | Limpeza urbana, conservação de vias, logradouros públicos de Manaus (via Semulsp) | – Contrato original (2022): R$ 48.000.189,90; – Renovação / novo contrato (outubro 2023): R$ 114.827.999,88; – Aditivo prorrogando para mais 12 meses: R$ 114,8 milhões, publicado 31/out/2024; Aditivo mais recente (2025): contrato segue ativo — também alvo de investigação pela Polícia Federal (PF); – Segundo investigação via Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), entre 2021 e 2025 a Prefeitura celebrou contratos, termos aditivos e renovações que somam aprox. R$ 198,1 milhões com um grupo de empresas que inclui a Murb. | – A Murb é controlada por sócios ligados a pessoas próximas do prefeito — em especial, o empresário José Curcino Monteiro Neto, seu padrinho de casamento; – A mãe da primeira-dama (sogra do prefeito), Lidiane Oliveira Fontenelle, já apareceu como administradora da Murb em 2022. |
| Construtora Rio Piorini Ltda. | Serviços de transporte/locação de veículos automotores para manutenção, obras e infraestrutura da Prefeitura (via Seminf) | – Contrato assinado em outubro de 2023: R$ 32,5 milhões; – Aditivo ou renovação em abril de 2024: + R$ 32,5 milhões → totalizando R$ 65 milhões; – Em 2025, novo aditivo/contrato de R$ 23.478.493,60, conforme Diário Oficial, prorrogando prestação de serviços por 183 dias. | – A empresa é de propriedade de José Curcino Monteiro Neto — o mesmo empresário da Murb; – Há vínculo da empresa com a microempresa da sogra do prefeito: a microempresa L.O. Fênix, de Lidiane Fontenelle, prestou serviços de apoio/consultoria à Rio Piorini e emitiu notas fiscais entre nov/2023 e abr/2024. |
| Microempresa L.O. Fênix | Prestação de serviços de consultoria/serviços administrativos para a Construtora Rio Piorini | Emissão de pelo menos seis notas fiscais entre nov/2023 e abr/2024 — média de R$ 20 mil por mês, totalizando R$ 124 mil. | A L.O. Fênix pertence à sogra do prefeito, Lidiane Fontenelle. |
Transparência? Apenas no discurso
O discurso oficial da gestão Almeida – inclusive formalizado desde seu primeiro programa de governo registrado junto ao TRE-AM – repete que os processos de licitação seriam amplos, transparentes e que há rigor nos controles internos.
Mas a realidade prática mostra que contratos milionários são renovados sem concorrência real; empresas surgem abruptamente no radar público; parentes do prefeito ou da primeira-dama aparecem diretamente vinculados aos contratos; e, mesmo com a eficiência proclamada, os serviços nem sempre são entregues como deveriam (como o caso da limpeza urbana, onde há queixas de lixo acumulado e ruas abandonadas, mesmo com repasses robustos à contratada).
Para complicar, quando surgem denúncias — como as relativas à viagem de luxo do prefeito paga por empresários contratados pela Prefeitura — a fiscalização interna é seletiva, e muitos processos acabam protelados por “liminares” ou decisões judiciais beneficiando aliados.
Resultado: a transparência virou fachada.
Vale a pena ser doador das campanhas de David Almeida?
As conexões entre negócios e política na gestão de David Almeida não param nos contratos ligados a familiares, padrinhos e aliados. Outra reportagem da Revista Cenarium revelou que até doadores de campanha aparecem contemplados com contratos de alto valor na Prefeitura.
Um dos exemplos mais recentes é o da P1 Construtora Ltda., empresa administrada por Frank Luiz Queiroz da Frota, que doou R$ 17 mil para a campanha de reeleição do prefeito em 2024.

Menos de um ano depois, em 7 de novembro de 2025, a empresa foi contratada pela Semtepi por R$ 21,7 milhões para fornecer mão de obra em serviços de manutenção e reparação de prédios e espaços públicos.

O extrato da contratação deixa claro que o acordo tem vigência inicial de um ano. A empresa não é novata no universo de contratos com a Prefeitura: já havia sido citada em uma decisão da Justiça Eleitoral em 2024, quando o uso de pinturas padronizadas pela gestão municipal em escolas — executadas pela P1 — foi questionado por suposta vantagem eleitoral.
Mas o que chama atenção é a coincidência recorrente: quem financia a campanha acaba, em muitos casos, prestando serviços milionários ao município depois.
A legislação eleitoral permite doações de pessoas físicas, desde que dentro dos limites. O problema não está na doação, e sim na repetição de um padrão que levanta dúvidas: por que tantos doadores, amigos, padrinhos ou familiares do entorno político do prefeito acabam sendo justamente os mais bem posicionados para atender — e lucrar — com contratos públicos?