Há exatos 50 anos, em 15 de novembro de 1974, o eleitor amazonense contribuiu para mudar os rumos da ditadura militar instaurada no Brasil dez anos antes e colocou no Senado Federal um dos políticos mais intrigantes e polêmicos do século passado: Evandro Carreira.
Na disputa, Carreira derrotou o então senador Flávio Brito (Arena), que havia sido eleito suplente do senador Álvaro Maia (Arena) e assumiu o cargo em 1969, após o falecimento do titular.
A chapa do MDB era composta por Evandro Carreira, com Rui Adriano Jorge na suplência. Já Flávio Brito tinha como suplente Leopoldo Cirilo Krichanã da Silva. Evandro e Adriano Jorge venceram com 87.103 votos (60,27%) contra 57.411 (39,73%) da dupla arenista.
A eleição que desafiou a ditadura
Mais do que a realização de eleições em meio a um período ditatorial, o resultado daquela disputa possui grande relevância para a história do país.
Na ocasião, em que existiam apenas dois partidos — a Aliança Renovadora Nacional (Arena), governista, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição — os emedebistas elegeram 16 senadores entre as 22 vagas em disputa (esse era o número de estados com representação no Senado na época).
Naquele tempo, os atuais estados de Roraima, Rondônia e Acre eram Territórios Federais e não tinham representantes no Senado, assim como ainda não havia sido criado o estado do Tocantins, cujo território pertencia a Goiás. O Distrito Federal também não possuía representatividade no Senado.
O MDB obteve ainda 335 dos 787 deputados estaduais e 160 dos 364 deputados federais, aumentando significativamente suas bancadas nas assembleias, na Câmara e no Senado Federal.
O fenômeno Carreira impulsionou a chapa de candidatos a deputado federal pelo Amazonas, que elegeu três do MDB e dois da Arena. Pelo MDB, foram eleitos Mário Frota, Joel Ferreira e Antunes de Oliveira. A Arena reelegeu Rafael Faraco e Raimundo Parente.
Na Assembleia Legislativa, foram eleitos oito deputados estaduais do MDB e sete da Arena, completando o ciclo de vitória parlamentar do partido de oposição à ditadura militar.
Com esse perfil opositor, o Amazonas e mais sete estados brasileiros ajudaram a pôr fim à ditadura militar onze anos depois.
Deputados Estaduais eleitos em 1974:
- Natanael Bento Rodrigues (MDB): 12.998 votos;
- José Cardoso Dutra (MDB) 8.655;
- Damião Alves Ribeiro (MDB) 8.079;
- Carlos Farias Ouro de Carvalho (MDB): 6.413;
- Aloísio Rodrigues de Oliveira (MDB) 5.333;
- Gláucio Bentes Gonçalves (Arena): 4.827;
- Domingos Sávio de Lima (Arena): 4.657;
- Jurandir Cleuter Mendonça (Arena): 4.615;
- Homero de Miranda Leão (Arena): 4.581;
- Manoel Monteiro Diz (MDB): 4.460;
- José Belo Ferreira (Arena): 4.352;
- José Costa de Aquino, o “Carrapeta” (MDB): 4.279;
- Eunice Michiles (Arena): 4.172;
- Paulo Pedraça Sampaio (MDB): 4.040;
- Maria do Perpétuo Socorro Dutra (Arena): 3.954.
A trajetória de Evandro Carreira no Senado Federal
Ao chegar ao Senado em março de 1975, Evandro Carreira logo marcou sua trajetória parlamentar como defensor da preservação da Amazônia e das potencialidades econômicas da região, temas que só se tornaram parte da “ordem do dia” do povo brasileiro neste século.
Sua defesa da Amazônia o levou a protagonizar o filme Terceiro Milênio, do cineasta Jorge Bodansky, causando escândalo no mundo político ao aparecer quase o filme inteiro vestindo apenas uma “sunga” de banho.

“Terceiro milênio acompanha o ex-senador do Amazonas Evandro Carreira (1927–2015) em um comício político ao longo do rio Solimões. Carreira e uma pequena equipe zarpam em um barco rio abaixo de Tabatinga — na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia — até a capital do estado, Manaus. No caminho, visitam os povos Maiuruna e Ticuna, conversam com um grupo de madeireiros, agentes da Funai (Fundação Nacional do Índio), caboclos, indigenistas, ativistas e assistentes sociais. Filmaram também uma comunidade religiosa ultraconservadora liderada pelo missionário José da Cruz (1913–1982), a Ordem Cruzada Católica, Apostólica e Evangélica, que reunia mais de 30.000 indígenas. Apesar da seriedade das questões em jogo, Terceiro milênio
é um delirante “no-road movie” (filme sem estrada), percorrendo rios ao invés de estradas. A excentricidade afetada de Carreira dá tons ficcionais ao personagem, tanto que muitas pessoas que assistiram ao filme na época perguntavam se Carreira era, de fato, um ator contratado para o papel“.
*Trecho da crítica ao filme Terceiro Milênio da pesquisadora Marina Bedran, traduzido por Flávia França e Nícolas Llano
Tribuno do grupo MDB autêntico
Notabilizado no Amazonas por discursos rebuscados, Evandro Carreira formou o que ficou conhecido na história política dos anos 70 como o Grupo Autêntico do MDB, uma oposição firme aos ditadores em exercício, liderada principalmente pelo deputado federal Ulisses Guimarães.
Apesar de cumprir apenas um mandato no Senado, Evandro teve uma longa trajetória política no Amazonas e chegou a disputar o governo do Estado contra Gilberto Mestrinho, cujo símbolo de governo era um timão. Isso deu a Evandro a oportunidade de criar um de seus bordões mais famosos contra o “velho Boto Tucuxi”: “A maldição da Rodela”.
Além da política, Evandro foi um escritor prolífico, e sua obra intelectual reflete suas preocupações com a Amazônia e o modo de vida de seu povo. Confira algumas de suas publicações, editadas pela gráfica do Senado Federal.
- Amazônia envenenada pela dioxina. Brasília: Senado Federal , 1977. 44 pg.
- Amazônia : usina de alimentos para o terceiro milênio 1985. 64 pg.
- A biota amazônica e a energia nuclear. 1978. 26 p.
- A consciência cósmica do índio. 1978. 15 pg.
- Contra a venda da floresta amazônica. 1979. 36 pg.
- Ecologia: meio-ambiente é o grande problema? 1979. 26 pg.
- O extrativismo preservou a Amazônia.1978. 18 pg.
- A igreja e a ecologia. 1982. 14 pg.
- Multinacionais cobiçam Amazônia – projeto jari, ponta de lança internacional. 1975. 21 pg.
- Ocupação da Amazônia : preço sedutor para a borracha. 1975. 13 pg.
- Olho no olho : a economicidade da Amazônia está no peixe. 1979. 28 pg.
- Pecuária, câncer da Amazônia. Brasília: 1981. 10 pg.
- Recado amazônico. 1975. v. il.
- A revolução, a droga e a subversão. 1978. 32 pg.
Confira as publicações de Evandro Carreira, na biblioteca virtual do Senado Federal, AQUI.
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