quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Brasil não reduz analfabetismo funcional e Amazonas tem 50 cidades acima da média nacional

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Acesso limitado à alfabetização ainda atinge milhões de brasileiros. (Foto: José da Silva)

Três em cada dez brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Esse grupo, que não consegue compreender frases simples, interpretar informações básicas ou realizar operações matemáticas cotidianas, representa 29% da população, o mesmo índice registrado em 2018.

A estagnação foi revelada na edição mais recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgada nesta segunda-feira (5).

Realizada após seis anos de interrupção, a pesquisa nacional avaliou habilidades de leitura, escrita e matemática em uma amostra representativa de 2.554 pessoas em todas as regiões do país. A nova edição também incluiu, pela primeira vez, dados sobre alfabetismo no contexto digital.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, o cenário é de piora. Em 2018, 14% estavam na condição de analfabetos funcionais. Em 2024, o número subiu para 16%.

O relatório aponta que o aumento pode ter ocorrido por causa da pandemia, período em que as escolas fecharam e muitos jovens ficaram sem aulas.

“Um resultado melhor só pode ser alcançado com políticas públicas significativas no campo da educação e não só da educação, também na redução das desigualdades e nas condições de vida da população”, segundo Roberto Catelli, coordenador da área de educação de jovens e adultos da Ação Educativa.

Norte tem 57% da população com alfabetismo insuficiente

No Norte do Brasil, os dados revelam que 57% da população entre 15 e 64 anos ainda está abaixo do nível considerado adequado de letramento.

Desse total, 22% são analfabetos funcionais e 35% estão no nível elementar. Apenas 43% da população da região apresenta alfabetismo consolidado.

Os dados da série histórica do Inaf mostram que, apesar de oscilações ao longo dos anos, a taxa de analfabetos funcionais no Norte se mantém elevada desde 2011.

A escolaridade segue como fator determinante. Entre aqueles que cursaram apenas os anos iniciais do ensino fundamental, 80% permanecem como analfabetos funcionais. Já entre os que concluíram os anos finais, 43% ainda não atingiram o nível consolidado de alfabetização.

Interior do Amazonas

Dados compilados pelo Ministério da Educação mostram que 50 dos 62 municípios do Amazonas possuem taxas de analfabetismo acima da média nacional, que é de 7%, segundo o Censo 2022.

O município com o pior desempenho é Itamarati, com 26,44% da população com 15 anos ou mais sem saber ler e escrever. Na sequência aparecem Envira (26,31%) e Eirunepé (25,28%).

Outros municípios com taxas elevadas incluem Ipixuna (24,16%), Pauini (24,12%), Atalaia do Norte (22,82%), Guajará (22,36%), Barcelos (21,29%), Tapauá (20,81%) e Juruá (20,64%). Ao todo, o Amazonas tem 197.146 pessoas com mais de 15 anos em condição de analfabetismo.

Na capital, Manaus, o índice é bem inferior à média nacional: apenas 2,98% da população com 15 anos ou mais não é alfabetizada.

Outras 11 cidades amazonenses também registram taxas abaixo da média, como Parintins (4,07%), Boa Vista do Ramos (4,37%) e Silves (5,51%).

Desigualdades raciais e de escolaridade

O Inaf também expõe desigualdades raciais no acesso ao letramento pleno. Entre os brancos, 28% são analfabetos funcionais. Entre negros, o índice sobe para 30%. A situação é mais grave entre indígenas e pessoas amarelas: 47% são analfabetos funcionais, e apenas 19% têm alfabetismo consolidado.

O cruzamento dos dados com a escolaridade revela que o ensino formal, embora influente, não garante domínio pleno da leitura e da escrita. Entre os que concluíram o ensino superior, 12% ainda são analfabetos funcionais. Por outro lado, apenas 10% de toda a população brasileira estão no nível mais alto de alfabetismo, classificado como “proficiente”.

Para Esmeralda Macana, coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, “a gente vai precisar melhorar o ritmo de como estão acontecendo as coisas porque estamos já em um ambiente muito mais acelerado, em meio a tecnologias, à inteligência artificial”.

Ela defende ainda que é preciso “aumentar a qualidade” e garantir o aprendizado adequado na educação básica.

O estudo é coordenado pela Ação Educativa e pela consultoria Conhecimento Social. A edição de 2024 foi realizada em parceria com a Fundação Itaú, Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Unesco e Unicef. A margem de erro é de dois a três pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.

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