quarta-feira, 23 de setembro de 2026
EDUCAÇÃO

Analfabetismo ainda é realidade para mais de 25% da população do AM

Doutora em Educação analisa as diversas causas do analfabetismo no Estado, cuja responsabilidade é dos municípios.
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Criança escreve em caderno Foto: Freepik

Não conseguir ler nem mesmo o título desta reportagem é a realidade para 10,60% da população que mora no Amazonas. Outros 14,80% conseguem ler, mas nem sempre entendem: são os analfabetos funcionais. Somados, os analfabetos e os analfabetos funcionais no Estado são 25,4% da população.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O analfabetismo no estado pode ter diversas causas como por exemplo formação fragmentada de professores, classes multisseriadas, questões sazonais, distâncias geográficas.

Para Raiolanda Camargo, professora doutora em educação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), os dados do PNAD não traduzem a realidade vivida pela ausência de alfabetização no estado, uma vez que esse levantamento não é um censo, mas sim um amostragem por determinados domicílios, o que significa que o índice pode ser maior que o divulgado.

Além disso, outra problemática que contribui para a ausência de alfabetização na população do Amazonas, de acordo com Raiolanda, é a de alunos que são “avançados” nas séries sem saber ler ou escrever, em obediência às exigências do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

“Crianças avançam na escola sem ter seus direitos humanos garantidos. São treinados para responder à prova e o aluno vai avançando. Temos um desafio muito grande para vencer. Esse fracasso não é pontual da região Norte, ele atinge o Brasil como um todo. Quando a gente fala do Amazonas, temos diversas variáveis que vão contribuir com esse percentual de analfabetismo no estado”, comentou.

A professora doutora afirmou que questões geográficas do Amazonas, região que tem clima sazonal, período da cheia, da vazante, potencializam um processo migratório.

“Isso acaba com que essas crianças não frequentem a escola regulamente. Esse processo migratório não acontece de um município para outro, mas de pessoas que migram para a capital. Temos distâncias que são grandes, de comunidade para a sede do município”, disse.

Déficit na formação dos professores

Segundo a professora doutora Raiolanda, o processo de alfabetização demanda presença dos professores, porém, alguns não possuem ensino superior e isso acaba influenciando no que é passado em sala de aula.

“Nós temos um programa do Governo Federal para oportunizar o ensino superior para os professores que estão em exercício, trabalhando nos municípios, mas têm apenas a formação em nível médio. Muitos desses professores estão tendo só agora uma formação especifica para trabalhar nos anos iniciais. são professores que receberam educação fragmentada, porque foram formados por professores que também não tinham o ensino superior e vão para uma sala de aula formar, contribuir nesse processo de escolarização dessas crianças com os conhecimentos que eles dispõem. É como se a gente tivesse um ciclo vicioso que a gente precisa romper”, explicou.

Não há respeito pelo calendário produtivo da região

De acordo com o antropólogo e coordenador do Núcleo de Cultura Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Ademir Ramos, pela necessidade os jovens abandonam a escola, sobretudo na Amazônia.

“A escola não respeita o calendário produtivo da região, como o tempo de pesca, de caça, queimadas e etc. Quanto mais divorciada a escola seja da cultura popular, pior será para a formação desses agentes na nossa população local. É preciso pensar projetos educacionais específicos de acordo com a diversidade cultural que nós temos; essa é a nossa grande preocupação, em termos de sociedade local; projeto de uma escola de Manaus não pode ser transplantado para uma escola rural, uma escola indígena, é preciso ser pensado o modelo local”, disse.

Ademir Ramos defende ainda que o conceito de analfabeto é valido apenas para o contexto urbano. “O analfabeto é aquele que não tem acesso à escola. Culturalmente essa definição não é correta, porque ele tem uma leitura do mundo, um discernimento, juízo. A primeira coisa é estabelecer uma diferença. O analfabeto não tem acesso ao trabalho, à cultura, no contexto urbano. O conceito de analfabeto não é eficaz para se compreender o homem do campo, o homem do interior, o homem da aldeia”, explicou o antropólogo.

Cenário da educação é desanimador e caótico

A pedagoga Deborah Barboza vê o cenário da educação como desanimador e caótico e aponta que mudanças de gestão e cenário político interferem na educação e prejudicam alunos e professores.

“Enfrentamos problemas de burocracia que só nos atrapalham e engessam o nosso trabalho. Enfrentamos problemas estruturais que nos limitam de simplesmente nos locomover em muitas escolas, que dirá de pensar em propor atividades fora do metro quadrado das salas. Enfrentamos problemas de escassez de materiais que nos forçam a tirar dinheiro do próprio bolso para oferecer atividades adequadas e agradáveis”.

Deborah reafirmou ainda que a alfabetização “infelizmente não chega a todas as crianças”, e que existe ainda “uma exclusão muitas vezes de classe social, localidade”.

Para ela, uma mudança no cenário deve começar com a não interferência política nas escolas, realização de concursos públicos e autonomia para as escolas definirem seus projetos, planejamentos, cronogramas e materiais didáticos.

“Sistematizar processos burocráticos, garantir mediadores formados para os alunos que necessitam de atendimento especializado e ter nas escolas psicólogos para atendimento para alunos e professores, reduzir número de alunos por turma e fornecer materiais de qualidade”, finalizou a pedagoga.

O Real Time1 enviou uma solicitação de informação à assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação (Semed) de informação sobre dados de investimento em educação básica e projetos para sanar a problemática do analfabetismo em Manaus, porém, até a publicação desta matéria, não houve resposta.

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