Os artistas amazonenses Tércio Silva e Rafael Ramos, reconhecidos por sua entrega e dramaturgia no palco, recriam o conto “O Alienista”, de Machado de Assis. O longa-metragem, intitulado “A Casa Verde”, está em pleno processo de criação e traz elementos da cultura amazônica, que foram filmados nas ruínas históricas de Paricatuba (distante 46 km de Manaus). O novo roteiro deve ser concluído nos próximos meses.
O projeto foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo no edital nº 01/2023, promovido pelo Governo do Amazonas, por meio do Conselho Estadual de Cultura (CONEC) e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, e pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC).
Tércio Silva, fundador da Buia Teatro Company, conta que o roteiro do filme articula linguagens literárias, teatral, mítica e cinematográfica, tendo como premissa a construção de uma fábula crítica. Segundo Tércio ao lado da artista Maria Hagge, elementos como, formigas que guiam caminhos, peixes que caem do céu, árvores que falam, rituais com ervas do rio e sonhos em que a água se transforma em espelho, compõem a narrativa do filme.
“Colocar a Amazônia no centro não é só uma escolha estética, é um reposicionamento político e simbólico. Por muito tempo fomos reduzidos a locação exótica nas histórias dos outros. Com A Casa Verde, a floresta pensa, sente, critica. E isso só é possível porque políticas públicas como a Lei Paulo Gustavo permitem que outras vozes, como a nossa, ocupem o cinema brasileiro com autonomia e profundidade. Incentivo não é favor — é ferramenta de mudança de rota”, afirma o diretor e dramaturgo, que, embora já tenha colaborado no longa “O Rio do Desejo”, de Sérgio Machado (gravado em Itacoatiara com Sophie Charlotte e Daniel de Oliveira), participa pela primeira vez diretamente de um roteiro de produção de longa-metragem.
Já Rafael complementa que a narrativa não apenas homenageia Machado como também ecoa a urgência das ideias do líder indígena Ailton Krenak e dialoga diretamente com o legado do realismo fantástico latino-americano.
‘A Casa Verde’
A adaptação livre do conto do principal autor do realismo brasileiro, Machado de Assis, se entrelaça ao pensamento filosófico e cosmológico do líder indígena Ailton Krenak e traz como cenário principal as imediações das ruínas de Paricatuba, local onde funcionou uma antiga leprosaria no Amazonas e que se transforma no ficcional hospital psiquiátrico “Casa Verde”, onde a sociedade interna os que não cabem nas normas.
No enredo, o protagonista Dr. Bacamarte é um médico negro e homossexual que vê sua tentativa de definir a loucura ruir diante de seus próprios traumas e contradições. Uma das personagens centrais é Lua, uma menina silenciada que carrega no pescoço placas com frases como “Não confie em médicos”.
Com abordagem de drama simbólico, ficção amazônica e realismo fantástico, o roteiro homenageia Machado de Assis, reproduzindo sua crítica às estruturas de poder, e incorpora reflexões de Krenak, propondo uma reconexão com o planeta como organismo vivo e sensível.
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