quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Escolhas de Haddad para compor governo dividem especialistas

Para alguns, as nomeações para o Tesouro Nacional, Receita Federal, Política Econômica e Reformas parecem um repeteco do governo Dilma Rousseff (PT).
COMPARTILHE
Fernando Haddad
A revelação foi feita após vazamentos antecipados à imprensa (Foto: Reprodução)

O anúncio feito nesta quinta-feira (22) pelo futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), a respeito dos novos integrantes da sua equipe técnica dividiu especialistas.

Para alguns, a nomeação de Rogério Ceron (Tesouro Nacional), Robinson Barreirinhas (Receita Federal), Guilherme Mello (Política Econômica) e Marcos Barbosa Pinto (Reformas) parece um repeteco do governo Dilma Rousseff (PT), de viés desenvolvimentista, o que causa calafrios ao mercado financeiro.

Para outros, no entanto, os nomes anunciados por Haddad até agora –que incluem Bernard Appy como secretário especial para a reforma tributária e Gabriel Galípolo como secretário-executivo– têm qualificação suficiente para garantir uma boa interlocução com o mercado financeiro.

Além disso, por serem jovens em sua maioria, podem propor novas soluções no setor público.

“A política econômica alinhada aos anseios do mercado financeiro, adotada nos últimos dois governos [Michel Temer e Jair Bolsonaro], se mostrou um fracasso para as políticas públicas”, diz André Biancarelli, diretor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo ele, a ausência do estado em áreas fundamentais, como educação e saúde, vai continuar repercutindo por muito tempo na economia.

O anúncio de nomes como o de Guilherme Mello vem contrabalançar esta visão e se mostra em sintonia com o que propõe o novo governo, afirma. Mello é coordenador do programa de pós-graduação em desenvolvimento econômico da Unicamp, foi responsável pelo plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha eleitoral e, segundo Haddad, teve papel decisivo na definição dos subsídios técnicos que nortearam a negociação da PEC da Gastança.

“É uma pessoa aberta a opiniões diferentes e a negociar”, diz Biancarelli. Segundo ele, o novo secretariado de Haddad, de maneira geral, mostra-se aberto ao diálogo e a escolhas sensatas, que privilegiem o coletivo, ao contrário do governo anterior, que adotou uma postura “sectária”.

“É uma equipe pronta para trabalhar na interlocução com o mercado financeiro –com nomes como Galípolo e Barbosa Pinto– e, ao mesmo tempo, tem traquejo com a estrutura do Estado, como Ceron e Appy”, afirma.

Na opinião de Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, só o nome de Bernard Appy agradou até o momento. “Mas ele vai para uma secretaria especial, para cuidar de reforma tributária”, afirma. Rogério Ceron, para a Secretaria do Tesouro, também foi “bom”, mas é “uma secretaria que não tem muito o que mexer, está redonda”, diz.

“No geral, os nomes do Haddad deixaram a desejar no quesito de serem mais plurais, como ele havia prometido”, diz Cruz.

“Os nomes de Guilherme Mello, Gabriel Galípolo e outros são bem distantes do que a gente imaginava”, afirma o estrategista, lembrando das apostas em Felipe Salto (secretário da Fazenda do estado de São Paulo) e no economista Marco Bonomo, professor do Insper.

“Ficaram nomes mais desenvolvimentistas, mais com cara de governo Dilma, do que uma mistura de governos, ou até mais parecidos com Lula 1”, afirma.

“O Galípolo escreveu um artigo neste ano com o Haddad falando sobre uma moeda única para o Mercosul. Todo o mundo fica mais receoso com as ideias dele. E o Guilherme Mello tem uma agenda bem mais parecida com a do Nelson Barbosa [ex-ministro da Fazenda] e a do Marcio Holland [ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda], que não funcionou bem no governo Dilma.”

Para Cruz, Haddad correspondeu à preocupação que o mercado financeiro tinha em relação a ele, de ser desenvolvimentista. “Não tem como ser otimista com o que vem adiante, apesar de torcer para que seja um grande ministro”, afirma.

Texto: Lucas Bombana, da Folhapress

Leia Mais:

COMPARTILHE