Ao longo dos últimos anos, a Cidade Universitária da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) se tornou símbolo de um debate enviesado, alimentado por informações distorcidas, generalizações e falsas atribuições de culpa.
A obra, iniciada em 2012 com força durante o governo de Omar Aziz (PSD), acabou paralisada por fatores que vão muito além de decisões administrativas — e que envolvem também intervenções judiciais, disputas ambientais e descontinuidade política.
Diferente do que se espalhou em redes sociais e até em parte da imprensa, Omar Aziz não gastou R$ 300 milhões, tampouco abandonou a obra.
Levantamento com base em dados oficiais do Portal da Transparência, cruzados com documentos institucionais, mostra que até 2017 – ano em que as obras foram suspensas por decisão judicial provocada por ação do Ministério Público Federal (MPF) — o governo estadual havia investido R$ 147,1 milhões no projeto.
Esse valor representa quase 95% do total pago entre 2012 e 2024, segundo levantamento feito pela reportagem do RealTime1.
Uma narrativa construída pela repetição
A ideia de que a Cidade Universitária foi um “desperdício de dinheiro público” iniciado e abandonado no governo Omar Aziz é resultado de uma estratégia de repetição, que lembra a lógica da propaganda autoritária.
A frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler — “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” —, resume bem a forma como informações distorcidas sobre a obra foram disseminadas até se consolidarem como “opinião popular”, mesmo contrariando os fatos.
Onde foi aplicado o dinheiro público na Cidade Universitária?
A maior parte dos recursos foi aplicada entre 2012 e 2014, com destaque para:
- Construção da estrada de acesso: R$ 59,1 milhões
- Indenizações e reassentamentos: R$ 14,4 milhões
- Elaboração do plano diretor: R$ 8,3 milhões
Somadas, essas etapas consumiram R$ 81,8 milhões. Em abril de 2014, Omar se licenciou do governo para disputar o Senado e deixou R$ 2,27 bilhões em caixa.
No entanto, seu sucessor, José Melo, executou apenas R$ 11,7 milhões naquele ano. O ritmo da obra foi desacelerando até que, em 2017, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública (ACP nº 1001675-23.2017.4.01.3200), questionando a validade da licença ambiental emitida em 2013.
A Justiça Federal concedeu liminar suspendendo as obras. Dois anos depois, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) reconheceu o abandono do projeto e cobrou da UEA um plano de destinação para a área.
Linha do tempo: o que (realmente) aconteceu
| Ano | Marco principal |
| 2012 | Início das obras. R$ 15,9 milhões pagos. |
| 2013 | Maior investimento (R$ 53,3 mi). Licença de Instalação nº 083/2013 emitida. |
| 2014 | Omar se licencia em abril. José Melo assume. Investimento de R$ 11,7 mi. |
| 2015–2016 | Projeto perde fôlego, mas sem entraves judiciais. R$ 60,7 milhões pagos no período. |
| 2017 | MPF ajuíza ação civil pública. Justiça suspende a obra. Investimento acumulado: R$ 147,1 milhões. |
| 2018 | Obra praticamente parada. Apenas R$ 2,4 mil pagos. |
| 2019 | TCE-AM cobra destinação da estrutura e reconhece o abandono. |
| 2020–2024 | Pagamentos somam apenas R$ 7,9 milhões. Projeto permanece travado. |
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